Manhas e manias em jogo

Por Gerson Nogueira

bol_dom_050513_23.psAs constantes mudanças promovidas pelo técnico Flávio Araújo no Remo desnorteiam a torcida e, desconfio, confundem a cabeça de seus próprios jogadores. Nos últimos jogos, laçou mão de nada menos que três sistemas diferentes. Contra o Flamengo, usou o 3-5-2. Diante do Paissandu, adotou primeiro o 3-6-1 e, em seguida, o 4-5-1. Na quarta-feira, contra o PFC, voltou ao 3-5-2. Convenhamos, é muito esquema para pouco futebol.

Para a batalha deste domingo em Paragominas, pela ordem natural das coisas (se é que a lógica conta nessas horas), Araújo deve recorrer ao sistema 3-6-1, que foi o mais bem sucedido até agora, conseguindo finalmente instilar vida inteligente no até então desenxabido meio-de-campo remista.

Por tradição, o futebol é rico em manias e rituais envolvendo técnicos e jogadores. Um dos exemplos mais citados é o de Cuca, atualmente no Atlético-MG, que costuma infernizar a vida de seus comandados com superstições extravagantes. É capaz de discutir com motorista para evitar que o ônibus da delegação faça recuos para estacionar.

Há, ainda, os indecisos de carteirinha, que permanecem em dúvida até os últimos instantes antes de a bola rolar, seja por cisma ou estratégia. O suspense torna-se rotineiro, incorpora-se ao dia-a-dia e afeta toda a preparação de um time.

Araújo, por relato de profissionais que convivem com ele no Baenão, é seguramente é um dos treinadores mais hesitantes da história recente do Remo. Pode se consagrar hoje, vencendo o returno e garantindo a tão sonhada vaga à Série D, mas não mudará a imagem construída nesses quatro meses de Pará.

Além das dúvidas quanto ao esquema de jogo, costuma também embaralhar as coisas na escolha dos jogadores. Pode ser um traço de perfeccionismo, mas deixa todos em volta com os nervos à flor da pele. Depois de se transformar num dos goleadores do time no turno, o atacante Fábio Paulista foi simplesmente esquecido. Tony também foi limado. Tragodara, tímido e silencioso, não é sequer lembrado nos treinos.

Na preparação para o jogo de volta contra o Flamengo, pela Copa do Brasil, treinou seguidamente um esquema, usando determinados jogadores como titulares. Em cima da hora, mudou tudo e modificou a escalação. Não é de estranhar que o time tenha se comportado de maneira tão estranha, sem saber direito o que fazer quando tinha a posse de bola.

Do outro lado do ringue está Charles Guerreiro, que é a personificação do jeito simples e boleiro. Bonachão, fala a linguagem dos comandados, faz questão de ser tratado como mais um no grupo. Rejeita os salamaleques de “professor” e faz da comunicação direta uma de suas armas. É a antítese de Araújo.

No confronto do returno, na Arena Verde, com o campo transformado em piscinão, Charles não se aperreou com a dificuldade provocada pela chuva. Orientou seus jogadores a chutarem a gol sempre que passassem do meio-de-campo. O time entendeu o recado e não perdia tempo com passes rasteiros. O Remo, ao contrário, levou 40 minutos para chutar a primeira bola em direção ao gol. Não podia ter outro destino: acabou perdendo o jogo.

É essa clara diferença de estilos que pode determinar o vencedor do duelo. Pelo pendor à cautela, Araújo tende a cuidar com mais zelo pelo setor defensivo. Talvez por isso o Remo tenha acumulado tantos pontos – que, no fim de tudo, podem não valer nada – sem conseguir cravar uma goleada ao longo do campeonato.

Entre o jeitão boa-praça de Charles, aparentemente sem nenhuma dúvida quanto ao que fazer, e o estilo carrancudo e inconstante de Araújo viverá o confronto final do returno. Ao lado do campo, ambos poderão fazer a diferença no jogo, exercitando suas maneiras peculiares de lidar com futebol.

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Associados e conselheiros em conflito

Enquanto o time encara missão das mais espinhosas em Paragominas, a diretoria e o Conselho Deliberativo travam embate pesado noutro front. A gestão de Sérgio Cabeça é questionada pela Assoremo, entidade que representa os associados do clube.

A associação comprou briga com alguns conselheiros e beneméritos ao cobrar respostas sobre o projeto de sócio-torcedor, a implantação de eleições diretas no clube e mais transparência na prestação de contas. Manoel Ribeiro, presidente do Condel e contrário às diretas-já, não engoliu a interpelação.

Teria chamado de “vagabundos” os membros da associação, acirrando ainda mais os ânimos. Em resposta, a Assoremo expediu nota dirigida ao “Marechal da Vitória” lamentando seu posicionamento e aconselhando-o a entregar o cargo no Condel. Os sócios acham, com certa razão, que Ribeiro e outros conselheiros estão divorciados das arquibancadas e se mantêm alheios às aflições do torcedor.

Em favor da atual diretoria há o fato indesmentível de que reduziu em mais de 70% as pendências trabalhistas, em trabalho heróico desenvolvido no primeiro mandato pelo grande benemérito Ronaldo Passarinho. O esforço para sanar débitos não arrefeceu, mas, até pelo hábito de se fechar como ostra, a diretoria pouco evidencia e propaga esse feito.

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Facilidades e armadilhas

Desde que o mundo é mundo, o Botafogo é dado a aprontar surpresas, principalmente quando se vê favorito. Não posso deixar de perceber esse sentimento antes desta decisão que se desenha inteiramente favorável à Estrela Solitária. O empate garante o título e, para tornar tudo ainda mais mamão com açúcar, Abelão quer escalar um time misto. É tanta facilidade que desperta desconfiança. Só me resta esperar que o Glorioso não se permita distrair por esses falsos meneios e cumpra sua missão.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO deste domingo, 5)