As revelações do (ainda) superpoderoso Havelange

Por Alessandro da Mata, Amélia Sabino e Carlos Alberto Vieira – do Lance!

Os poderes de João Havelange na Fifa permitem o prenúncio: “Blatter será (re)eleito, Ricardo Teixeira se apresenta em 2015”. Aos 95 anos, Havelange só cansou das viagens. Agora, limita-se aos compromissos diplomáticos mais importantes. A Fifa segue a política do brasileiro. No Comitê Executivo, os membros lhe devem respeito e cumplicidade. O discurso pausado e lúcido, com raros lapsos de memória, vai da cortesia e altruísmo à imposição e domínio. E é revelador quanto à escolha da África do Sul para a última Copa. Bem como à definição de Cuiabá (MT) e Manaus (AM) como sedes, e o veto ao Morumbi (SP) no Mundial no Brasil. Havelange atribui revanchismo aos ingleses, por terem perdido o controle da Fifa, às acusações de manipulação de votos para as Copa de 2018 e 2022. E enxerga da mesma maneira os conflitos com lideranças da Uefa. Na entrevista de mais de duas horas, ele faz sugestões aos Jogos de 2016, críticas aos três níveis de governo, à Lei Pelé e à administração do Fluminense. Confira alguns trechos:

INTERFERÊNCIA NA COPA 2014

Algum tempo atrás me ligaram de Cuiabá. Lutei e falei com o (Joseph) Blatter e o (Ricardo) Teixeira para incluírem Manaus e Cuiabá. Para o mundo conhecer a floresta Amazônica, cuidá-la e respeitá-la. Para ver o Pantanal, gostaria que o mundo conhecesse. Um exemplo: 1998 foi a última Copa minha na Fifa. Terminou e a França tinha 60 milhões de turistas ano, classe A e B, deixando 60 milhões de euros. Por conta da divulgação, passou a receber 70 milhões de turistas e euros. O governo tem de entender, e não achar que está gastando. Nunca ninguém foi à África. Antes a Copa era na Europa ou na América do Sul. Fizemos o rodízio e foi o primeiro evento importante lá. Diziam que não daria certo. Só posso dizer isso se lhe der a missão.

PARENTES E AMIGOS DE TEIXEIRA

Olha, só. Precisa acabar com o “vou fazer a Copa e ficar rico”. Estou na Fifa desde 1957. Estava no COI desde 1963 e faltei a três reuniões, paguei tudo do bolso. Quando cheguei à Fifa eram 12 membros da Europa, um da América do Sul, um da Ásia e outro do Caribe (América Central). Todas as decisões eram europeias. Fiz um Comitê Executivo de 24 – oito da Europa, quatro da África, quatro da Ásia, seis das Américas e dois da Oceania. Se vai à Organização das Nações Unidas (ONU) são 180 países na assembleia. Mas se o conselho dos sete (maiores) diz não, acabou. Na Fifa, se é do Taiti e não tem dinheiro, pode participar do futebol.

Nota da Redação: Reynald Temarri é o representante do Taiti e está suspenso da entidade por suposto envolvimento na venda de votos para as Copas de 2018 e 2022.

ELEFANTES BRANCOS PÓS-COPA

O senhor já foi à Holanda? Vá ao estádio do PSV. Eles têm um estádio com centro de convenções, restaurantes e boutiques. Lá é o único lugar com os artigos de venda deles com 30% de desconto. Não será elefante branco. Em Saint-Denis (FRA) hoje se joga futebol, rúgbi e tem corrida de moto. Lá tem 7 mil lugares de estacionamento, metrô e ônibus. Aqui o sujeito se desespera e deixa o carro em qualquer lugar. Uma vez Carlos Lacerda (ex-governador do Rio) tinha um problema político. E me disse: vamos fazer um jogo internacional? Fui ao Paraguai. Paguei e vieram. Entraram 128 mil no Maracanã. E não houve problema político.

TEIXEIRA PARA PRESIDENTE DA FIFA

O Ricardo separou da minha filha e fiquei muito triste. Minha senhora me chamou e disse: “Não esqueça que ele é o pai dos teus netos”. Então, mudei. O Ricardo queria se lançar presidente (da Fifa) em 2011. Disse para se apresentar em 2015, pois o Blatter, em 1º de junho, será (re)eleito. O Ricardo é dedicado, tem 30 anos a menos. Seria um bom presidente por ter administrado a CBF. Acho que seria de justiça em 2015. Com a Copa bem organizada, ele vai demonstrar capacidade para organizar a Fifa. É a oportunidade de estarmos presentes no cenário mundial. O Blatter , em 1º de janeiro (de 2011), será (re)eleito e estarei lá. Ele foi um secretário nota dez, tem cultura e experiência. É um irmão ou um filho. Com o Blatter dará 40 anos da mesma política, e será 50 no total (com o Ricardo Teixeira). No fundo, o Blatter é o Brasil. (…) O presidente da Hyundai (vicepresidente do Comitê Executivo da entidade pela Coréia do Sul) está fora. Eu lhe fiz uma carta para entender que não se metesse. Não é por que ele é rico que será presidente. O Ricardo Teixeira pode ter defeitos, mas se preparou, fala mais de duas línguas, é culto e  vem de um país com cinco títulos. Está eleito na CBF e não sofre oposição na Fifa. Nunca faltamos à Copa do Mundo. O futebol do Brasil.
vai bem e a América do Sul o respeita.

ESTÁDIO DE S. PAULO PARA A COPA

O senhor conhece ou já foi alguma vez à tribuna de honra do Morumbi? Quando sai um gol, o senhor bate a cabeça no teto. Se tiver de fazer, que se faça em um lugar novo, o do Corinthians. Essa é a minha decisão e será a da Fifa. Um estádio novo para 50 mil, 53 mil pessoas.

N. R.: Havelange se refere primeiro ao estádio do São Paulo, cuja proposta de reforma foi rechaçada pela Fifa. Depois, ele se volta ao Fielzão, planejado inicialmente para 48 mil lugares, em Itaquera. Apesar da insistência da equipe de reportagem, o presidente de honra da Fifa se furta a responder de onde virá o dinheiro para a ampliação do estádio para 65 mil lugares, uma exigência da entidade para a abertura do Mundial.

2 comentários em “As revelações do (ainda) superpoderoso Havelange

  1. E o Ricardo Teixeita tem a carade pau de dizer que o critério de escolhas das sedes foi puramente técnica, muita cara de pau, é claro que as sedes foram pré escolhidas por ele e também por influências de politicos, é isso que dá ter politicos fracos como os nossos, a dona Ana Júlia se gaba tanto de ser amiga íntima do Lula então prq ela não falou com seu mui amigo Lulinha, ela teve a resposta nas urnas!!

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