Que a tragédia deixe lições

Por Gerson Nogueira

A três dias do Re-Pa, a notícia da tragédia de Oruro pode ter pelo menos um mísero efeito positivo: o de obrigar os órgãos de segurança a redobrarem a vigilância sobre as torcidas organizadas dos eternos rivais. Que o funesto destino do menino Kevin, de 14 anos, vitimado por um sinalizador arremessado como míssil pela torcida do Corinthians, sirva de alerta em relação à criminalidade que se alimenta da paixão popular por Remo e Paissandu.

Em certeiro artigo, o jornalista Flavio Gomes argumenta que não cabe definir a tragédia boliviana como um acidente. “Um morteiro disparado de dentro de um estádio de futebol não é uma fatalidade. É uma estupidez”, escreve Gomes. Concordo inteiramente.

Não adianta insistir na tese conciliadora de que as “organizadas” se diferem umas das outras e que existem bons sentimentos movendo a estrutura de guerra montada nos submundos do futebol. Manter esse discurso é compactuar com a violência sem freios dos grupos paramilitares que infestam os estádios de futebol no Brasil e, particularmente, em Belém.

bol_sex_220213_15.psO caso Kelvin vem se juntar a um longo histórico de matanças causadas pela insanidade das hordas que usam o futebol para disseminar ódio e praticar atos criminosos. Desde a barbárie das 38 mortes no estádio belga de Heysel, na final da Copa dos Campeões de 1985, quase o mundo todo adotou providências para barrar a insanidade. No Brasil, porém, tudo continuou como dantes.

Os ingleses, envolvidos diretamente naquele triste episódio através da torcida do Liverpool, foram implacáveis com os hoolligans, criando mecanismos de fiscalização e punição rigorosa. Em sentido contrário, o futebol brasileiro permaneceu refém dos bandidos organizados.

A passividade passou a pautar a relação de Belém com os criminosos disfarçados de torcedores. Famosa por nutrir paixão irrefreável pelo futebol, a cidade passou a ser conhecida pela selvageria nos estádios. Ir ao Mangueirão e sair vivo é quase uma façanha.

Por tudo isso, autoridades e dirigentes têm a responsabilidade de garantir que, a partir deste domingo, o ato de ir ao Mangueirão volte a ser apenas um belo programa de domingo. É intolerável, sob todos os pontos de vista, que os bandidos continuem dando as cartas. Chega.

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O longo inverno de Ganso

O São Paulo vai bem, vencendo tanto na Libertadores quanto no certame paulista. Não se pode dizer o mesmo de Paulo Henrique Ganso. Na quarta-feira, contra o São Caetano, o time marcou 4 a 2 e teve o armador paraense por 80 minutos em campo. Um recorde nos últimos tempos, mas talvez fosse melhor nem ter jogado.

Aliás, há dúvida se Ganso realmente entrou, pois sua participação foi apagada. Envolveu-se em poucos lances e parecia alheio a tudo, quase sonolento. Para um jogador que foi contratado a peso de ouro – a maior transação do futebol nacional em todos os tempos – e ainda carrega a expectativa de ser o camisa 10 do Brasil na Copa, Ganso vem fazendo muito pouco. No ritmo que vai logo deixará de receber o tratamento de astro que o São Paulo ainda lhe devota.

Ao ser abordado por um repórter, depois de ser substituído, o paraense avaliou que merecia uma nota 6. Tremendo exagero. Quem acompanhou a partida sabe que, por qualquer critério, Ganso deveria receber nota vermelha. De reprovação – e decepção.

O curioso é que, na mesma noite, outro paraense apareceu positivamente. O renegado Jobson, que busca no São Caetano uma nova reabilitação para o futebol, marcou um bonito gol e deu passe para outro.

