Bolando as trocas

Por Ruy Castro

Outro dia, citaram uma frase, “Sem tesão não há solução”, e a atribuíram a Nelson Rodrigues. Pobre Nelson. Como se não bastassem as frases que inventou, ainda tem de responder pelas dos outros. E esta não era dele, mas do psiquiatra e humorista Roberto Freire. Nelson nunca diria aquilo. Nem era de seu estilo usar palavras como “tesão”.

Também há pouco foi atribuída a Stanislaw Ponte Preta a frase “São Paulo é o túmulo do samba”, dita por Vinicius de Moraes nos anos 50, numa boate paulistana cujos frequentadores falavam alto e abafavam o infeliz cantor -Johnny Alf. Já esclareci aqui que “samba”, no caso, não se referia ao ritmo, mas à música popular em geral -a futura “MPB”. Enfim, sai Stanislaw e entra Vinicius, que, nos anos seguintes, pagou por cada sílaba da frase.

E, idem, alguém deixou escapar o verso de Fernando Pessoa, “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”, e atribuiu-o a Carlos Drummond de Andrade. Corrigiu-se em seguida e até pediu perdão pelo clichê. Mas a gafe ficou. Não que o verso faça falta ao vasto Pessoa. Só que Drummond tem suas próprias pedras de toque e dispensa apropriações.

Já li o “Ora, direi, ouvir estrelas”, de Olavo Bilac, atribuído a Castro Alves; o “Tu pisavas nos astros distraída”, de Orestes Barbosa, atribuído a Noel Rosa; e “O que é bom para os EUA é bom para o Brasil”, do político baiano Juracy Magalhães, atribuído a Paulo Francis. Mas nada se compara a “O sertanejo é, antes de tudo, um forte”, de Euclydes da Cunha, atribuído a Mazzaropi.

Trocam-se as bolas, é normal. Engraçado é que, às vezes, uma frase de X realmente ficaria melhor se de autoria de Y. Como quando citaram para Carlos Heitor Cony o dito de Guimarães Rosa, “A gente morre para provar que viveu”. Cony matou no peito e emendou de primeira: “Conselheiro Acácio!”.

2 comentários em “Bolando as trocas

  1. É verdade amigo Gerson, interessante o texto de Ruy Castro, existem roupas que vestem melhor os modelos que os estilistas, alias, sempre são sob medida para os modelos.

    A crônica “Nascer velho e morrer criança de Marcos César, muito bem interpretada pelo saudoso Chico Anysio, caiu tão bela e sob medida que , muita gente até hoje pensa que a autoria é do célebre comediante.

    Em tempo, permita-me, como o texto é muito inteligente e belo, replico aqui:

    Nascer velho e morrer criança

    “Acho que o homem deveria nascer com oitenta anos. Nasceria com oitenta anos , iria ficando mais novo, mais novo, mais novo até morrer de infância! Chego inclusive a imaginar uma mãe comunicando o nascimento do filho:

    – Menina, meu filho nasceu! Pensei que não fosse nascer mais tava encruado. Nasceu com oitenta e quatro anos! Mas perfeitinho: um metro e setenta e seis, setenta e seis quilos. Eu ia botar o nome de Luís Cláudio, mas ele próprio foi ao cartório e se registrou como Haroldo!
    E nos berçários, aquela fila de cadeiras de balanço , com velhinhos sentados… tossindo, pigarreando.

    Todos assistidos por geriatras, já que padecendo eles todos dos males comuns aos recém nascidos: gota, artritismo, lumbago, reumatismo…

    O homem nasceria com oitenta anos , aos sessenta se casaria com uma mulher de cinqüenta e nove, mas com uma vantagem: cada dia , a cada semana, a cada mês ela ficaria mais e mais jovem, até se transformar numa gata de vinte!

    Com oitenta anos nasceria rico, sábio e… aposentado!

    A partir de então, passaria a ganhar menos, menos; entraria para faculdade, desaprenderia tudo! Voltaria aquele estagio de ingenuidade, de burrice, de pureza! Depois, a bicicleta, o velocípede, desaprenderia a andar, esqueceria como engatinhar .

    Então, o voador, do voador para o chiqueirinho, do chiqueirinho para o berço, as trocas de fraldas, aquelas três gotas de remedinho no ouvido, o chá de erva doce para dorzinha de barriga, a chuca, o peito da mãe… E pararia de chorar!

    Mas a vida, então teria que ser recriada, o mundo teria que regredir séculos… Cabral e Colombo descobririam o Novo Mundo, o homem desinventaria a roda, atingiria o desconhecimento da pólvora e do fogo, até chegar a Adão, o ultimo homem. “O ultimo primeiro aquém Deus, colocando sobre sua mão, em vez de lhe soprar a vida, o inspiraria novamente para dentro de si mesmo…”

    (Marcos César)

    RRamos

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