De quando os “nossos” são os “deles”

Por Daniel Malcher

É domingo à tarde, 20 de novembro de 2011, e os campeonatos nacionais de futebol em fase de afunilamento proporcionam expectativa, ansiedade, tensão, aquele “suor frio”, a jactância em caso de vitórias ou a melancolia decorrente das derrotas aos torcedores de norte a sul do Brasil. Neste dia em especial, as Séries A, C e D vivem momentos de decisão. Brigas pelo título de campeão, pelas vagas nas competições continentais, pelo acesso às divisões superiores ou a luta contra o rebaixamento para divisões inferiores dão a tônica na domingueira futebolística.
Em Belém, também inserida neste contexto de fortes emoções boleiras, a expectativa envolve a participação de um dos seus clubes de futebol, o Paysandu Sport Club, um dos mais populares e tradicionais do Brasil, mais uma vez tentando ascender às divisões superiores do futebol nacional, no caso à Série B. O jogo é longe da cidade morena. É em Natal, capital potiguar, e opõem o América e o bicolor de Belém do Pará, ambos lutando pelo mesmo objetivo. Mas há algo de estranho no ar. Mesmo interessando bastante a apenas metade do enorme contigente de apaixonados torcedores de futebol, a cidade está calma. O movimento é pouco, os fogos são raros, e os gritos de “Papãããão!!!!!” quase não são ouvidos. É no mínimo curioso, pra não dizer que é estranho.
O jogo em questão é televisionado e concorre com outras partidas da Série A transmitidas pelas principais emissoras do país. Aqui já encontramos uma grande diferença:  as transmissões da Série A e mesmo da Série B são mais vistosas, há muitas câmeras e repetições à exasutão dos lances polêmicos. Tudo ou quase tudo é feito para colocar o torcedor o mais próximo possível do gramado onde ocorrem as contendas. Que a precariedade da Série C é flagrante já é de conhecimento público, contudo, no aspecto visual, ela se cristaliza: as cores são desbotadas, as câmeras são longínquas e replays são artigos de luxo. Isso quando há transmissão dos jogos…
No mesmo horário da partida América x Paysandu, passa na maior emissora de tv do país o jogo Corinthians x Atlético Mineiro, valendo a liderança da Série A para os paulistas. E por aqui onde moro, num bairro reconhecidamente festeiro, popular, barulhento e amante de futebol – o Jurunas –, em um dado momento da tarde houve uma gritaria intensa, fogos eram soltos, houve comemorações efusivas. Pesnsei ter ocorrido um gol do Paysandu, ou mesmo do América, o que traria à tona a velha e quase secular rivalidade entre azulinos e bicolores… mas, ué, não havia um silêncio gultural? Poucas bandeiras alvi-azuis defraldadas, poucos rivais azulinos prontos para tirar um sarro? A gritaria, que virou festa às 17:50 locais, não partia de azulinos ou de bicolores. Foi um gol… do Corinthians! O gol da vitória sobre os mineiros, diga-se.
Ao sapear de canal, ao ver os contrastes dos jogos transmitidos quase que simultânemamente, ao ver a alegria corintiana constrastar com o silêncio de bicolores e mesmo de azulinos – e os gritos mais altos partiam de uma residência onde há muitos bicolores – me vi questionando, perguntando a esmo, ao vento e emudecido: torcer pelo Paysandu é ruim? Torcer pelo Remo é ruim? Os torcedores locais cansaram de tanto achincalhe? A paixão por Paysandu e Remo está se esvaindo? A rivalidade está esfriando? Torcer em meio às derrotas está afastando o torcedor do clube, gerando desinteresse? Não acredito que a vibração com o gol corintiano e a indiferença ao jogo do Paysandu sejam fenômenos anômalos, isolados. Vai ver que, resignados, gostaríamos mesmo é de parar de tanto sofrer. E para isso, pra sentirmos o sabor do sucesso, das vitórias e das conquistas, somente adotando outras bandeiras, outras cores. Chamar também de “nossos” os times que são “deles”.

21 comentários em “De quando os “nossos” são os “deles”

  1. Prezado Daniel, muito boa crônica e leitura do atual cenário que estamos vivendo no cenário esportivo. Tudo que foi exposto é verdade, então, por um motivo óbvio e que eu já salientei algumas vezes aqui no blog, porque manter os jogos das séries C e D nos mesmos horários dos jogos da série A, principalmente. Os jogos da série B, há alguns anos se utiliza das terças e sextas justamente pra fugir deste calendário. O volei, basquete e o futsal, também acontecem em momentos diferentes dos jogos da série A e B, justamente porque concorrer diretamente é perda de público e audiência.
    Além de termos de repensar como administramos e torcemos, sim torcemos, pelos nossos clubes, as séries C e D, que não contam com ajuda da CBF, também devia pensar, se movimentar para buscar horários alternativos, tipo sábado e domingo pela manhã, e buscar televisões que queiram tal horário, se ninguém não fizer nada e os jogos continuarem competindo estarão sempre fadados ao completo fracasso.

