O canto do adeus de um craque

blog do Gadelha traduziu essa preciosidade: a última coluna de Bob Herbert – sem dúvida, o mais liberal do velho “New York Times”. Herbert pontificou no jornal durante os últimos 18 anos. Seu artigo de despedida soa como um canto melancólico e certeiro do país que nasceu sob o signo da liberdade. 

Perdendo o rumo
Bob Herbert

Cá estamos despejando rios de dinheiro em outra guerra, dessa vez na Líbia, e, simultaneamente, demolindo os orçamentos escolares, fechando bibliotecas, demitindo professores e policiais e destruindo nossa qualidade de vida. Bem-vindo à América da segunda década do século 21. Um exército de trabalhadores permanentes desempregados por todo o país, consequências humanas da Grande Recessão e de longos anos de políticas econômicas mal planejadas. O otimismo está em baixa. Os poucos empregos criados muito frequentemente pagam uma ninharia, insuficiente para abrir as portas para um padrão classe média de vida.
Arthur Miller, ecoando o poeta Archibald MacLeish, gostava de dizer que a essência da América foram as suas perspectivas. Isso foi há muito tempo. A ganância sem limites, o poder desenfreado das corporações e uma dependência feroz de petróleo estrangeiro nos levaram a uma era de guerra perpétua e de declínio econômico. Os jovens de hoje estão diante de um futuro que será inferior ao dos mais velhos, uma reversão que deve chacoalhar todo mundo.
Os EUA não apenas se equivocaram em suas prioridades. Quando o país mais poderoso de todos os tempos mergulha facilmente no horror da guerra, mas torna quase impossível encontrar um trabalho digno para o seu povo ou oferecer educação de qualidade para seus jovens, é que já perdeu o rumo totalmente.
Cerca de 14 milhões de americanos estão desempregados e as perspectivas para muitos deles são desagradáveis. Uma vez que existe apenas um posto de trabalho disponível para cada cinco pessoas à procura de trabalho, quatro dos cinco se deram mal. Em vez de uma terra de oportunidades, os EUA são cada vez mais um lugar de expectativas limitadas. Um professor universitário em Washington me disse essa semana que alguns de seus graduados conseguiram emprego, mas sem ganhar bem, certamente não o suficiente para pensar em aumentar a família.
Há uma abundância de atividade econômica nos EUA, e muita riqueza. Mas, como crianças gulosas, as pessoas no topo estão pegando pra elas quase todas as “bolas de gude”. As desigualdades de renda e de riqueza chegaram a níveis que fariam corar o terceiro mundo. Como informou o Instituto de Política Econômica, os 10 por cento mais ricos dos americanos receberam injustos 100 por cento do crescimento médio da renda nos anos de 2000 a 2007, o período mais recente período de expansão econômica.
Os americanos comportam-se como se isso fosse algo normal ou aceitável. Não deve ser, e não costumava ser. Durante grande parte do pós-Segunda Guerra Mundial, a distribuição de renda era muito mais justa, com os 10 por cento das famílias do topo conquistando apenas um terço do crescimento médio da renda, e os 90 por cento da base recebendo dois terços. Isso agora é realmente coisa do passado.
A má distribuição da riqueza atual é escandalosa. Em 2009, os  5 por cento mais ricos pegaram 63,5 por cento da riqueza da nação. Enquanto a maioria esmagadora, os 80 por cento da base, pegou apenas 12,8 por cento.
Essa desigualdade, no qual um segmento enorme da população luta e uns poucos afortunados ficam no bem bom, é a receita para a agitação social. A mobilidade descendente é um fusível em curto, pronto para levar a graves consequências.
Um exemplo gritante dessa injustiça tão generalizada estava no título do The New York Times de sexta-feira: “Estratégias da GE permitem evitar impostos completamente.” Apesar dos lucros de 14,2 bilhões dólares – 5,1 bilhões dólares em suas operações nos Estados Unidos – a General Electric não teve que pagar qualquer imposto nos EUA no ano passado.
Como David Kocieniewski do Times escreveu: “O êxito extraordinário é baseado em uma estratégia agressiva que mistura forte lobby para benefícios fiscais com contabilidade inovadora que permite concentrar os seus lucros no exterior.”
A GE é a maior corporação do país. Seu principal executivo, Jeffrey Immelt, é o líder do Conselho sobre Emprego e Competitividade do presidente Barack Obama . Você pode imaginar como os trabalhadores devem olhar para este acolhedor arranjo governo-corporações e concluir que ele não está plenamente comprometido com os interesses do povo trabalhador.
Os profundos desequilíbrios entre riqueza e renda, inevitavelmente, levarão a enormes desequilíbrios de poder político. Assim, as corporações e os muito ricos continuam muito bem. A crise do emprego nunca é encarada. As guerras nunca terminam. E a construção da nação nunca tem apoio entre nós.
Novas idéias e novas lideranças nunca foram tão necessárias.

