“Só eu enxergo que esse Seedorf faz mal ao Botafogo?”

Por Thales Machado – da ESPN no Rio de Janeiro

Creiam vocês que tudo que narro aconteceu de fato. Tudo é literário, mas nada é inventado do que vi e vivi quarta-feira, na inolvidável noite no Maracanã, quando o homérico time do Botafogo viveu mais um capítulo de sua saga que já pareceu por algum par de vezes terminável. Foi lá, sem querer, que, creio eu, conheci uma figura ainda mais inesquecível. Talvez o mais botafoguense dos botafoguenses, o corneta-mor, o mais pessimista deles, aquele que, com orgulho, brada e repete em voz e pensamento o fato de que ninguém sofre mais do que ele, ninguém sofre mais, ninguém. Eis um torcedor.

Teórico de que nada de importante acontece nos cinco primeiros minutos que não valha a última cerveja fora do estádio, entrei quando as cadeiras cor AMARELO BEBÊ e AZUL CALCINHA do novo Maracanã já estavam tomadas por aqueles botafoguenses que esperariam 89 minutos por um gol. Avistei um senhor e dois assentos vazios a seu lado. Imponente que só ele, cabelos grisalhos e aquela cara de velho quase agradável, Walter (descobriria o nome depois) ocupava três cadeiras: a central com as nádegas (azul calcinha) e as duas vizinhas com o braço (ambas amarelo bebê). Arrisquei, desagradei e sentei ao lado, diminuindo seu nível de ocupância de lugares em um terço. Talvez não merecesse incomodar a quase paz do torcedor de cabelos brancos, mas, inspirado pela equipe de Oswaldo de Oliveira, fui abusado.

Logo reparei que estava no meio da turma do Walter. Ao lado dele, e ao meu, cinco senhores que também padeciam do dom e do tom da velhice. Apesar dos 26 anos, me senti em casa. Ainda que sentado em uma cadeira AMARELO BEBÊ.

Minutos depois, aos 17, é para outro coroa, Clarence Seedorf, 37, que vai meu olhar. Sozinho, dribla Cássio, é tocado, se mantém EM RISTE e chuta sem goleiro, mas fraquinho, nos pés de Paulo André. O zagueiro pintor salva o gol do meia cantor e é aí que começa a arte de Walter, que tem uma voz bem parecida com a do humorista Golias, revelada no primeiro impropério que ele solta contra o camisa dez de seu time.

“Eu faria esse gol com a bunda! Chega, chega desse Seedorf! Não joga nada esse cara!”, grita, gerando olhares em volta. Num bloco do eu sozinho de um só argumento, inflama a si mesmo. “Tira esse cara, Oswaldo, tira esse holandês de m… pelo amor de deus!”. Penso no quão são diversas as visões no mundo. Tento imaginar como era a vida desse senhor quando Lúcio Flávio vestia aquela camisa. Não dá tempo. Ele continua. “Não dá mais, tira esse cara. Ele só fica plantado ali no canto. Não faz nada. O BOTAFOGO PERDE MEIO CAMPO COM ELE COMO TITULAR” brada.

E segue por todo o primeiro tempo. “Até minha mãe na cadeira de rodas faria esse gol. Esse cara só atrapalha, é um mercenário, empresário, veio pra tomar dinheiro do meu Botafogo”. E eu, imóvel, não sei se pasmo pelo que ouço ou se por aquele senhor ainda ter mãe, mesmo que na cadeira de rodas.

Seedorf foi chamado de lento, mole, desagregador, medíocre e mercenário mais uma dezena de vezes até o fim da primeira etapa. Cada lamurio é uma jogada para Walter. Ninguém sofre mais do que ele. No intervalo, remoendo o gol perdido, anuncia aos amigos, sem pestanejar.

– Chega, vou embora. Não aguento mais ver jogo do Botafogo com esse Seedorf em campo.

Um amigo tentou evitar a fuga. Nem o nome do novo personagem é inventado. LUPICÍNIO (todos com mais de 70 deveriam se chamar Lupicínio) pede para Walter ficar e recebe impropérios mil, altos, nervoso, xingamentos dos quais VIÚVA DO HOLANDÊS é o mais afável.

– Ele é meu amigo, meu grande amigo. Nos conhecemos no Engenhão, em 2008. Vamos a todos jogos juntos. E ele vem me mandar tomar naquele lugar? Estou muito magoado. Mais do que se o Botafogo perder hoje – me conta Sr. Lupicínio, antes mesmo que eu perceba que, sem querer, virei terapeuta do casal de arquibancada.

