No Campeonato Paraense, prevalece a lei do “mais ou menos”. O futebol é mais ou menos de quarta divisão e o mês dos boleiros dura mais ou menos 60 dias – e isso inclui até mesmo a agenda de pagamentos de Remo e Paissandu. A faixa salarial média está em R$ 800,00. Os dados resultam de pesquisa informal junto a jogadores, técnicos e dirigentes.
Dos oito participantes do torneio, Castanhal, Tuna e Independente praticam as políticas salariais mais modestas, com folhas em torno de R$ 55 mil. São Raimundo, com bom faturamento quando manda seus jogos no estádio Barbalhão (Santarém), e Cametá, com suporte da prefeitura municipal, são os mais abonados entre os emergentes.
Com exceção da dupla Re-Pa, que tem patrocínios de empresas, os demais clubes dependem da verba do governo, via contrato com a Funtelpa, para manter os compromissos em dia. Com alguma sorte, arrecadam um dinheirinho a mais nas partidas em casa contra os dois grandes.
Os jogadores são os astros do torneio, mas constituem a parte mais frágil da engrenagem. O panorama não é diferente de outras praças brasileiras. Pouquíssimos têm planos de saúde, a maioria tem apenas contrato informal de trabalho assinada e todos têm muitas queixas de atrasos salariais.
O achatamento salarial explica algumas pequenas tragédias pessoais, como a de um ex-atacante de Tuna e Remo que aceita gorjetas de até R$ 20,00 para disputar peladas. Sem recursos para curar os joelhos estropiados, desafia a lesão grave por puro instinto de sobrevivência.
Só a garantia de anonimato permite que as críticas brotem. Nos grandes da capital, a chiadeira é mais ruidosa entre a garotada da base, que ganha pouco e só tem alguma chance quando figurões não emplacam. Mas as diferenças de tratamento entre “reforços” de fora e boleiros nativos também é matriz de atritos internos que jamais chegam aos ouvidos do torcedor, embora muitos se revelem no baixo rendimento de certos jogadores.
Diante desses informes, é recomendável observar o futebol nativo com um olhar mais realista e menos condescendente. Representa uma modesta contribuição para mudar o estado geral das coisas.
Sem seis titulares, o Paissandu faz um jogo traiçoeiro em Cametá, hoje. O dono da casa também tem desfalques, mas as mudanças desfiguram bastante o time de Sérgio Cosme, que parece decidido a não perder mais um Re-Pa. Talvez não esteja avaliando os riscos (e consequências) de uma derrota no Parque do Bacurau.
O técnico Tite, do Corinthians, se notabiliza por transformar entrevistas rotineiras em eventos dignos de estudos lingüísticos mais apurados. Sua capacidade de complicar o simples o credencia a discípulo do incomparável Sebastião Lazaroni, célebre pela insistência em “galgar parâmetros”.
(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO deste domingo, 24)
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