No Haiti, não há espaço para a soberba

Por Gerson Carneiro (no Viomundo)

DSC00757-002-e1376679144368Caindo a ficha…

Era uma hora e meia da madrugada de quarta-feira, 14 de agosto, quando lia comentários sobre meu texto a respeito das minhas impressões iniciais sobre o Haiti. Alguém chegou para verificar se estava tudo fechado, pois havia tiros próximo ao acampamento. Ingenuamente, exclamei: são tiros?!

– Sim.

Decidi ir dormir. Corrijo: decidi recolher-me.

Não há pacificação no Haiti. A presença maciça de militares, fortemente armados, de diversas nações, não configura paz ao Haiti. Não é objetivo primordial dos militares garantir segurança ao povo. Não é mesmo.

Há menos de dez anos matava-se no Haiti apenas por circular nas ruas em horário proibido, inclusive durante o dia, ainda que a pessoa não soubesse que havia proibição de circulação naquele determinado horário.

Há regiões perigosíssimas onde, especialmente estrangeiros, não devem circular.

Aliás, a cultura de violência é utilizada inclusive para “educar”.

Nas escolas (só há uma escola pública, o restante é particular) utilizam um chicote para “silenciar” a algazarra da criançada. Batem esse chicote na parede, ou nas mesas das crianças. As crianças até sorriem com o barulho da chicotada.

A estratégia imposta pelo dominador (franceses depois sucessivos ditadores; atualmente a casta de haitianos contemplados com empregos públicos – há pessoas com quatro simultaneamente, não há concursos públicos) é tão cruel que faz com que a população sinta prazer e dê risada quando um igual, por cometer algum delito, apanha. Por exemplo, quando a população bate em um ladrão na rua para que ele “aprenda” a não invadir a casa de alguém.

Nessas ocasiões, os homens surram o infrator e as mulheres manifestam alegria gritando e batendo palmas. Isso ocorreu com um jovem que foi flagrado dentro de uma casa mexendo em panelas sobre o fogão.

Ao mesmo tempo a mesma estratégia do dominador faz com que essa mesma população sinta medo e se curve ao dominador em “sinal de respeito à autoridade” até mesmo quando, por pura necessidade, precisa solicitar melhoria, ou quando não o próprio, benefício.

O povo haitiano é extremamente observador. E, de surpresa, faz perguntas diretas, incisivas, difíceis de serem respondidas. Ele te coloca contra a parede. Como na seguinte situação ocorrida em uma rua qualquer, quando por milagre meu Padim Ciço “alumiou” meu pensamento e consegui ser rápido:

– É a primeira vez que você está no Haiti?

– Sim.

– O que tem no Haiti que te traz aqui?

– Você. Só você é capaz de me fazer sair do meu país para estar aqui.

– Você voltaria aqui?

– Se eu perceber que estarei sendo útil voltando, voltarei. Mas não voltarei apenas por curiosidade. Apenas para observar você.

De verdade. O povo haitiano está saturado da presença rotativa de estrangeiros. De gente que vem aqui em busca de remissão. Gente que vem fotografar a dificuldade deles. Pra não dizer, a miséria deles.

É preciso estar atento. E manter o espírito humilde. Ninguém vem ao Haiti ensinar nada. Todos vêm ao Haiti aprender com o sofrido povo haitiano. Ainda que não admita, ou não tenha ciência disso. Ou acha que não. Um simples olhar de um haitiano pode desarmar qualquer forasteiro desavisado.

É um povo inteligente, com um talento enorme para cantar (especialmente as crianças), e uma facilidade espantosa de aprender rapidamente a se comunicar em diferentes línguas. Porém, com um forte bloqueio resultante de anos de submissão e opressão, que, cruelmente, impuseram a cada haitiano a convicção de que não são capazes de conduzir suas vidas sem a dependência de um forasteiro.

É possível e relativamente fácil encontrar um haitiano que fale ao menos francês e inglês. Não que fale fluentemente, mas  consegue fazer-se entender e ser entendido.

Procurei saber a razão de se encontrar com relativa facilidade haitianos que se comunicam em diferentes línguas. Um deles me disse que é porque o povo haitiano sempre conviveu com estrangeiros. Ora invasores, ora exploradores, ora missionários em ajuda humanitária, catequizando-os/evangelizando-os. Assim, o instinto de sobrevivência os conduziu à facilidade de comunicação como adaptação às constantes e rápidas mudanças políticas na babilônia que é o Haiti.

O que vou relatar a seguir, de tão inusitado, se não tivesse ocorrido comigo, pensaria tratar-se de invenção, de um exagero. Sim, de fato é um exagero, mas um exagero real. Acontecido.

Em uma tarde, eu caminhava em uma rua em direção a um hospital. Nisso passou um rapaz em uma bicicleta e me cumprimentou em Kreyol (dialeto haitiano): – Bonswa! (Boa tarde!)

Eu respondi: – Bonswa!

Ele parou, desceu da bicicleta, passou a me acompanhar e me perguntou em inglês em qual língua eu me expresso. Respondi que português. Ele então disse que também fala português. E acrescentou que fala italiano, espanhol e francês, além do inglês, português e kreyol. E relatava algo em cada uma dessas línguas ao passo que as citava.

Era um haitiano aparentemente simples, com sua bicicleta simples, com sua roupa simples, com seu calçado simples, sem emprego, esbanjando seu rico conhecimento em línguas para um estrangeiro brasileiro trajando roupas novas, calçado novo, bem empregado, bem remunerado, viajado, que fala porcamente inglês.

Aqui, não há espaço para soberba.

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