– Quando o time tá mal ele esbraveja muito e é divertido, é engraçado. Quando tá bem ele implica e fica chato. Implicar com o Seedorf? Parece que bebeu – inocente, SUPÕE.

Lupicínio me agrada mais. Conversa, não fala sobre o passado, não escangalha o presente. Ama o Seedorf. Ama até o Edílson, mesmo antes da assistência magistral.

Com dez minutos, reaparece o Walter. Sem explicação. Seus dois assentos já foram ocupados, resta outro do meu lado. E assim vejo o segundo tempo, entre Lupicínio e Walter, separando uma amizade que o Botafogo uniu. Ainda pergunto se querem que eu troque de lugar, e ambos negam, com aquela cara de “deixa ele pra lá”. Orgulho arquibaldo, das antigas. Walter passa o segundo tempo todo repetindo que já fora jogador, que não era ruim, que faria mais pelo Botafogo do que aquele mercenário do Seedorf. O outro otimiza sobre Hyuri, falando que ele não joga nada mas vai fazer o gol. Amamos o Lupicínio, repito.

walter2

Aos trinta e cinco, em lance daqueles esquecíveis para sempre, Seedorf, no canto, perdeu uma bola. Alguém recuperou e devolveu. O holandês – santo para alguns tantos, mercenário para outros poucos – mal no jogo, errou um passe. A voz de Walter inflamou junto com a sua paciência.

– Não é possível que só eu enxergo que esse traste faz mal ao Botafogo? Só quer virar empresário, já não é jogador há muito tempo. – E aí sim, se foi de uma vez, definitivamente, sem nem olhar para minha assustada ou para a assustada e enrugada cara do amigo. Tirei até foto do momento, a que ilustra estas linhas.

E assim ficamos, eu e Lupicínio, quase abraçados, clamando por um gol que me deixaria sem dormir tamanha agitação e que daria a ele uma bela noite de torpor, tamanha tranquilidade. Nós jovens queremos alegria para dormir menos, enquanto os velhos ainda perseguem o êxtase para dormirem melhor. Dizia Nelson Rodrigues que “o jovem tem todos os defeitos do adulto e mais um: o da inexperiência”. Hyuri, inexperiente e defeituoso que só ele, foi lá e fez. Meu abraço principal de arquibancada já tinha destino.

E o Walter? Impossível não descer a rampa do Maracanã sem pensar em como foi seu fim de noite. Escondido em outra parte do Maracanã, perto ou longe, escutando no rádio no carro, ou vendo pela TV de seu apartamento, ele, por certo, comemorou e gritou ainda mais que nós todos.

Se invejou meu abraço em Lupicínio, foi só no subconsciente. É provável que tenha abraçado a si mesmo diante da certeza e da convicção de seu mau humor. Se tinha alguém do lado para falar, disse que esse Hyuri é muito mais jogador do que esse velho holandês. Se não tinha ninguém por perto, gritou em pensamento. E dormiu certo, convicto, punhos fechados de raiva, murmurando e matutando, com certo ar de satisfação, que ninguém sofre mais do que ele, ninguém sofre mais, ninguém.

40 comentários em ““Só eu enxergo que esse Seedorf faz mal ao Botafogo?”

  1. Tem coisas que só acontecem ao botafogo e aos botafoguenses!

    Amizade de arquibancada é realmente algo único! rsrsrsrsrsrsrs

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  2. São as loucuras que muitos de nos cometemos,elevada pela paixão clubística ! Bastava alí que o jogador tão xingado,tivesse feito aquele gol perdido e tão reclamado,para que o quadro mudasse completamente,.Cada um tem seu modo de torcer,agir e reagir às mais diversas situações da vida !

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  3. Zebraça essa do Oeste sobre o Paraná, amigo Cláudio. Não estava nos planos e obriga o Papão a se espertar fora de casa.

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  4. Égua, passei batido nesse post! Maravilhosos time e camisa sem propaganda. Pouco depois chegariam Mario Fernando, Zezinho siri na lata, Roque e um outro da base do Flu.

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  5. Roque quase leva o farelo contra a Tuna. O lateral esquerdo Haroldo deu uma bicuda certeira na cabeça do cara quando ela estava no chão, lembram?

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  6. Entretanto amigo Cláudio, com esse resultado do S.Caetano basta o PAPÃO empatar amanhã que passa para o 15º lugar. Se ganhar, então, vamos ao delírio…rss!!!

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