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Remo é condenado por negligência

A nova condenação sofrida pelo Remo no STJD, em julgamento ocorrido anteontem, relacionado com os incidentes verificados no jogo contra o Mixto-MT pela Série D, confirma que dirigentes e clubes precisam se organizar em todos os aspectos. É inadmissível que o clube tenha deixado de pagar a multa estabelecida no primeiro julgamento, no valor de R$ 4 mil. Desta vez, o tribunal acrescentou R$ 1,5 mil e suspendeu o presidente Sérgio Cabeça por 90 dias.

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Façanha dos baluartes

Um novo recorde regional na blogosfera foi estabelecido nesta quinta-feira pelo http://blogdogersonnogueira.com/: mais de 8.300 visualizações (com mais de 4.600 visitantes). Vitória que divido, acima de tudo, com os baluartes que mantêm vivo o debate diário no blog.

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Direto do blog

“O Brasil quase fica fora da Copa depois que a fogueteira Roberta jogou um rojão no Maracanã. Dependendo do que diz o regulamento, embora eu ache injusto, o clube infelizmente deve pagar o pato pela irresponsabilidade desses marginais que acham que estão fazendo a coisa mais linda do mundo. Queria que essa tragédia pelo menos servisse pra que as autoridades brasileiras faça o que fez as daqui do Pará. Eles podem até existir, mas é só proibir a entrada deles uniformizados e portando qualquer tipo de material (faixas, bandeirões, sinalizadores etc.) o futebol não precisa desses caras. Os clubes não precisam.”

De Edson do Amaral, a respeito da estúpida morte de um torcedor boliviano no jogo San José x Corinthians.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta sexta-feira, 22 de fevereiro)

16 comentários em “Que a tragédia deixe lições

  1. Infelizmente, Gerson e amigos, teremos que pegar como exemplo, a morte de mais uma criança nos estádios de futebol… Não é possível que a nossa PM não consiga dar segurança aos torcedores que irão ao Mangueirão no Domingo… Acredito que precisamos punir com mais rigor esses baderneiros, travestidos de torcedores… Quantas pessoas, de bem, deixarão de ir ao estádio no domingo, por causa deles, imaginem…. Até quando…

    – Precisamos ter mais calma com o Ganso… Sua recuperação, é lenta e precisa de apoio para voltar a praticar seu bom futebol..Nesse momento terá, certamente, altos e baixos em relação a sua atuação dentro de campo, o que é normal… Uma coisa é certa, ele não desaprendeu… É questão de tempo e o bom técnico Ney Franco, sabe disso…

    É a minha opinião.

  2. Pronto… O Cabeça que só fazia assinar documentos, agora, nem isso poderá fazer… Vai pra Fortaleza tirar umas férias, Presidente, o Pirão tá comandando mesmo… Acredito que essa notícia não teria hora melhor para aparecer…. Viiiiiibraaaaaaaa, Cabeeeeeeeeçaaaa.. Te dizer..

    Concordo com o amigo Édson, também penso que o Corinthians deveria ser eliminado e servir de exemplo para o Mundo… Te que punir, mesmo..

    É a minha opinião…

  3. Deixei pra comentar sobre mais essa façanha do blog, após 8:06hs da manhã, pelo fato de ter feito uma medição dos acessos, nesse horário, ontem e hoje.

    Ontem, 08:06hs, o Blog tinha: 2.890.776 acessos

    Hoje, no mesmo horário, 08:06, o blog tem: 2.899.738

    Em 24hs, houve de 8.962 acessos… Te contar..

    Certamente, bateremos 3 milhões de acessos, ainda em março, ou seja, pela primeira vez, desde 2009, ano em que foi criado, o blog baterá a casa do Milhão, antes do mês de aniversário….É o blog Campeão, realmente… Parabéns ao amigo Gerson..

