O fabuloso poder da marcação

Por Gerson Nogueira

bol_qui_210213_15.psDois confrontos chamaram atenção ontem, na Europa e no Brasil, pela eficiência da marcação como arma fundamental para alcançar a vitória. Na Itália, pela Liga dos Campeões, o Milan impôs um cerco implacável ao moderno carrossel do Barcelona, vencendo por 2 a 0 e não permitindo a Messi e seus companheiros armar as habituais jogadas que envolvem as melhores defesas do planeta. E o importante é que foi uma vigilância exercida dentro dos limites, sem rispidez ou violência.

Assim que a bola rolou, o Milan definiu as cartas que usaria para conter o poderoso e temido adversário: bloqueio das jogadas na origem, pressionando o fabuloso trio Iniesta-Xavi-Messi. Vigiado de perto, sem tréguas, a máquina de passes do Barcelona entrou em pane.

O mérito foi ainda maior porque o Milan não se restringiu a se defender. Foi à frente também, e com muita força, chegando com até seis jogadores nas jogadas de ataque. Tirando clássicos com o Real Madri, poucas vezes vi a zaga do Barcelona ser tão fustigada quanto ontem. E, como qualquer defesa ao ser pressionada, a retaguarda catalã abriu buracos, permitindo que o Milan chegasse ao gol.

Ao contrário de outra célebre vitória do Barça, diante do Chelsea na Liga dos Campeões de 2011/2012, o Milan não se retrancou. Jogou altivamente, consciente de suas deficiências e atento para impedir que o adversário se aproveitasse disso.

Contra o Chelsea, o Barcelona sufocou, perdeu inúmeras chances, desperdiçou pênalti (com Messi) e vendeu muito caro a derrota. Ontem, o próprio Messi viu-se obrigado a voltar ao campo de defesa diversas vezes para conseguir tocar na bola.

Ainda assim, cabe reconhecer a importância do futebol de alta técnica consagrado pelo Barcelona. A própria surpresa em torno de sua derrota já representa o melhor elogio ao jogo que pratica há pelo menos quatro anos.

A outra partida ocorreu no Rio de Janeiro, válida pela Taça Libertadores. Um Grêmio determinado deu uma aula de futebol veloz, objetivo e essencialmente marcador. Seus atacantes foram decisivos no aproveitamento das chances, mas os zagueiros e volantes tiveram papel fundamental na construção da vitória de 3 a 0 sobre o Fluminense.

Campeão nacional, o Fluminense não perdia por três ou mais gols de diferença há 90 jogos. Esses números têm a ver com a sólida defesa montada por Abel Braga. Quase intransponível nas bolas aéreas, a muralha tricolor quedou-se ante as triangulações em velocidade de Vargas e Barcos no ataque gremista.

Zé Roberto, volante mais moderno em ação por aqui, liderou a esquadra gremista. Impôs velocidade quando havia espaço a ocupar, conteve o ímpeto dos mais jovens do time e distribuiu lançamentos e passes como poucos fazem hoje no futebol brazuca. Jogando assim, tem lugar fácil na Seleção de Felipão.

O trabalho dos volantes tornou menos pesada a missão dos zagueiros gremistas e ajudou na produção dos laterais André Santos e Pará. O placar de 3 a 0 foi até modesto diante da superioridade dos gaúchos sobre o Flu.

No fim das contas, dois grandes jogos, que constituem belos (e educativos) exemplos da importância que a marcação bem executada pode ter no futebol moderno.

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A passagem de Heber pelo Pará

Foram seis jogos arbitrados no Pará por Heber Roberto Lopes (SC), que tem a grande responsabilidade de comandar o primeiro jogo da decisão do turno, domingo. Ele apitou Paissandu 2 x 3 Ananindeua (2006, decisão do campeonato), Remo 4 x 1 Tuna, em 2007 (primeiro jogo da final), Remo 2 x 1 Paissandu, em 2008 (primeiro turno), S. Raimundo 3 x 2 Águia, em 2009 (semifinal do 2º turno), Paissandu 3 x 2 S. Raimundo, em 2009 (final) e Águia 1 x 0 Cametá, em 2010 (returno). Apesar de alguns pequenos senões, seu trabalho pode ser considerado bom.

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Insanidade faz nova vítima

A morte do garoto boliviano Kevin Beltran, de 14 anos, atingido no olho por um rojão no jogo entre San José 1 x 1 Corinthians, ontem à noite, faz lembrar um triste episódio ocorrido no Pará, há alguns anos. A vítima foi também um menino, alvejado por um rojão nas arquibancadas do estádio Mangueirão durante um Re-Pa.

O artefato que matou Beltran foi disparado por torcedores corintianos na comemoração do gol de Guerrero, logo no começo da partida.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta quinta-feira, 21 de fevereiro)

17 comentários em “O fabuloso poder da marcação

    1. Uma tristeza, amigo Edson. E a confirmação de que é preciso tomar providências mais enérgicas quanto a sinalizadores de fumaça e fogos nos estádios. Vidas inocentes podem ser sacrificadas e ainda há quem defenda os tais torcedores “organizados”.

  1. Gerson, esse fato ocorrido em Belém, não aconteceu nas arquibancadas do Mangueirão, mas sim no estacionamento externo durante uma briga entre as “extintas” Remoçada e terror. O garoto (torcedor do Paysandu) foi atingido na cabeça por um artefato caseiro, disparado por um integrante da gangue remista.

  2. É aquilo que sempre falo, Gerson e amigos.. Você vai para um jogo, sabendo que o time adversário é superior, o ideal é que você estude o adversário e tente anular suas principais jogadas, para só então pensar em vencer esse time… Não assisti ao jogo, mas pela coluna, dá pra imaginar que foi isso que aconteceu..