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  2. Daniel..e a cada ano, com essas administracoes em nossos ”titãs”, a tendencia é piorar cada vez mais, e quem sabe tornando-se pior que Piaui, Maranhao, Acre, Manaus, Macapá, Roraima e Rondonia…e tem mais : em 2016 o Brasileirao poderá vir a ser, o Paulistao, pois com o dominio das verbas, sempre subirá de divisao, por ano, um ou dois clubes Paulistas…já pensou um Brasileiro com 20 equipes, sendo 14 delas de Sao Paulo ? coitado do futebol Brasileiro….

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  3. sao válvulas de escape. Torcer por times da parte de baixo, os torna vencedores.
    Um gel no cabelo, que ao primeiro engradecimento de um clube da cidade acaba sendo deixado de lado.

    Nao acredito que nos tornemos uma Manaus ou se aproximemos de algumas outras cidades.

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  4. Particularmente estou torcendo para o Ceará permanecer na série A e fiquei bastante contente com a subida do Náutico para a primeira divisão do Brasil,porque com a subida de Ponte e Lusa e a permanência somente do Bahia, a série A de 2012 iria se tornar um verdadeiro paulistão de caráter nacional.

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  5. Verdade. Até tentei assistir ao jogo, mas depois que vi a forma como o Paysandu entrou na partida, desisti. Fui assistir ao jogo do Corínthians e mais uma decepção com a vitória do time de Tite.

    Estou desmotivado e sem vontade de ir aos jogos do Papão, ainda mais com o fato de que o LOP ficará mais uma ano à frente do clube. Não dá mais para se enganar. Talvez volte para as arquibancadas em 2013, quando não for mais esse presidente.

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  6. É Diogo, se o aLOPrado não for forçado a renunciar o cargo, teremos de atura-lo, por mais um ano mediocre e cheio de desmandos. Neste caso o mandatário e trupe, irão interar a “mega-sena” ou seja seis anos, sem alegrias para o torcedor bicolor. É mole ou quer mais???

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  7. No meu bairro acontece o mesmo triste fenômeno. Não há mais foguetório nas vitórias de CR e PSC. Ontem também ouvi fogos nos gols do Corínthians. A cada ano se acentua essa apatia do torcedor com nossos times e aumenta sua paixão pelas equipes de fora. A nova geração não torce mais pelos times da terra. É a geração “Curíntia” e “Framengo”…

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  8. E esse desinteresse é portador de gradações. Como o futebol brasileiro está mal em todos os níveis e o melhor futebol do mundo hoje está na Europa, já existe no Brasil um enorme contingente de torcedores das equipes européias. Sabe-se de cor a escalação do Barcelona, do Manchester United, do Real Madrid e do Milan, e se desconhecem a de times como o São Paulo, Vasco, Internacional, Cruzeiro… É a mundialização das marcas dos clubes estrangeiros também.

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  9. É Rogério, mais quer queira ou quer não! Aainda são os clubes de fora (Flamengo e Corinthians) que ainda conseguem trazer alegria aos nosso corações.
    Para quem depende de ver o Remo conseguindo o acesso a quarta divisão e ao Paysandu subindo para serie B, vamos somente ter sofrimento e dores de cabeça. Pois com os dirigentes que dispomos amigos, não teremos nunca chance de ir mais a frente, sem contar com a omissão da nossa queridissima FPF, que somente pensa no seu próprio rabo, esquecendo-se de apoiar os nossos clubes macissamente.

    – Mais ainda voto no 55, por um Pará únido, mesmo com a apátia do nosso governador do estado, que não o vejo em nenhum momento dando suas oponiões a respeito desse assunto….

    55 neles……….

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  10. A solução pra este “problema” está na cara!

    Só não vê quem realmente não quer!

    Clube do Remo e Paysandú Sport Club são SIM, grandes clubes regionais. Entretanto, por falta de profissionalismo de dirigentes ligados ao passado, com pensamentos provincianos ou mesmo como turrões parecidos com moleques ruins de futebol que só jogam porque são o donos da bola, tornam o futebol paraense,que já foi muito bom, um divertimento pra lá de desenteressante, forçando o torcedor a assistir pelejas de outros centros esportivos.

