Uma experiência inédita em Portugal

Por Paulo Curado (Jornal Público, de Lisboa)

BENFICAA Benfica TV rompeu com o monopólio da Sport TV nas transmissões televisivas do futebol, mas falta apurar se o negócio será tão rentável para os “encarnados” como a proposta que recusaram da Olivedesportos. Pela primeira vez no mundo, um clube arriscou explorar os seus próprios jogos. Após quase três décadas sem concorrência no rentável negócio das transmissões televisivas dos jogos de futebol, a Olivedesportos/PPTV irá lidar este ano com a realidade da Benfica TV e o empresário Joaquim Oliveira vê chegar ao fim o seu monopólio.

Pela primeira vez em Portugal (e no mundo), um clube de futebol arriscou explorar os direitos televisivos dos seus jogos em casa, através do seu canal televisivo oficial. A entrada de um novo protagonista neste mercado terá impacto na factura mensal dos telespectadores que queiram acompanhar os jogos nos canais pagos da televisão por cabo. Mas a conta até pode ficar menos pesada .

A quatro meses de completar cinco anos, a Benfica TV entrou numa nova fase da sua existência ao tornar-se num canal desportivo codificado com assinatura mensal. Uma decisão estratégica dos dirigentes “encarnados” que terá um impacto financeiro considerável no clube, ainda difícil de antecipar. Para já, levanta-se uma questão fundamental, que é saber se a Benfica TV irá gerar receitas a curto e médio prazo semelhantes ou até superiores aos valores oferecidos pela Olivedesportos.

Por enquanto, a julgar pelo actual número de assinantes do novo canal “premium” da televisão por cabo, parece difícil acompanhar a proposta apresentada pelo detentor da concorrente Sport TV, em Março de 2012: 111 milhões de euros pelos direitos das transmissões televisivas dos jogos caseiros da equipa da Luz durante cinco anos (até ao final da temporada 2017-18), numa média de 22,2 milhões por época. 

Em busca da rentabilidade

Com um valor mensal de assinatura de 9,90 euros e pouco mais de 100 mil subscritores (segundo os últimos números divulgados pelo Benfica), que podem gerar aproximadamente 12 milhões de euros anuais, a bitola estabelecida por Joaquim Oliveira está ainda muito distante. Até porque às receitas globais geradas pelas subscrições, terão ainda de ser debitados impostos, a percentagem dos operadores por cabo e os custos de produção (onde se incluem os custos dos direitos dos jogos de alguns campeonatos internacionais, com a Liga inglesa à cabeça).

Resta saber se as receitas publicitárias do canal, associadas às vendas dos direitos televisivos dos jogos do Benfica para fora de Portugal (nomeadamente para o mercado lusófono e para as comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo) irão equilibrar a balança. “O mercado português não potencia muito as receitas televisivas, comparativamente com aquelas que se registam em outros países europeus”, alertou ao PÚBLICO António Samagaio, professor do ISEG (Instituto Superior de Economia e Gestão). Segundo este economista, o negócio da Benfica TV poderá ter “outros contornos”, determinantes para a sua viabilização financeira, dos quais não tem sido disponibilizada toda a informação: “Nomeadamente as questões relacionadas com a publicidade, mas também com a venda dos jogos nos mercados externos.”

Face a todos estes imponderáveis, António Samagaio remete para mais tarde um balanço sobre o impacto do canal nas contas do clube. “No final da próxima temporada é que se poderá perceber se isto foi ou não um bom negócio, ao analisar as contas da SAD (Sociedade Anónima Desportiva do Benfica) [que controla o canal]. Mas, à partida, esta decisão parece ter sido, acima de tudo, estratégica”, defendeu.

Mas outras questões se levantam com a entrada no mercado de um canal desportivo de um clube, nomeadamente ao nível ético. Um dos objectivos assumidos pela Benfica TV passa por adquirir os direitos televisivos de jogos de outras equipas portuguesas dos campeonatos profissionais (I e II Liga) para aumentar a sua oferta de conteúdos. Para já, foi apenas formalizado um acordo com o Farense, promovido à II Liga na última época, válido para as próximas três temporadas (independentemente da divisão em que a equipa algarvia venha a competir).

Mas foram apresentadas, igualmente, propostas a outros clubes. Alguns do escalão principal. O presidente do Marítimo, por exemplo, já afirmou publicamente que equaciona a possibilidade de estudar a hipótese de os jogos dos insulares serem também transmitidos pela Benfica TV. A confirmarem-se futuras parcerias, as mesmas podem ser geradores de conflitos de interesses.

É que a Benfica TV continua a ser o canal de um emblema desportivo ao mesmo tempo que se perfila como um parceiro financeiro importante de clubes adversários na mesma competição. Uma situação que poderá ser mais empolada, caso a equipa da Luz opte por privilegiar estes “aliados” com empréstimos de jogadores para promover subidas de divisão ou para os manter no escalão principal, em detrimento de outros participantes nas provas.

“A estratégia comercial e económica da Benfica TV, que é legítima, terá menosprezado o lado desportivo”, defendeu ao PÚBLICO o jurista José Manuel Meirim, especialista em direito do desporto. “Poderá constituir um risco para os valores da igualdade e verdade competitiva que o Benfica venha a participar nas mesmas competições em que se encontrem clubes cujos direitos de transmissão televisiva foram adquiridos pela Benfica TV”, explicou.

Imparcialidade questionada

Outro ponto que suscita reservas relaciona-se com o distanciamento que terá um canal de um clube para analisar e comentar jogos que envolvem a própria equipa, assim como as garantias de imparcialidade na edição das imagens destas partidas. Se não está em causa a legitimidade do Benfica em utilizar os direitos de transmissão dos seus jogos da forma que considerar apropriada (tem inclusivamente o direito de não os emitir), bem menos pacífica é a questão da disponibilização de imagens (e quais) para resumos em outros canais ou para servir como meio de prova para a Liga sancionar lances polémicos (os processos “sumaríssimos”) que não foram descortinados pelo árbitro no decorrer dos encontros.

Sobre todas estas matérias, o presidente da Liga Portuguesa de Futebol Profissional, Mário Figueiredo, tem, para já, mantido o silêncio, não respondendo a um conjunto de questões sobre esta matéria que lhe foram enviadas pelo PÚBLICO, por email. Menos reservado tem sido o presidente do FC Porto, Pinto da Costa, que alertou, recentemente, para os potenciais conflitos de interesses que envolvem a estratégia comercial da Benfica TV. “Acho interessante que um clube esteja a fazer negócios com outros clubes para transmitir jogos desses clubes. Será interessante ver o relacionamento e o conflito de interesses que daí advém”, alertou o dirigente, numa recente entrevista ao jornal O Jogo, onde não deixou de ironizar o silêncio da Liga: “Se a Liga e os intelectuais analistas dos jornais ainda não levantaram qualquer problema é porque, se calhar, está correcto que amanhã o canal de um clube transmita até os jogos todos do campeonato. Se calhar está mesmo bem.”  

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