    Sobre essa violência nos estádios, principalmente envolvendo uma criança, é tudo muito triste, amigos.. Pior é saber que tão cedo isso não vai parar de acontecer, infelizmente..

  3. Pois eu assisti o segundo tempo, e foi assim como Gerson escreveu.

    Vitória merecida do Milan sobre o todo-poderoso Barcelona de Leonel Messi.

    Obs: achei que a camisa do Barça é tão feia que não dava para piorar. Enganei-me. A do jogo de ontem é simplesmente horrível.

  4. Parabéns ao Barcelona,

    Sou fã do futebol do Barcelona, uma geração fantástica que não perdeu seus ensinamentos de jogar bonito, ganhou todos os títulos possíveis. Acredito que alguns jogadores já estão cansados e não tem peça de reposição, mais é a sua nova escola, concerteza novos jogadores da base irão continuar esse trabalho, daqui alguns anos o Barcelona estará ganhando tudo novamente.

    Força Barcelona, vc montou um time fantástico, fez um jogador ser melhor do mundo durante 4 anos, vc ensinou ao mundo que é possível prevalecer a técnica, o drible, o futebol pra frente, o toque de bola, jogar sem posição fixa, todos marcam todos atacam, a orquestra perfeita.

    Parabéns Barcelona, a ver isso aos 32 anos de idade, pois somente pela história e alguns tapes, vi times como a seleção de 70, 82 e 86, do qual vcs estudaram e colocaram em prática.

  5. Gerson, não pude assistir ao jogo do Barcelona. Mas assistindo ao jogo do Fluminense com o Grêmio, coincidentemente, do início ao fim, toda vez que o time gaúcho continha o ataque carioca, e foram inúmeras, eu pensava mais ou menos o que você colocou no último parágrafo da sua crônica: a importância da VERDADEIRA marcação bem feita no futebol moderno.

    E eu grifo a palavra VERDADEIRA, porque SÃO DUAS COISAS DIFERENTES o qualificado trabalho de contenção das ações ofensivas do adversário mediante incansável combate e valorização da posse de bola, qualidade no passe etc; e o simples, constrangedor, e angustiante retraimento submisso de um time (que passa a viver de mero rebatimento de bolas mediante chutões e ligações diretas), em função das ações ofensivas do adversário que martela, martela, martela, e, às vezes, só não faz, um ou mais gols, pela incompetência dos atacantes adversários ou pura sorte do time submetido. Isso, lógico, sem descartar muita competência do goleiro submetido ao constante fuzilamento.

    1. Fiquei impressionado com a maneira usada pelo Milan para neutralizar o Barcelona, amigo Oliveira. E esse combate foi feito sem apelações. Os italianos jogaram na bola, cercaram e não permitiram ao time espanhol botar em prática seu formidável estilo de troca de passes. Não tinha visto nada igual.

  6. Depois de assistir os dois jogos, tinha quase certeza que o Amigo Gerson faria comentário sobre os mesmos. Foi uma aula de aplicação tática e determinação em campo das equipes vencedoras. Estranho foi a torcida do Fluminense chamar o Abel de burro e um torcedor do Grêmio em comentário na net dizer que o time só ganhou porque tem ótimos jogadores, e se quiser ganhar algum campeonato a diretoria teria que trocar o técnico. Por tudo que vi do Grêmio ontem, Gerson e amigos, vocês concordam com isso?

  7. Não sei Lucilo, procurando guardar a coerência e a proporcionalidade com um comentário que fiz dia destes sobre uma outro Coluna do Gerson, eu digo que o que houve ontem foi uma verdadeira harmonia entre as concepções táticas do Profexô e a qualidade técnica com que os muito bons jogadores do Grêmio as executaram. Acho que esta manifestação do torcedor gremista ainda é um resquício da frustração pela derrota para o time chileno. Quanto ao Abel, evidentemente ele não é burro e nem agiu como um à frente do Flu, ontem. Designá-lo assim também me parece fruto de uma pretensão insatisfeita.

  8. Eis à mostra um dos gatilhos de tanta violência no e por causa do futebol.

    Por volta das 10:30, dentro do programa do Walmir Rodrigues, o repórter Paulo Caxiado, noticiou a todos pulmões (como sói acontecer) que em Antonio Baena já havia desde cedo uma fila kilométrica para compra de ingressos para o jogo de domingo e não os havia e, entretanto na Curuzu a venda já estava tranquilamente sendo feita. Pedia veementemente providências do Pirão, do Vandick e de quem mais de direito.

    Vai que alguém nessa “kilométrica” fila ouve a notícia no rádio e ela se espalha e os “prejudicados” vão à Curuzu…..

    É asssim que as coisas acontecem……..

  9. No último RE X PA, o Sr. Paulo Caxiado, teve a mesma postura irresponsável. No sábado pela manhã, dia do jogo, vociferou que todos os ingressos tinham sido vendidos no Baenão, e que a torcida do Remo estava se dirigindo à Almirante Barroso , esquina com a Travessa do Chaco, para invadir e fechar esse local e, que aquilo era a “COISA MAIS LINDA DO MUNDO”. Vejam o nivel e a irresponsabilidade, de quem somente deveria repassar informações para os ouvintes.

  10. Foi uma pena eu não ter podido assistir a este jogo, Gerson. Gosto muito de assistir a duelos desta natureza, onde o estilo do futebol arte é confrontado e experimentado em sua eficácia. Valendo dizer que no caso do Barcelona, segundo entendo, no pacote da arte, também vai incluída muita combatividade, eis que eles tanto tocam bem a bola, numa qualificada e incisiva posse, quanto geralmente a recuperam bem rapidamente quando ela está em poder do adversário.

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