A falta que faz uma biografia de Pelé

Por Mauricio Stycer

Entrevistei Pelé duas vezes – por ocasião dos seus 60 anos e, quatro anos depois, na época do lançamento do filme “Pelé Eterno”. Nas duas ocasiões, pedi a colegas que registrassem em foto meu encontro com o rei do futebol. Mantenho as duas imagens em porta-retratos no escritório da minha casa.

Digo isso para sublinhar, de cara, o tamanho da minha admiração pelo sujeito que neste sábado comemora 70 anos.

Que eu lembre, vi Pelé jogar apenas duas vezes, numa partida do Santos contra o Botafogo e num amistoso da seleção brasileira. Conheço o Rei como quase todo mundo da minha idade ou mais jovem – pelas imagens que o registraram em ação, pelas suas entrevistas, pelos relatos dos que o conhecem.

Há dezenas de livros sobre Pelé, além de centenas – sobre outros personagens – que contam histórias a respeito do craque. Há dois grandes documentários (“Isto É Pelé” e “Pelé Eterno”) com registros de centenas dos seus mais de mil gols, além de uma infinidade de programas jornalísticos e filmes que relatam a sua história.

Por que, apesar de tudo isso, tenho a sensação que não conheço Pelé direito? Vou arriscar algumas hipóteses.

1. Pelé ganha a vida, há pelo menos 40 anos, como garoto-propaganda. Para ele, imagem é tudo. Por isso, a controla com zelo.

2. Há anos, Pelé conta sempre as mesmas histórias do mesmo jeito e, pior, falando na terceira pessoa. É como se ouvíssemos relatos homéricos, grandes lendas e não situações vividas por gente de carne e osso.

3. Os grandes feitos de Pelé, entre o final dos anos 50 e o início dos 60, ocorreram numa época em que o jornalismo esportivo era pouco objetivo e muito emocional.

4. Todos os contemporâneos de Pelé no futebol repetem, igualmente, os mesmos casos, sempre sublinhando as mesmas qualidades do jogador. Mesmo atitudes altamente condenáveis, como entradas violentas que causaram lesões gravíssimas em adversários, são relatadas com leveza, como se fosse uma qualidade do jogador, que “sabia se defender” das pancadas.

5. As polêmicas relacionadas a vida pessoal de Pelé sempre foram deixadas em segundo plano. Esta é uma questão que não diz respeito a ele, mas a uma boa tradição da imprensa brasileira mais séria, de não avançar o sinal em matéria de vida privada de pessoas públicas.

6. Casos recentes envolvendo Pelé, como a filha que não reconheceu ou os problemas policiais do filho, ganharam tratamento sensacionalista. Como Pelé evita comentar os assuntos negativos, é difícil avaliar corretamente o que está em jogo.

7. Uma rara tentativa de avaliar o legado do jogador mais criticamente, o livro “A Verdade sobre Pelé”, de Adriano Neiva, o De Vaney, publicado na década de 70, mistura questionamentos interessantes com bobagens que revelam ressentimento e, por isso, não é levado a sério.

8. As idas e vindas de Pelé no campo da política esportiva, sua pouco eficaz atuação como ministro e suas relações com a CBF, quando esmiuçadas por jornalistas independentes, tem pouca repercussão. A opinião pública parece sempre muito compreensiva com Pelé.

9. Pelé desmente a famosa frase de Tom Jobim, que disse: “No Brasil, sucesso é ofensa pessoal”. Como Roberto Carlos e, talvez, Lula, Pelé é reverenciado acima do bem e do mal.

10. Ainda não foi escrita “a” biografia de Pelé.

Em tempo: um site especial, caprichado, sobre Pelé pode ser visto aqui.

7 comentários em “A falta que faz uma biografia de Pelé

  1. Eu não gosto do Pelé. Não o admiro como pessoa. É mesquinho, metido e não tem uma gota de humildade. De espírito pobre, digno de piedade. Não é grato a Deus pelo dom que lhes foi dado. Infelizmente nem tudo é perfeito nesse mundo.

    1. Caro Boby Dias, tu moras no Brasil ou em Marte? O Pelé nunca tratou seus fãs com “nariz empinado” e sempre tratou todos com igualdade. E olha que o nome “Pelé” é mais conhecido no mundo do que a palavra “Brasil”, ou seja, o Pelé para os gringos é mais famoso que o nosso próprio país…

      E pensar que tem jogadores aí atchimNeymaratchim que não param para dar autógrafos a um fã seu nem amarrado…

      Em suma, Pelé é o rei do Brasil tanto dentro como fora dos gramados.

  2. Danilo,
    Desculpe, mas vou contariá-lo!
    A historia já foi essa que você diz. Já foi, não é mais.
    Hoje, a palavra “Ronaldo” já chegou ao status de a mais conhecida no mundo do futebol. Tem garôto aqui no Brasil que pergunta quem é Pelé, mas, não pergunta quem é Ronaldo,seja o fenômeno ou o gaúcho! Isso porque, eles sim, são conhecidos de todo o tipo de público: adulto, infantil…

  3. NO governo de FHC, havia dois ministros diametralmente opostos no quesito simpatia. Pelé chegava à Base Aérea de Brasília e era todo sorriso, apertos de mão, assinatura de autógrafos, enfim todo alegria; do outro lado, havia um ministro do Planjemanto, J. Serra, que nem sequer olhava no rosto dos tripulantes que o iriam transportar.

  4. O pelé hoje com 70 anos tem mais preparo físico que o Ronaldo, diz tudo e cala qualquer comparação. Já FHC é por síndrome, nada mais.

  5. As virtudes que faltam no Pelé são faratmente encontradas no Maradona e por isso os argentinos consagram divindade ao seu idolo. O que às vezes está em baixo poderia estar em cima na configuração física do homem.

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