Um clássico da catimba

Por Gerson Nogueira

Corinthians e Boca Juniors devem fazer hoje a final de Libertadores mais catimbada de todos os tempos. Poucos times no mundo gostam tanto dos embates encardidos e recheados de provocações quanto os duelistas desta noite. De certa maneira, são irmãos separados pela fronteira. O DNA é o mesmo. Pelo nivelamento técnico de ambos, não há favoritismo, o que aumenta consideravelmente a voltagem emocional da decisão.
Que ninguém espere um espetáculo de refinada técnica. São duas equipes que não se destacam pela habilidade ou talento. Os méritos de ambas estão concentrados no futebol coletivo. O Corinthians reprisa na Libertadores a trajetória vitoriosa do Campeonato Brasileiro de 2011,
sem maiores destaques individuais, mas com um fabuloso conjunto.
O Boca, que já apresentou timaços no torneio sul-americano, é hoje uma pálida sombra do passado. O craque solitário é Juan Riquelme, já na fase crepuscular da carreira, mas ainda um maestro respeitável. Nenhum outro jogador pode ser visto como diferenciado. Como o campeão
brasileiro, concentra sua força no sistema defensivo, liderado pelo veterano açougueiro Schiavi.
No time dirigido por Tite, raras são as vitórias por goleada, mas o 1 a 0, seu escore preferido, serve perfeitamente para levantar o caneco continental hoje à noite. A tensa ansiedade por um título da Libertadores, velho complexo de inferioridade da apaixonada massa corintiana, é o maior perigo a rondar a caminhada alvinegra.
Ao contrário da Bombonera, que é o maior caldeirão do mundo, o Pacaembu é apenas o campo de jogo escolhido pelo Corinthians. A força da participação da torcida também é relativa. Mas a capacidade de marcação que a equipe brasileira adquiriu nesses dois anos sob o comando de Tite é um trunfo e tanto. Não se pode dizer que a zaga é excepcional. É apenas bem protegida porque há um esquema montado justamente para isso.
Por tradição, o Boca tem como principal arma o destemor com que se apresenta longe de casa, onde costuma jogar até melhor do que em seus domínios. Quem viu aquele time de Carlo Bianchi em 2003 superar o Paissandu, calando o Mangueirão, entenderá o que estou dizendo.
Para aqueles que não morrem de amores pelo Corinthians, sina opositora que persegue todos os grandes clubes, resta apreciar e invejar a febril expectativa da fiel torcida em todo o país. Há quem prefira cair na oposição torcendo pelos argentinos, mas a maioria vai estar seguramente do lado mosqueteiro – mesmo que a contragosto.

A estréia foi, sem dúvida, auspiciosa. O Paissandu driblou o nervosismo inicial e conseguiu se impor a um adversário que veio brigar por um empate. Apesar de todo o entusiasmo decorrente da vitória, alguns pontos devem merecer atenção especial de Roberval Davino para os próximos compromissos. O mais sério está na articulação de meio-campo. Sem Alex William, especialista na função, o time perdeu poder de agressão, limitando-se a insistir com os cruzamentos para explorar a altura de Kiros. Até isso, porém, carece de mais apuro. Pouquíssimas bolas chegaram ao atacante em condições de cabeceio.
Harisson pode executar esse papel, mas a incapacidade de jogar 90 minutos em alto nível desaconselha seu aproveitamento. Robinho, que se recupera de contusão, sofre do mesmo problema. Resta, então, a opção de Tiago Potiguar, que poderia ser efetivado na ligação desde que Kiros tivesse a companhia de outro atacante, Rafael Oliveira ou Héliton.
Seja qual for a alternativa encontrada, será melhor do que as saídas à base de chutão. Em casa, com tudo a favor, essas carências foram contornadas.  Lá fora, porém, a situação pode se complicar.