    Enquanto tiver esta postura, jamais conseguiremos nada!
    Já há naturalmente, descarte de equipes do eixo norte-nordeste, imagina se ninguém realmente se interessar para resolver esse impasse, que diga-se de passagem, é muito sério!

    O perfil de um dirigente esportivo nortista é horrível!

    É arrogante!
    É soberbo!
    É amador!
    É acomodado!
    É imediatista!
    Não usa a lógica!
    Não sabe negociar!
    Não tem visão estratégica empresarial!
    Não respeita os custos do clube!
    Não respeita os prazos do clube!
    Não estuda as aquisições feitas pelo clube!
    Não avalia resultados!
    Provavelmente decide assustos relevantes em conversinhas sem deliberação conjunta!

    Ou seja: São burros!

    Lembro dos problemas enfrentados pelo Clube do Remo no ano passado e neste, e tirava sarro, mas apenas pela nossa rivalidade. Entretanto, conhecendo e observando o PSC, estava claro que cometeríamos os mesmos erros! Claro! Afinal, o perfil dos diretores era exatamente o mesmo!

    Nossos times não sonham alto! Contentam-se em campeonatos regionais! Não querem ir pra vitrine!

    ” Tá bom assim!”.. Provavelmente pensam esse “burrões”!

    Temos que mudar o pensamento! Ou continuaremos com o futebol sendo apenas um modo de trazer lembranças!

    Que prazer seria assistir aos domingos os jogos do Corinthians, né?………Mas Corínthians e Clube do Remo!

    E o jogo do Flamengo no Maracanã? Não seria paid’égua!!?……….Flamengo e Paysandu?..Hem!!

    Isso já ocorreu! E pode ocorre de novo! Mas nossos dirigentes tem que querer e saber mudar suas posturas em relação aos clubes!

    Só Parazão, o torcedor Papa-Chibé não aguenta mais!

    Eu não aguento mais! E tu?….???

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  11. Daniel,comentário muito pertinente e concordo plenamente…. Eu falo por mim,meu time que no caso é o Paysandu,pode estar na décima divisão,que continuarei sendo fiel,meu sangue é Bicolor,minha raiz é Paraense(meu pai),não me deixo levar pela mídia de fora ,tenho senso crítico sufiiciente de saber que apesar de todos os pesares tenho para quem torcer ,e muito orgulho de ser Paysandu… É certo que Vivemos numa democracia,mas quando vejo um caboco daqui de minha cidade,Macapá,vibrar com um gol do Flamengo,Vasco,etc… dá vontade de rir… Meu DEUS,temos que sabar valorizar o que é nosso,pois continuaremos sempre a ser desprestigiados ,Achincalhados ,sendo que toda vez que alguém de fora pergunta meu time digo PAYSANDU,há até quem zombe,mas não ligo,pois sei que o Paysandu não fica a dever pra nenhum time,assim como o Remo,basta sabermos nos valorizar,para sermos respeitados…O próprio Paysandu já mostrou que é possível alçar voos mais altos,basta haver seriedade,planejamento,engajamento de nossos dirigentes,pois apesar de muitos estarem perdendo a essência da rivelidade ,,da paixão regional,mas creio que esse amor nunca morrerá !.

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  12. Na coluna de hoje de Abner Luiz em o liberal há a informação de que o governo do estado está tentando trazer para Belém o jogo entre vasco e flamengo válido pela última rodada do brasileirão já que não há estádio disponível no Rio devido ao fato de botafogo e flu também jogarem na mesma rodada e no mesmo horário no engenhão.Pois é,sem Remo e Paissandu jogando(quer dizer estarão jogando pelo interior para conseguir alguns trocados)resta ao torcedor paraense prestigiar um jogo de times de fora.Ou alguém tem dúvida de que flamenguistas e vascainos paraenses irão lotar o mangueirão para esse embate?

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  13. Daniel, gostei do texto, Confesso não ter mais a paciencia necessária para textos dessa natureza. Ainda bem que existem criaturas como vc, dispostas a expor e provocar discussões decentes.
    Vez por outra ensaio um texto melhor mas a praga da preguiça leva-me ao desestimulo e então deleto tudo. Gosto de outros textos que aqui, tambem são expostos. Reunidos teriamos mais que dois dedos de boa prosa. Não nos incomodemos com as excrescencias elas sentirão a necessidade da auto-depuração.
    Vamos lá ?