  4. Pra mim é inconcebível que a Comenbol, mais uma vez, deixe passar em branco, a arruaça de torcedores nas competições que ela patrocina. Ou seja, pra mim a Comenbol tem que punir com rigor e com justiça o Corinthians pela funesta estupidez de seus respectivos torcedores. E nesta ordem de idéias, após a investigação e o julgamento, o que me parece rigorosamente justo, é impor ao Corinthians, em caráter definitivo, a punição que ele já vem cumprindo de maneira cautelar. Isto é, que jogue o restante desta competição (e mesmo mais uma ou duas que venha a participar futuramente), de portões fechados. Mais do que isso, eliminação da competição, como se têm cogitado, me parece que será tomar o Corinthians como bode expiatório da costumeira leniência da Comenbol.

  5. Estava meio otimista com toda a programação da Polícia//Justiça para os jogos, no entanto, em detrimento à tragédia de Oruro, um Comandante da Polícia Militar, em entrevista, hoje pela manhã, em um telejornal, afirmou que não há nenhuma estratégia envonvendo os fogos, porque nunca houve problema em Belém com fogos nos estágios, trata-se de um costume local.
    Ora, haverá necessidade de mortes semelhantes em nossos estádios para que haja uma ação voltada a essa repreensão?
    Então o que ocorreu em Oruro não serve de lição para nós em Belém?
    Se for assim, então caro Gerson, sinto que não conseguiremos, tão cedo, talvez nunca, transformar esta realidade violenta. A carga de ações do Estado deve ser total, ou seja, cercando todas as possibilidades de conflitos.
    Não aconteceu tragédia semelhante ainda em Belém, comemoremos, mas não deixemos de lado qualquer tipo de foco, até porque, por uma questão lógica, na hipótese de só restarem os fogos de artifício para servirem de armas, em face da força opressora antecipada, os meliantes (e não torcedores) deles se utilizarão para conseguirem seu inteno.

    Abs

  6. Futebol sempre foi motivo de alegria e de ir com familia para estadio de futebol. Já faz tempo que estes marginais estão fazendo com que os verdadeiros torcedores deixem de ir as praças esportivas.
    O acontecido em Oruro foi de um sinalizador com projetil lançado na direção da outra torcida. Porém, os demais sinalizadores também são muitos ruins para os verdadeiros torcedores. Eles sempre causam muitas confusões. Pode até ficar bonito para a TV, mas para quem está no estádio, o cheiro é insuportável( quando tem crianças perto, os pais colocam suas camisas sobre o nariz e a boca para que elas não inalem a fumaça) além da fumaça impedir que o campo de jogo seja visualizado.
    Vou contar um caso ocorrido no baenão. Não vou lembrar o adversário, mas foi a estreia do finazzi no baenão. Logo após o primeiro gol do remo, a extinta(somente para justiça, pois todos continuam no mesmo lugar) torcida piratas azulinas começou com estes sinalizadores e a fumaça subiu e não conseguimos ver mais nada. Teve um lance de perigo onde o finazzi perdeu 2 gols(no dia seguinte q consegui ver os lances) e escutamos a torcida gritando UH e não vimos nada e um torcedor ficou revoltado e jogou uma garrafa de agua na torcida(não estou aqui dizendo que concordo com a atitude) e logo os caras subiram e ameaçaram todos nós que estávamos no alto.
    Então, que seja proibido todos estes tipos de artefatos dentros do estadio de futebol.

  7. Claudio, o Cabeça não pode ir pra Fortaleza (capital do Ceará), pois está sob prisão domiciliar. Quanto ao assunto organizadas, faz tempo que não ao maior clássico justamente por causa da baderna que impera no estádio e entorno. E a polícia sabe quem são os líderes dessas gangues não faz nada porque tem filho de gente “influente” no meio, quando a polícia age, é só em cima dos pivetes que estão cheios de todo tipo de muamba.

  8. Li na postagem nº 5 que um comandante da PM teria declarado que não há estratégia envolvendo fogos de artifício porque nunca houve em Belém problema envolvendo fogos.

