Por Gerson Nogueira
Mais do que a festa por um título internacional importante, é preciso louvar a atuação harmoniosa do Brasil ontem diante da Espanha, traduzida num resultado surpreendentemente tranquilo contra a melhor seleção do mundo. Conquistar o quarto título (terceiro consecutivo) da Copa das Confederações não é o mais importante a essa altura, embora também seja um troféu expressivo. O que mais conta neste momento é o ajuste perfeito que Felipão conseguiu com o elenco que tem nas mãos.
Todos sabem que este não é um grupo brilhante, e isso redobra o significado de uma vitória que foi construída com engenho e arte, a ponto de parecer incrivelmente natural depois dos 90 minutos. A Espanha, que ainda não havia sido abatida com tamanha contundência desde a conquista do título mundial em 2010, é um time que valoriza ao extremo a posse de bola. Trabalha tanto a troca de passes que cunhou uma definição engraçada para isso – o chamado estilo tic-tac.
O grandioso triunfo deve ser atribuído à supremacia tática, à determinação de marcar em todos os quadrantes, ao empenho em quebrar o celebrado passe do adversário e à excepcional exibição de condicionamento físico. Sem esquecer alguns detalhes que contribuíram bastante para o placar final.
Marcar um gol num clássico internacional logo aos 2 minutos é aquele tipo de presente que qualquer seleção almeja. O Brasil de Felipão alcançou isso, em lance que pegou a defesa espanhola ainda fria. Foi um gol típico de centroavante. Bola dividida, lanche chorado.
A partir do gol, a balança pendeu para o Brasil, até mesmo pela barafunda em que se transformou a zaga da Fúria. Qualquer tentativa de ataque confundia Piqué e seus companheiros. Oscar, depois de tabelinha com Neymar na área, perdeu o segundo gol, batendo à direita de Casillas.
Fred perderia outra grande oportunidade, batendo em cima do goleiro após bola enfiada por Oscar, mas foi David Luiz que brilhou no lance mais importante para o equilíbrio da final. Em chute seco de Juan Mata, aos 41 minutos, ele se atirou na bola para evitar o gol quase em cima da linha. É o tipo de jogada que poderia determinar uma mudança radical no andamento da partida. O empate daria à Espanha a chance de se recompor, além de abater a esquadra nacional.
Quis o destino que, minutos depois, Oscar passasse com elegância e precisão para Neymar ampliar o marcador. Cabe notar que, comprovando o amadurecimento como atacante, o camisa 10 deu um passo atrás se livrando do impedimento para receber o passe em condições limpas. O chute seco no ângulo coroou a manobra.
No segundo tempo, novamente aos 2 minutos, um gol para sufocar qualquer pretensão espanhola. Fred, letal no chute rasteiro, pôs o 3 a 0 no placar, deixando a impressão de que a goleada estava em construção. Felipão, porém, resolveu pisar no freio e o Brasil passou a valorizar o passe, quase à espanhola, levando o jogo quase sem sustos até o fim.
O penal, bobamente concedido por Marcelo, serviu apenas como sinalização de que um confronto decisivo não permite a desconcentração. A cobrança errada de Sergio Ramos deixou a certeza de que não era mesmo a noite da Fúria. O que não diminui em nada o feito brasileiro, pois a desdita dos comandados de Del Bosque deveu-se à excepcional atuação brasileira.
Passadas as comemorações, é preciso entender que o Brasil ganhou um torneio preparatório, derrotando três seleções de primeira linha (Espanha, Itália e Uruguai), mas o que interessa é o banquete principal daqui a um ano. A afinação da orquestra começa a aparecer e isso é admirável num time que se revelou em 30 dias. Deixa a esperança real de que pode ser um timaço de verdade até a Copa chegar.
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Felipão cada vez mais com o time na mão
Além de Fred, Neymar e David Luiz, os principais destaques da decisão, a seleção de Felipão se complementou com outros valores que foram evoluindo desde a estreia contra o Japão. Refiro-me a Paulinho, Luiz Gustavo, Tiago Silva e Julio César. Alguns ficaram devendo – Oscar, Daniel Alves, Hulk e Marcelo –, mas o comprometimento do grupo garantiu a segurança necessária para superar situações difíceis, como contra o México e o Uruguai.
Acima das individualidades, paira a capacidade de organização novamente demonstrada por Felipão. Acertou na maioria das escolhas pós-Mano Menezes e esteve quase perfeito nas mudanças feitas durante os jogos. Ontem, por exemplo, poderia ter usado o rápido Bernard para explorar a exausta zaga espanhola depois da expulsão de Piqué. Preferiu Hernanes e Jadson, para cozinhar o galo e levar o jogo em banho-maria. Deu certo. Quem se atreve a criticá-lo pela estratégia cautelosa?
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O primeiro troféu do Tricolor de Marituba
A Desportiva conquistou seu primeiro título oficial, sábado, depois de superar o Remo na decisão do Campeonato Paraense Sub-20. Perdeu no tempo normal, mas, como havia vencido a primeira, levou o jogo para os penais. Competente, marcou 4 a 2 sobre o Remo e ficou com a taça.
O projeto de clube-empresa desenvolvido pela Desportiva é uma experiência nova no Pará e tem tudo para semear o germe da boa gestão. Administrado profissionalmente, com comissão técnica contratada e infra-estrutura de times de Série A, o tricolor de Marituba parece ter chegado para ficar. Que o seu exemplo frutifique. (Fotos: Wander Roberto/VIPCOMM; Mário Quadros/Bola)
(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta segunda-feira, 01)


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