Repercute entre os associados e conselheiros remistas a notícia de que a mesma construtora que tentou adquirir a área do Baenão por R$ 32 milhões, há dois anos, estaria de olho agora no terreno do antigo Carrossel. Ainda sob a forma de balão de ensaio, a informação começou a circular pela cidade no mês passado, como a testar a reação da diretoria e do Conselho Deliberativo azulino.
A diferença em relação ao período em que o clube estava sob domínio de Amaro Klautau é que o Condel mostra-se mais independente e vigilante. Alguns conselheiros, por exemplo, já se antecipam à formalização da proposta (que se restringe ao uso da área em comodato) cobrando
garantias para preservar os legítimos interesses do clube. Sábia providência, levando em conta os muitos problemas da última negociação.
Aliás, pesam desde já contra essa nova investida os muitos furos do negócio que AK tentou a todo custo sacramentar, e cujos detalhes mais rasteiros só vieram à tona depois que a transação foi desfeita.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta quarta-feira, 04)

20 comentários em “Um clássico da catimba

  1. Hoje aqui no Jurunas acredito que o foguetório vai ser imenso,seja com vitória do Corintia ou do Boca já que os secadores são muitos.

  2. As diferenças deste Boca para os campeões anterioresw, além da inferioridade técnica do time argentino é o fato de, pela primeira vez, enfrentar um adversário que joga do mesmo jeito em casa e fora – e defensivamente. Os outros sempre jogavam atrás fora e no ataque dentro de casa. Os mosqueteiros fogem a essa regra, por isso creio que os hermanos terão extremas dificuldades para sair com uma vitória – pelo menos durante a bola rolando, já que nos pênaltis tudo é possível. Se houver um vencedor (não que seja favorito) na bola rolando, acredito nos paulistas, porque o sistema tático do Boca não está preparado para enfrentar um time defensivo dentro dos próprios domínios, porque os argentinos adoram o desespero e o contra-ataque inimigo, algo difícil de ver nos corintianos. Se jogarem como jogaram contra o Santos no Pacaembu, os paulistas levarão o primeiro título, nem que seja de meio a zero com gol contra de mão aos 50 minutos do segundo tempo.

  3. Corinthians campeao invicto da libertadores.

    Todos podem ter, mais invicto somente o Corinthians.

    1. Boa notícia pro próprio AK e as construtoras que trabalham com ele, amigo Cláudio. O que ele fez na gestão passada era coisa para expulsão dos quadros do clube.

  4. Gerson, em poucas palavras vc definiu bem: a sina opositora aos grandes. O q acontecia com o Flamengo dos anos 80 acontece hoje, em maior escala a meu ver, com o Corinthians. A midia esportiva paulista, que cresce muito nesses tempos de internet, tv fechada e globalização, colabora pra isso. Carregam um quê de superioridade e corinthianismo irritante. Eu, que vivi anos em sampa, sãopaulino de criança, afirmo com convicção q nem penso na rivalidade com os argentinos. Vou torcer pelo Boca mais do que os remistas em 2003, com certeza. Não posso nem imaginar o dia seguinte ao título corintiano.

  5. Encarando como um duelo Brasil x Argentina, prefiro que ganhe o Corinthians. Era bom se tivesse, existisse ainda, prorrogação.

    Égua, o Cláudio achou ótima a notícia do tal ex-dirigente do CR. rs

  6. Com Kalutau ou sem Klautau , com Cabeça ou sem Cabeça, ninguém dá uma ajeitadinha naquela àrea do antigo Carrossel.
    O muro está horrivel, a parte das arquibancadas que dá frente pra a Almirante Barroso está parece cenário de filme de terror.
    Que custa dá uma pintadinha?
    Parece que querem que sintam pena.

    O nome disso é relaxamento, lisura não pode ser.

  7. Àquele tal de BOCA, que em 2003 veio fazer turismo no Majestoso Mangueirão, hoje será o pirulito dos anfitriões daquele ano (2003).

    Pirulito dos anfitriões ACARIOCADOS!! Kkk.

    Mas, não se preocupem, o BOCA, amanhecerá desdentado. E, nunca mais morderá vocês!!!

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