    Há muitos anos deixei de frequentar estádios de futebol mas ouço constantemente sobre bombas caseiras neles utilizadas.

    Salvo engano há poucos anos houve um incidente com um garoto de 12 anos aqui mesmo em Belém, no Mangueirão.

    Então na tacanha mentalidade desse senhor devemos primeiro esperar que morram uns 3 ou 4 para depois tomar as providências.

    Parodiando um frequentador do blogue: TÃO BELÉM!!!!!!!!!!

  9. Bom dia Gerson , gostaria que me respondesse que lições tiramos da morte de Felipe Matheus Lima de Almeida, de 11 anos , morto em um REPA no dia do seu aniversário. chegamos já no limite alguns anos atrás com esse acontecimento e oque mudou ? o que a imprensa ? o governo? os clubes fizeram para sanar a violência dentros dos estádios paraense ? o caso simplismente foi esquecido infelizmente

    1. O papel da imprensa – que inclui noticiar, denunciar, cobrar, fiscalizar – é exercido plenamente. O caso do Felipe, bem como dos outros 10 torcedores mortos nessa guerra inclemente e insana de “organizadas” a partir de 2005, têm sido noticiados sempre. A questão da impunidade é responsabilidade dos aparelhos de segurança e órgãos judiciais, amigo.

  10. INFELIZMENTE ESQUECIMENTO POR PARTE DA IMPRENSA , TORCEDORES, GOVERNO E CLUBES.

    O CRIME

    Por volta das 15h30 do último domingo22/04/2007, no Mangueirão, meia-hora antes do RexPa que decidiu o returno do campeonato paraense, Felipe Matheus foi atingido por um rojão, disparado pelo remista Allan Soares Paulino, de 19 anos, no momento em que entrava no estádio. O foguete tinha sido reforçado com pequenas petecas de aço, dessas usadas em jogo de bola de gude. Imediatamente socorrido e logo encaminhado para o hospital Metropolitano, devido à constatação da gravidade do ferimento, Felipe foi operado para a retirada de uma peteca de aço que penetrou em seu crânio. Na tarde da última terça-feira, ele não resistiu, sofreu paradas cardíacas e morreu

  11. Caro Gerson, em Maio de 2.012, o Comitê Executivo da FIFA proibiu “fogos de artifício” (vejam bem) não fala sobre sinalizadores, nos estadios. Mas, a Entidade máxima do futebol mundial, não revelou : 1-) Prazo para que as Confederações se alinhassem “à regra”. 2-) Quais seriam as medidas preventivas e punitivas. Ou seja, a exemplo, ou similar, ao caso da Boate Kiss em Santa Maria-RS, está sendo necessario morrer gente(muitos/poucos) para que as autoridades, aí sim, se mobilizem para “remediar” o acontecido. O caso Ororo é lamentavel. Principalmente, considerando que o artefato(sinalizador do caso) pode transformar-se em arma como se viu, intencional ou não. Faço um paralelo, ainda, com o caso no RS, donde se comprovou que uma série de “omissões” de autoridades culminou com a morte de 200 e poucos jovens. Em Ororo, a polícia não fiscalizou a entrada da torcida corintiana com os “sinalizadores”, por seu turno o Delegado do jogo e, outras e outras autoridades deixaram de cumprir suas funções. A Direção corintiana diz que tambem não tem responsabilidade sobre o caso. Todos querem se eximir de sua “parcela de culpa”. Da forma que temos visto as coisas (más) acontecerem, e “um jogando a bola pro outro”, o parecer final vai tentar culpar o próprio morto por ” estar no estadio na hora e lugar errado”. Em 22.02.13, Marabá-PA.

  12. Gerson, o que você acha de começarmos a “limpeza” aqui pelo blog ? Muitos de meus posts entram na moderação, mas os posts desse Adriano “REMOÇADA” passam sem nenhum problema. Não sou clone, e você deve saber pelo meu IP, abraços.

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