Descontruindo a festa junina

A vida não cansa de nos empurrar pacotes que não pedimos nem compramos, mais ou menos como agem aquelas operadoras de telemarketing especialistas em tirar do sério até monge zen-bundista. Mas não abri esse post para falar dessas invasões de privacidade pelo telefone. Minha bronca é com a descaracterização das festas juninas. Nasci num lugar que tem Santo Antônio como padroeiro. Basta dizer isso para deixar claro o quanto as festividades do mês de junho me são particularmente caras. Fico, por essa razão, bastante mordido quando entro no shopping bacaninha, super bem transado, perfumes florais no ambiente, etecétera e tal, e deparo com aquele arraial de boutique na praça de alimentação.

E tome comidinhas que nada têm a ver com a quadra homenageada. Cadê o arroz doce, a canjica, a pamonha? Até fazem algumas tentativas toscas, usam (em vão) o nome dessas delícias interioranas, mas o sabor é de palha seca misturada com plástico. Não dá para engolir esse tipo de desrespeito, meus amigos. É um achincalhe.

Ainda mais para quem, lá em Baião, aprendeu desde moleque a apreciar os doces preparados por minha avó Alice. Estamos diante de um verdadeiro crime de apropriação indébita dos nomes dos quitutes juninos por parte de mãos fraudulentas. Alguém precisa localizar e convocar as cozinheiras e doceiras do interior paraense para ensinar essas impostoras da capital.

Além de poluir o visual com sujeitos vestidos de vaqueiros do Texas tirando onda e tomando o lugar dos verdadeiros jecas de junho, alguns desses estabelecimentos cheios de caqueado que infestam o shopping inventam de modernizar a festa. Por sugestão de alguns gênios do marketing, pessoal sempre descoladíssimo, já pipocam alguns pratos alienígenas na quadra junina. Já vi sushi, sashimi e até yakisoba expostos junto com inocentes quindins e cocadas. Não dá, tou pegando corda. É motivo mais do que suficiente para decretar guerra ou, como manda a moda do momento, propor a criação de um novo Estado.

14 comentários em “Descontruindo a festa junina

  1. Gerson, você tem razão, eu não falo nem das festas no interior do estado, eu gostaria que fossem como antes, pelo menos as festas em Belém nos terreiros de são joão, como eram chamados lá pelos idos de 70/80, festas tradicionais com aparelhagens como tinha uma que todo ano se realizava na Rua Pedreirinha bairro do Guamá, festa essa, que antes de iniciar a parte digamos assim, dançante, tinham outras atrações como casamento na roça, dança de quadrilhas etc.

    Infelizmente, o tempo passa e nada mais é pelo menos parecido com o que acontecia antes.

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  2. Gerson e amigos acho até que a intenção é boa mas o problema é como vc disse, escolher as mãos certas para fazer as coisas certas.
    Neste mesmo Shopping me atrevi há tempos atraz pagar R$ 6.00 num tacacá, agora deve custar R$8.00, tudo era ruim, do camarão até ao tucupi que eu gosto muito.
    Moral da história: Nunca mais vou comprar taccacá por lá.

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  3. Eu, há vários anos não ia a uma dita festa junina. Cheguei de viagem com uns amigos belgas e paulistas para análise de um projeto, e atendendo a um pedido deles, os levei a uma festa junina que aconteceu em frente à praia de Outeiro.

    Mas, durante toda a programação, os rítimos que predominaram foram: o rítimo baiano, e o forró. Aliás, Gerson, eu gostaria de perguntar o seguinte: Será que querem reconstruir Belém, mas desta feita na capital do forró? Manaus já foi transformada na cidade do forró, mas aí tudo bem, haja vista que o amazonense não tem identidade musical, além das toadas de Garantido e Caprichoso.

    Enfim, eu e meus amigos tínhamos a sensação de que estávamos numa arena de carnaval baiano. Tocou de tudo, menos musicas paraense. Me sentir constrangido diante dos meus amigos por conta dessa visão bestial.

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  4. Festa junina de verdade, hoje, só existe em algumas cidades do Nordeste. Em outras regiões, essa festa já ficou toda descaracterizada. Pode se chamar de tudo, menos Festa Junina.

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  5. A quadra junina remete-me ao passado fazendo nitidas as imagens da minha infancia. Nascido e criado na Conselheiro com a Generalíssimo (ruas sem calçamento) fui feliz sem saber, de ver e participar dos folguedos juninos que se realizavam no bairro.
    Como esquecer da figura jovem e bonita da minha mãe (D. Lourdes) esmerando-se no aluá de milho, na canjica e no bolo de macaxeira que em porções eram trocados (amenidades) com a vizihança mais dileta.
    Quem não catava madeira velha para fazer fogueira em frente da sua casa ?
    À noite, as cadeiras de embalo feitas de vime iam para a calçada e os vizinhos conversavam (principalmente as comadres) de tudo. Da carestia (custo de vida) ao namoro das mocinhas, enquanto a meninada passava de compadres e comadres em torno da fogueira de chamas não crepitosas. O ar tinha a sonoridade dos sucessos do mestre Luiz Gonzaga. É bom lembrar que esses sucessos eram quase lançados no mes de Maio e que eram anunciados no Rádio Clube e na Marajoara pela voz suave de um Carlos Benedito, Advaldo Castro, Lourival Penalber e outros mais.
    A nossa benfazeja chuva às vezes fazia-se presente suspendendo ou encerrando esses momentos.
    Anos depois, já mocinho , desfruitei dessa quadra de um modo diferente e natural da idade. As ” caipiras ” e seus cheiros cheirosos faziam arder em mim a fogueira nem tão inocente assim (mas decente com certeza) cujas chamas logo se apagavam com o surgimento de uma outra fogueira.
    Misturando textos de outros, encerro ” Na Gostosa Belém de Outrora, fomos felizes e não sabiamos
    PS : Sem preocupação de estilo e correição, rascunhei este modesto texto apenas prá ” bota prá fora ” um pouco do muito que mora dentro mim. Desculpem.

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  6. acho que o gerson tocou no ponto principal: a festa junina perdeu a inocência.
    virou uma arena onde quadrilhas superproduzidas vão desfilar o seu ego, em vez de procurar a diversão social.

    o que era pura e simples diversão para toda a família, se transformou em uma ferrenha competição pra ver quem é a melhor de todas.

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  7. Quadrilhas sempre houveram nas festas juninas. As de ontem divertiam a todos, as de hoje assustam. E mãos para o alto que chegou mais uma….

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  8. Era “obrigatório” na época a apresentação do boi bumbá. Lembro de um no terreiro da 25 com A. Baena chamado de boi azul que quando dançava muitos queriam tocá-lo, demonstrando uma falsa contrariedade perguntava: Quem passou o dedo na bumda do boi?

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  9. Belo depoimento, amigo Tavernard. Sinto-me assim também em relação a algumas de nossas mais ricas tradições.

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  10. Pois é, camarada. Infelizmente, os tais tempos modernos estão solapando com o que restava de bacana e simples nessas festas populares.

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