Por Gerson Nogueira
É histórico. Paciência do torcedor paraense é quase inesgotável em relação a treinadores e jogadores importados. Digo isso logo em seguida à autêntica pelada que Paissandu e Águia disputaram no Mangueirão, que, justificadamente, terminou empatada em zero a zero. Pelo fraco futebol apresentado, nenhum dos times merecia vencer. Na contabilidade, foi o terceiro jogo do Paissandu sem vitória, o segundo sem fazer gols jogando em casa e apenas dois pontos ganhos em nove disputados. O time volta ao G4, mas a torcida sente começa a cobrar mais qualidade.
Aos poucos, o torcedor vai caindo na real e percebendo que o alardeado bom elenco não passa de uma ilusão. No papel, alguns jogadores são realmente bons, à altura da Terceira Divisão, mas na prática não funcionam assim. Algumas certezas também começam a se desmanchar. Kiros, que chegou cotado como grande artilheiro, é a maior vítima de um meio-de-campo que não cria. Tiago Potiguar mantém a gangorra habitual – vai bem num jogo e some nos três seguintes.
Até Pikachu, uma dos poucos talentos óbvios desse time, começa a se contagiar pelo mau rendimento da equipe. Continua correndo como antes, buscando os lances individuais, mas o conjunto não ajuda e seu futebol vai minguando. Contra o Águia, reconhecidamente um time que sabe jogar fora de casa, o Paissandu teria que explorar a velocidade para fugir à forte marcação. Agarrado ao sistema de três zagueiros, Davino mostrou-se incapaz de resolver a lentidão na saída de bola.
Do lado marabaense, João Galvão aposta muito nos volantes que tem e na regularidade de seus zagueiros. Sabia que o Paissandu padece de um crônico vazio na armação e fincou seu bloqueio ali. Suportou o sufoco dos primeiros minutos, mas depois manteve a situação sob controle e até teve algumas chances.
Cabe dizer que a meiúca que Galvão neutralizou dependia de Robinho, Leandrinho e até de Potiguar. Todos carregam a bola, mas nenhum sabe organizar. Esperava-se que Alex William, considerado “o” camisa 10, fosse usado para executar a tarefa. Davino, pelo visto, ainda não está totalmente confiante no condicionamento do jogador.
Os defensores do técnico começam a ressaltar a invencibilidade fora de casa. Esquecem que torneios encardidos como a Série C dependem da performance caseira. Time não que ganha em seus domínios costuma se dar mal. Desta vez, serão nove jogos em casa e o Paissandu já desperdiçou dois. Contra o Águia, teve novamente domínio ilusório, como contra o Fortaleza de Vica, mas errou muito nos arremates. Isso sempre faz falta no final.
Ah, sobre a proverbial boa vontade de nossas maiores torcidas com profissionais não-paraenses, exemplo cristalino aconteceu no fim do jogo: invocado com as vaias, Davino deixou o campo vociferando palavrões e fazendo gestos obscenos. Imagine se fosse um técnico papachibé. Cairia antes de descer para os vestiários. (Fotos: NEY MARCONDES/Bola)
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Direto do Twitter
“Paissandu tem problemas sérios no ataque. Agora, tem que falar baixo. Se escutarem, a diretoria e o Davino vão contratar mais 500 atacantes”.
Do jornalista Nilson Cortinhas.
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Na mesma proporção em que sobe o nível de irritação com o time, repetem-se as cenas de mau comportamento do torcedor no Mangueirão. Bombas, garrafas, tênis e pilhas foram atirados durante toda a partida. Não há mais limite para a ignorância absoluta de alguns.
Acima de tudo, representa uma contradição incompreensível: o torcedor, que se diz apaixonado, atenta voluntariamente contra o futuro de seu próprio time na competição. Afinal, todos sabem que atirar objetos no gramado acarreta a perda de mando.
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Na derrota do vôlei feminino, na Olimpíada, o comentarista do Sportv se esforçava para justificar à torcida brazuca o vexatório desempenho das meninas diante da fortíssima seleção americana. Veio então a costumeira cascata de expressões condescendentes: “Fabi não está num dia feliz”, “faltou sorte à Fernandinha”, “meninas vibram, mas o jogo não entra” etc. Só que o jogo é jogado e o lambari é pescado, como dizia o Juarez Soares.
Um dos problemas que atravancam o progresso do esporte olímpico (e não olímpico) no Brasil é essa nefasta mania de determinados jornalistas assumirem responsabilidade pelos resultados dos times e atletas nacionais. Jornalista não é técnico, nem preparador físico, muito menos psicólogo. Seu papel é informar da maneira mais fiel possível aos fatos.
Alguns batráquios, discípulos da velha escola global de torcer primeiro e informar depois, ficam à beira de um ataque de nervos nos ginásios, esgoelando-se como se isso fosse capaz de mudar a trajetória de um saque ou a eficiência de um bloqueio. Manejando o controle remoto como sabre jedi, passo a léguas desse histrionismo oportunista.
(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta terça-feira, 31)


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