Até as pedras do cais de Cametá sabem que, há alguns anos, o Campeonato Estadual não é lá grande coisa. Nesta temporada, o sopro de renovação é a participação de dois representantes interioranos, da região do Baixo Tocantins. Em cenário de terra arrasada, baixa empolgação da torcida e pouca inspiração dos boleiros, pode-se afirmar que os tocantinenses salvaram a competição.
O primeiro turno foi ganho pelo Paissandu meio aos trancos e barrancos. Desfalcado de seu melhor jogador (Tiago Potiguar) e com um técnico execrado pela massa, o time acabou levando a taça muito mais por exclusão do que por mérito.
Veio o returno, com expectativa de uma reação do Remo, desesperado pela vaga à Série D. Ninguém apostava numa final de turno entre times emergentes. Tudo levava a crer que a segunda parte do torneio seria dominada pelos velhos rivais de sempre. Aos poucos, porém, Cametá e Independente Tucuruí vestiram roupa de gente grande e invadiram a festa.
Ambos aproveitaram, com sabedoria, a queda de rendimento dos concorrentes. O Paissandu preferiu se acomodar, o Águia não acertou o passo e o Remo, no auge do desespero, resolveu trocar de técnico. Despachou Paulo Comelli e trouxe Givanildo Oliveira para as semifinais. Não houve jeito: Sinomar Naves levou a melhor, com méritos.
E, afinal, o que Cametá e Independente apresentam de diferente em relação aos demais times do Parazão? Simples: times estruturados, alguns jogadores de qualidade e esquemas bem definidos. Acima de tudo, jogam com objetividade, exploram o fator campo com inteligência e encaram a dupla Re-Pa sem a mesma cerimônia de antes.
Como ocorreu com o São Raimundo em 2009, os duelistas deste domingo entenderam que não há mais distância que os separe dos grandes da capital. Exceto pela camisa, história e massa torcedora, Remo e Paissandu têm equipes comuns, do mesmo nível dos demais.
Uma velha anedota, muito ouvida nas áreas ribeirinhas do rio Tocantins, valoriza a audácia e o desembaraço do caboclo cametaense, tipo paraense bem genuíno, principalmente quanto ao sotaque especialíssimo. E o destemor dos Romualdos contagiou os matutos de Tucuruí, resultando na surpreendente performance de ambos neste campeonato.
O sucesso desses times tem muito a ver com quatro jogadores: Leandro Cearense e Robinho, no Cametá; Gian e Marçal, no Independente. Habilidosos, garantiram a solidez ofensiva dos finalistas. A dupla cametaense, mais jovem, cria jogadas e faz muitos gols. Robinho é o craque da competição e Leandro lidera a artilharia.
Já os experientes armadores de Tucuruí brilham pela capacidade de organização e qualidade do passe. Gian, às vésperas da aposentadoria, faz sua melhor temporada desde que foi trazido pelo Remo em 2003.
(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO deste domingo, 5)
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