Por Fred de Melo Paiva – do “Estado de Minas”
Depois de sorver 800 cervejas no Bar do Salomão e cantar o hino do Galo umas 350 vezes, acordo numa ressaca danada e temo que tudo não tenha passado de um sonho. Ligo para a recepção do hotel: “O senhor pode me confirmar, por gentileza, se o Atlético ganhou?” Sim, o Atlético ganhou. Ganhou. GANHOU! O ATLÉTICO GANHOU! Me belisco, tomo banho de água fria, chuto o pé da cama com o dedo mindinho, bato a cabeça contra a parede – sim, é tudo verdade: o Atlético é campeão da Libertadores. O título impossível, que tantas vezes e tão injustamente nos escapou, agora é nosso. Daqui pra frente, cada atleticano terá de se reinventar, porque cada um de nós foi forjado na dor e na esperança. Agora não dói mais, e tudo o que a gente esperou, como se Deus sorrisse pra gente, aconteceu de verdade.
Tinha que ser no Mineirão. Tinha que ser naquele endereço! Tinha que ser naquele gol, onde o Cerezo chutou pra fora em 1977. Calhou de eu estar sentado bem no meio do campo, onde em outros tempos ficavam as bandeiras verticais da Galo Elite. Ali, bem naquele pedacinho, eu virei adulto. Ali eu vi um negro alto e forte chorar todas as suas lágrimas quando o Sérgio Araújo empatou o jogo contra o Flamengo na Copa União. Esse negro alto e forte me abraçou com tanta emoção, com tanto afeto e sinceridade, que eu gostaria demais de saber onde ele estava na noite da última quarta-feira. Terá ele sobrevivido desde aquele longínquo 1987?
Foi nesse negro alto e forte que eu pensei quando olhava para o concreto aparente sob os meus pés e sobre a minha cabeça. Eu tinha que ver aquilo me sentando naquele lugar, olhando para o chão e para o teto, porque me faltou coragem para assistir aos pênaltis. E a cada bola que entrava, e a cada bola que não entrava, eu me sentia como o cego da crônica do Roberto Drummond – que ia ao campo mesmo sendo cego e via os gols no grito da Massa.
De repente, fez-se um silêncio. Eu quase pude ouvir o chute, e depois a bola estourando no travessão. O nosso Roberto Baggio, como bem disse o Juca Kfouri. Aquela bola no travessão é o ponto final de tudo – de todas as desgraças da vida, dos sonhos que não realizamos, dos amores que não vivemos. Quando eu tirei os olhos do chão, uma criança à minha frente me olhou nos olhos e disse que a gente ia ganhar. Que coisa mais linda poder ensinar a uma criança que se a gente não desiste, se a gente persiste e acredita, a nossa hora chega.
Quando a Massa estourou junto com aquela bola na trave, eu corri pra abraçar esse menino, como se fosse eu o negro alto e forte que me abraçou em 1987. Obrigado, menino! Obrigado, meu Deus! Obrigado a cada atleticano do mundo! Obrigado aos meus tios que me fizeram ser atleticano! Obrigado, Victor, Leonardo Silva, Jô! Obrigado, Gropen! Obrigado, Kalil! Ontem o seu pai estava lá, eu tenho certeza.
Agora, do alto da minha mais importante ressaca de todos os tempos, me pergunto: o que faremos nós de nossas vidas? Que outro objetivo vamos almejar? Formar um filho? Casar uma filha? Ganhar o primeiro milhão? Ficou tão pequeno… Talvez eu me mude para o Salomão. Talvez vire um andarilho, para pagar a promessa não cumprida do Telê. Talvez eu caminhe até o Marrocos, abrindo o Atlântico como Moisés.
Deixe uma resposta