Esta é minha última coluna do The New York Times, após quase 18 emocionantes anos. Saio para escrever um livro e aumentar os meus esforços em nome dos trabalhadores, dos pobres e de outros que estão lutando em nossa sociedade. Agradeço a todos os leitores que foram tão bondosos comigo ao longo dos anos. Daqui pra frente posso ser encontrado através do e-mail bobherbert88@gmail.com.

5 comentários em “O canto do adeus de um craque

  1. Corajoso este Bob Herbert, mais o que ele fala, não é mais novidade, a menor camada da piramede, ganha quase tudo que é produzido num país, vai chegar uma hora que eles não vão mais segurar esta distorção, ai que eu quero ver aonde nós vamos parar, uma tremenda injustiça.

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  2. O Bob arrebentou. a sociedade americana tao invenjada vive momentos de total escuridao, vivem um futuro incerto. E Obama segue apostando na grande industria belica, que somente gera prejuizos no bolso e na moral democratica da America.
    Os grandes campos americanos vivem a fazer colheita miseravel ,tudo causado pelo adubo tao mal aplicado durantes essas ultimas decadas.
    A atual juventude vive hj a olhar pacatamente tudo e sem se moverem de seus lugares, nao tem tido coragem para fazerem a AMERICA.

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  3. Lamentavelmente, as corporações ainda são autênticas “vacas sagradas” na sociedade americana. Mandam e desmandam!
    Sheldon Wolin chamou a isso de fascismo investido. Esse é o pior dos regimes totalitários, pois a oposição aos grupos dominante não tem um tirano específico para derrubar. Já faz tempo que as corporações americanas colocam na direção do Estado (Legislativo, Executivo e Judiciário) títeres economicamente manipuláveis.
    Portanto, e definitivamente, quem manda mesmo nas políticas econômica e externa dos EUA são (e todos admitem – inclusive a direita) as corporações (*) – mormente o segmento bélico. Uma parte do povo, entretanto, continua iludido (ou alienado) pensando viver um sistema democrático – que serve tão-somente para propaganda no resto do mundo. O movimento sindical está desarticulado e impotente. As reações sociais organizadas são pontuais e isoladas. Como dizia Al Gore: trata-se de uma república oligárquica para dentro e um império para fora.
    A reação conservadora (vide Tea Party) está no centro dessa discussão. Trata-se de mais uma das atitudes desesperadas – que não consegue identificar onde, de fato, está o inimigo do povo. Daí as violentas ações xenófobas e racistas. Inclusive contra os representantes da corrente democrata.
    Muito “intelectual” brasileiro (e identificados setores da mídia comercial) ainda serve de garoto-propaganda do engodo americano. Teses e teses são escritas e repercutidas para defender o indefensável.
    (*) Já catalogadas como entes psicopatas (vide Joel Bakan).

    Em tempo: Empresas nunca pagaram tributos, sempre foram núcleos de arrecadação do Estado. Como assim? Quem paga tributo é o consumidor – já que qualquer tributo compõe os custos do bem ou serviço nas organizações econômicas. Ou seja, está embutido no preço do bem ou serviço. Empresas apenas repassam os valores retidos – isso quando repassam. Estima-se que 50% dessa retenção não é repassada aos cofres públicos.

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