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  14. Já viajei muito pelo interior do Pará e basta ir em Mãe do Rio para vermos , observamos que o torcedor local se importa só com o futebol dos clubes do sul-sudeste.Em garrafão do norte , onde estive visitando minha avó, recente,semana retrasada , que mudou para lá , para ter sossego, vi meus primos e outros parentes , torcendo para Palmeiras, Vasco, Barcelona.Desafiados a falar de Remo ou Paissandu por mim deram de ombros e menosprezaram os dois. aINDA FALEI para um tio meu que o PAPÃO iria jogar uma partida do acesso e ele nem respondeu, apenas disse só torço pro VASCO.Perguntei pra um vizinho sobre o futebol paraense , usando como desculpas o fato de estar fora do pará , ele disse que não acompanhava o futebol “de Belém’ só o Palmeiras. E nessa toada em poucos anos , até Belém se dedicará a torcer pela tela.
    Culpa de quem ? Arrisco dizer que é de nossos dirigentes.

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  15. um dia desses tinha mais comentáro sobre notícias do botafogo aqui do que do paysandu, parecia até que o fogao tinha mais torcedores aqui que no rio. é triste.

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  16. Sérgio, respeitosamente, dois registros sobre suas bem concatenadas palavras:

    I – não considero que o torcedor paraense, de Belém e Zona Metropolitana nomeadamente, considerem ruim torcer por Remo e paysansu, e vice versa; os torcedores azulinos e bicolores, estão sim, cansados de tanto achincalhe, mas com toda certeza as respectivas paixões estão longe de se esvaírem; a rivalidade está cada vez mais acirrada; o verdadeiro torcedor da dupla re/pa, não se afasta e nem se desinteressa do clube nem nas mais acachapantes derrotas;

    II – digo isso tomando por base fontes muito parecidas com as suas, quais sejam:

    (a) os inúmeros torcedores do populoso bairro onde fui morar desde a mais tenra idade, e só saí muito recentemente; os torcedores residentes no prédio do bairro onde moro atualmente; os inúmeros torcedores do meu local de trabalho atual e do outro que deixei a três anos atrás, em tais lugares a rivalidade está cada vez mais acentuada, a ponto de, infelizmente, no primeiro que referi ter até havido alguns sérios desentendimentos pelas excessivas secações e encarnações;

    (b) a maciça presente dos torcedores nos re/pa’s deste ano; o público presente nos jogos do Clube do Remo no campeonato deste ano; o público presente nos jogos do próprio paysandu, nada obstante a sonegação dos números feitas pelo LOP. Valendo destacar o número de torcedores presentes no último jogo treino do clube do Remo no Baenão;

    Deveras, não havia motivo para maiores foguetórios inspirados no jogo do paysandu, afinal quando este conseguiu fazer seu úníco gol o adversário já ganhava de 2 a 0 e não conseguiu o empate que lhe garantiria o acesso. Ademais, o torcedor é fanático mas não é bobo, como se empolgar se havia a certeza de que os jogadores do paysandu não tinham a menor motivação pela falta crônica falta de pagamento. Aliás, resta dúvida até se o problema foi realmente equacionada de última hora pela mediante Pioneiro adjutório. A entrevista do Wanderson transmitida ao vivo antes do jogo pela Cultura foi emblemática.

    Na verdade, a atenção que muitos torcedores paraenses dispensam aos jogos e clubes dos outros estados não me parece ter outro significado que não seja a enorme afeição pelo futebol, provada e comprovada no jogo da Seleção Brasileira B ocorrido no Mangueirão. Com verdade, nada obstante os “itans” sejam atualmente, com seus dirigentes, de terceira ou de nenhuma divisão, as torcidas respectivas são de primeira, e cada vez estão se renovando, senão vide o número de crianças que frequenta os estádios vestindo azul marinho ou celeste.

    Todavia, em duas coisas eu concordo plenamente com você: as transmissões da Cultura são péssimas e algo é preciso ser feito para que o futebol paraense volte ao nível que seus torcedores merecem.

    A propósito, quanto às transmiss~soes da Cultura o pior não é o baixo número de replay’s. Ruim mesmo são a insistência nos replays quando jogadas importantes estão em pleno desenrolar. Mas, acredite, no meu caso particular, nem mesmo isso, ou certas e determinadas patriotadas de radialistas torcedores fazem que eu abandone a transmissão de um jogo do Remo para assistir qualquer clássico do sul do pais. Deixo todos para assistir se houver tempo nos compactos, ou nos melhores momentos dos programas da sportv e/ou espn.

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