Os campos minados

Por Janio de Freitas

Para os governadores em geral, a morte do jovem boliviano, por obra de torcedores brasileiros, não lhes disse nada, ou nem existiu. O assunto, no entanto, tem relação direta com responsabilidades dos governadores, ou não cumpridas ou cumpridas insuficientemente.

O Brasil é o atual recordista mundial de mortes por incidentes com torcedores. São 44 –23 delas com inquérito policial, conforme citação em bom programa de Carlos Eduardo Eboli, na rádio CBN, com estudiosos da violência nos estádios. Ao menos uma das mortes, há alguns anos, decorrente também de um rojão (ou foguete), em Belém.

A segurança nos estádios é de responsabilidade dos governadores. Aos clubes, federações e confederações competem outros elementos da organização, como regulamentos e eventuais punições. Não faz sentido cobrar a essas entidades, como está ocorrendo em referência ao incidente na Bolívia e já ocorria aqui, o que é atribuído por lei à função das forças estaduais.

Estas são as detentoras do poder de revistar, apreender objetos, excluir, reprimir e prender. De assegurar, portanto, a integridade, a tranquilidade e todos os demais direitos das pessoas não envolvidas em irregularidades ou ilegalidades.

Como orientação adicional para o respeito devido aos torcedores e suas famílias, foi criado o Estatuto do Torcedor. Mas boa parte dele não está sendo cumprida. Inclusive, ou sobretudo, quanto à segurança dos torcedores.

A vulgarização dos rojões para recepção à entrada dos times é um exemplo. Não é só uma manifestação bárbara, pela agressividade auditiva e respiratória. É, acima de tudo, um risco imenso para a integridade física de torcedores, com frequência atingidos pelos borrões de fogo. As clareiras que se abrem velozes nas torcidas dão testemunho do perigo produzido pelos rojões. Pois a essa ameaça boçal vieram somar-se os sinalizadores, cuja idêntica agressividade potencial dispensa palavras, nesta altura.

Os governos não se fazem presentes nos estádios na medida necessária ao cumprimento de sua responsabilidade. A começar da sua escassa capacidade numérica de reprimir a entrada de rojões, sinalizadores e do que mais viole a segurança pública. Nem estão presentes em número bastante para introduzir-se nas torcidas e reprimir os baderneiros de sempre.

Mas por trás das transgressões ao Estatuto do Torcedor não está só a omissão dos governantes, igualmente comprometedora se total ou parcial. Muito do que torna a ida aos estádios um esporte de risco é patrocinado por clubes. As entradas e camisas que dão para as torcidas venderem e se financiarem, além de outras ajudas, não têm fiscalização alguma. Seja oficial ou dos doadores. Os clubes não sabem a quem estão mandando para os estádios, nem o que esses beneficiados levam e vão fazer em meio aos torcedores. Essa falta total de regras e de seriedade é o caminho para as conivências, à espera das responsabilizações penais.

Mas sabe por que isso tudo? Não é só por que as mal denominadas “torcidas organizadas” são úteis para a politicagem interna nos clubes. É que também a imposição de condutas civilizadas nos estádios, por parte dos governantes, exige mexer com grandes contingentes de torcedores. Quer dizer, eleitores.

6 comentários em “Os campos minados

  1. Desculpe, Gerson, sair do foco:

    “As rodadas finais do Campeonato Brasileiro da Série A não serão mais dedicadas à realização dos clássicos estaduais a partir deste ano”.

    Acho isso um retrocesso. Em face das rivalidades estaduais, que muitos querem desvalorizar, voltarão as “entregadas”.

  2. RSRSRSRSRSRS
    JA sei de tudo que que foi relatado nesse comentário do Janio Freitas, concordo com tudo e ja tinha aduantado ou feito essa analise em comentário anterior nesse blog. Acho que vou me candidatar a comentarista. rsrsrsrsrsr.

  3. Mas isso tem tudo a ver caro Antônio Valentim. A desculpa para tal mudança é exatamente a alegação de incapacidade por parte das forças de seguranças estaduais para conter a violência das torcidas rivais.

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