Por Oliver Seitz 
 
Não interessa quanto de dinheiro um clube ganha. Porque quanto mais ele ganha, mais ele efetua gastos

Alguém disse um dia que o futebol é um grande negócio. Um monte de gente acreditou. Esse alguém e esse monte de gente, infelizmente, estão errados. Futebol não é um grande negócio. É um negócio mediano. Energia, alimentação, automóveis, extração, jogos de azar e construção são grandes negócios. Futebol não. Não chega nem perto. Nem aqui, nem na Europa e muito menos na China. Mas no fundo, isso pouco importa, afinal o futebol independe do dinheiro que ele gera. Não é isso que faz a máquina funcionar. Se o futebol gera 10 milhões ou 10 bilhões de reais, a diferença, especialmente pro mercado brasileiro, é muito pequena. Isso acontece porque a cadeia de valores do futebol funciona de uma maneira bastante peculiar.

Diferente de cadeias normais, onde o processo de produção é baseado essencialmente no processo financeiro, o futebol se baseia no processo esportivo, independente do financeiro. Basicamente, a idéia da cadeia é a seguinte: times existem para ganhar partidas; times com jogadores mais talentosos ganham mais partidas; existem muito mais demanda do que oferta de jogadores talentosos; jogadores talentosos tendem a escolher o clube por conta da proposta financeira; quanto mais dinheiro um clube tem, mais chance de contratar jogadores talentosos ele possui e, portanto, ele terá mais chances de obter vitórias.

Só que o valor de um jogador talentoso não é baseado em uma tabela fixa, mas sim no preço atribuído por outros clubes que competem pelo mesmo talento, independente do quanto for isso. Clubes de futebol do mundo inteiro tendem a gastar em média uns 80% daquilo que arrecadam com salários e transferências e apenas 20% com outros custos, como estrutura de estádio e centro de treinamento. Esses últimos, porém, são gastos com valores determinados pelo mercado em geral, o que faz com que apenas essa parcela represente um ganho real de receita. Para esses valores, mais dinheiro de fato significa algo positivo. O resto, porém, é uma draga: quanto mais você ganha, mais você gasta.

Ou seja, não interessa quanto de dinheiro um clube ganha. Porque quanto mais ele ganha, mais ele gasta. O que interessa é que ele ganhe mais dinheiro do que os outros clubes. Se você analisar os números, na verdade você chega à conclusão que isso acontece de verdade: apesar das receitas dos clubes brasileiros terem aumentado significativamente ao longo da última década, os gastos aumentaram muito mais.

Isso porque a competitividade por talento é quase que uma disputa bélica, e o único jeito de acabar com isso é justamente o jeito com que EUA e Rússia conseguiram frear o espiral de gastos da guerra fria: chegaram a um acordo de corte de gastos conjunto. Clubes não deveriam se unir para descobrir um jeito de ganhar mais dinheiro. Deveriam se unir para descobrir um jeito de gastar menos.

(Para interagir com o autor: oliver@universidadedofutebol.com.br)

2 responses to “Pensata: O futebol e o dinheiro”

  1. Avatar de Antonio Oliveira
    Antonio Oliveira

    É, pode ser… Do ponto de vista dos clubes, não assevero, mas admito que pode até ser… Todavia, existem outros atores nesta cena. Não creio, por exemplo, que para a fifa, para a cbf, dentre outros comensalistas, o futebol não seja um grande negócio.

  2. Avatar de CARLOS BERLLI
    CARLOS BERLLI

    De pleno acordo Gerson. Não só no futebol, mas na vida pessoal. Aquela figura do Gastão é raríssima hoje em dia e o proprio governo incentiva a prática do consumo. Quanto mais dinheiro um cidadão ganha, mas ele gasta. Estou falando por mim que não guardo dinheiro pensando no futuro. Sou testemunha de amigos que se preocupavam com poupança, levaram o farelo e seus herdeiros é que deram fim no tesouro. lògico que uma reserva para o inesperado deve ser mantindo, mas exige conscientização para isso. No mundo Esportivo quanto mais dever parece ser negócio, coisa difícil de entender.

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