Eles também sabem jogar

Por Gerson Nogueira

A gente fala generosamente do futebol dos nossos sonhos. Fazemos isso o tempo todo, mesmo sem platéia interessada. Estranho esporte o futebol. Todos se agarram a uma concepção pessoal sobre a forma de jogar, mas se unem nos aplausos a um lance refinado ou um gol espetacular. No fundo, somos todos prisioneiros da beleza do jogo, embora o ato de torcer desperte reações tão radicais, primitivas e contraditórias.
Com jogos de alto nível e alguns dos maiores craques do planeta, a Euro é uma espécie de ensaio de luxo para a Copa do Mundo. Aliás, para ser uma Copa, só fica faltando mesmo contar com Brasil e Argentina. O torneio é um sucesso porque reúne todas as demais seleções realmente importantes, aquelas que sentimos prazer especial em vencer.
Com a excepcional vantagem de não apresentar os calhaus do mundo da bola, como Costa Rica, Egito, Equador, Austrália, Japão e Coréias. Tudo bem que a Euro tem lá suas próprias bombas. Nesse grupo estão Irlanda, Grécia (que, surpreendentemente, até já ganhou uma edição) e a Polônia, uma das sedes do torneio deste ano.
O lado bacana da Euro é que apreciamos tudo de camarote, naquela situação privilegiada de apenas acompanhar os jogos, sem as atribulações do envolvimento emocional. O espírito crítico fica mais aguçado e certeiro, embora, de vez em quando, surja uma inveja danada das torcidas presentes aos estádios.
Quanto à parte técnica, mesmo sem ter aparecido nenhum super time, a primeira fase da Euro mostra excelente nível. Parte disso pode ser atribuída às performances de Alemanha, Espanha, Rússia e França. São seleções que desmontam, de uma vez por todas, a tese de que europeus não têm intimidade com a bola e baseiam seu jogo na força física. 
Futebolistas como Iniesta, Cristiano Ronaldo, Ribery, Ozil, Sneijder, Fábregas, Nani, Miller, Robben, Xavi, Walcott e Pirlo têm o mesmo repertório de fintas e recursos de qualquer brasileiro ou argentino. A partir dos anos 80, com a importação maciça de talentos sul-americanos, a Europa começou seu aprendizado de dribles e passes. Acrescentaram a isso a obsessão pelos fundamentos e a organização tática.  
É verdade que a origem étnica e a vocação natural ainda fazem alguma diferença, mas também é forçoso reconhecer que o abismo técnico das primeiras Copas (de 1930 a 1974) simplesmente desapareceu. Recomendo olhar os jogos da Euro para confirmar o discurso surrado, mas verdadeiro, de que não existe mais bobo em futebol.
 
 
Em 17 de junho de 1962, o Brasil conquistou o bicampeonato mundial no Chile. Um título que, bem mais que os outros, leva marca e assinatura do Botafogo. Afinal, pontificavam naquele escrete os craques Nilton Santos, Amarildo, Didi e Zagallo, além de um incrível gênio de pernas tortas, Mané Garrincha. Todos alvinegros.
Ouço, com freqüência diretamente proporcional aos insucessos dos últimos anos, gozações cruéis em relação ao Botafogo. Sempre uso como recurso de contra-ataque a importância da façanha de 62. Não por acaso, sempre tive simpatia especial pelo Mundial chileno. Botafoguense por excelência, aquela Copa acabaria marcada por lances dramáticos.
Começou com a perda de Pelé. Depois, contra a Espanha, Nilton Santos fez falta dentro da área, mas escapou do pênalti ao se adiantar um passo. Por fim, a suspensão de Mané Garrincha do jogo final foi evitada graças a uma misteriosa ação de bastidores. 
Nada, porém, que desmereça o triunfo de uma seleção que parecia (e estava) envelhecida, mas teve a ventura de contar com o entrosamento excepcional de jogadores de um dos melhores times do Botafogo em todos os tempos.  
 
 
Tudo está fora de ordem quando o presidente da CBF promete “pegar pesado” para resolver uma confusão criada pela própria entidade. Por ignorância ou cara-de-pau, José Maria Marin garantiu na sexta-feira que vai tomar as medidas necessárias para assegurar a realização das Séries C e D, suspensas há um mês em função da guerra de liminares promovida por alguns clubes.
Marin devia, em primeiro lugar, pedir desculpas públicas pelos transtornos causados a clubes, torcedores e patrocinadores. Em seguida, assumir todos os prejuízos decorrentes da lambança surgida sob os auspícios de Ricardo Teixeira, seu antecessor e padrinho, que avalizou um acordo ilegal com o Rio Branco na Série C do ano passado. Simples.
 
 
Iago Pikachu, lateral-direito do Paissandu, é o convidado do Bola na Torre deste domingo. Sob o comando de Guilherme Guerreiro, programa vai ao ar às 23h45, na RBATV.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO deste domingo, 17)

8 comentários em “Eles também sabem jogar

  1. O Botafogo é um clube simpático até para quem não torce por ele e tem uma rico passado histórico, pena que não lhe é dado maior força que lhe seja conferida um favoritismo imediato de ganhar competições, coisas que só ouvimos no decorrer dos torneios se este estiver indo bem, ainda assim com desconfianças. Ontem contra o Internacional foi o Botafogo que todo Alvi-negro espera ver e ganhou com justiça o jogo, mas penso que é melhor assim do que viver endividado e contabilizar títulos a custas de ajudas lá cachoeiras.

  2. Como gestora de toda esse mal-estar, não vejo outra solução que satisfaça a todos com a inclusão de todos os envolvidos.

  3. O botafogo nao faz jus o nome, pois nunca vi neste time fogo acesso nemhum. E o unico titulo Brasileiro que tem foi roubado lembra Gerson? contra o Santos.

  4. Grande Botafogo. Ao contrário de muitos times que se “tornaram” grandes à custa de muita “ajuda” (arbitragens complacentes e a mídia esportiva funcionando como uma verdadeira assessoria de imprensa tornaram certos clubes, de alcance nanico e meramente local/regional até o fim dos anos 70, em times de massa a partir dos anos 80/90), o Botafogo, mais de uma vez campeão brasileiro, é uma espécie de reduto dos românticos em tempos de futebol de resultados e da vitória a qualquer custo. E cá pra nós, “ganhar” uma Copa do Mundo não é pra qualquer um e é feito inalcançável devido a globalização do futebol nos tempos atuais. Respeitemos todos as cores deste grande clube, um dos 10 maiores clubes de futebol do século XX segundo a FIFA e que mais forneceu jogadores à seleção nacional mais vitoriosa da história do esporte.

    PS: não sou botafoguense, mas sei reconhecer a grandiosidade dos contrários.

  5. um simples comentario, se o Flávio Costa não tivesse brigado com o Heleno de Freitas antes do ca,
    campeonato mundial de 50 o brasil seria campeão aquele ano e com um baita centro avante botafoguense que substituiu o tetracampeão carioca Carvalho leite.

    1. Arguta observação, camarada Hiran. As esquisitices de Flávio Costa tiraram da seleção brasileira de 50 um craque como Heleno.

  6. Ou foi o Heleno quem brigou? Quanto à Euro, na próxima, os calhaus europeus entrarão em acão, pois serão 24 vagas.

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