Um manifesto alvinegro

Por Arnaldo Bloch

Torcedores do Botafogo que se acham “verdadeiros” quiseram roer meu fígado por causa das ideias que expus no “Redação SporTV” da última segunda-feira. Faço parte daquela turma de não especialistas que os programadores convidam para dar um olhar informal (ou desinformado, conforme o caso) sobre o mundo das bolas. Acusaram-me de “não ser torcedor”. Disseram que “não precisam de mim”. E, como não podia deixar de ser, coroaram a argumentação me chamando de filho da puta. A ira destes meus irmãos levou-me a sistematizar o que dissera na TV no pequeno manifesto que segue abaixo, com jeitão de autoa-
juda, apesar de meus esforços em contrário. Tenho certeza de que encontrarei mais compreensão que ódio, uma vez que a torcida do Botafogo é composta, em sua maioria, por quem sabe enxergar a vida além do preto e do branco.

SER BOTAFOGO — Não sou Botafogo “para vencer”. Gosto de vencer. Prefiro a vitória à derrota. Mas sou Botafogo porque sou Botafogo. Pela estrela, pelo preto e branco misturado ao colorido da multidão, às estampas das moças, ao cabelo da ruiva, ao azul, ao Brasil.

ATÉ O FIM — Se o Botafogo for campeão, fico feliz da vida. Mas não ambiciono ver o Botafogo sagrar-se pentacampeão brasileiro antes de eu morrer. Isso é pouquíssimo provável. Por ora, fico feliz se formos à Libertadores. Mas se o Botafogo deixar de existir, amarei sua flâmula e so-
nharei com seus símbolos até a última noite.

PORRADA — Esclarecendo, só de passagem: isso não vale só para o Botafogo, mas para a
maioria dos times e, portanto, a maioria dos torcedores, em conjunto. Transitoriamente, no plano da História, este ou aquele time, nesta ou naquela cidade, terão uma “hegemonia” de títulos, de conquistas, de torcida. Para o torcedor deste time, a derrota em campo tende a equivaler a uma derrota pessoal. O time passa a ter uma dívida com o indivíduo. Não no sentido moral, de melhorar para retribuir o apoio, mas no sentido emocional, de recuperar sua autoestima perdida. Perder, então, passa a ser uma questão pessoal entre o torcedor e o jogador, ou entre o torcedor e o torcedor, inclusive os do mesmo time. Num caso ou no outro, a porrada come.
AO GLORIOSO, A GLÓRIA — Sou o torcedor que sou. Mal sei as escalações de cor e enciclopédia pra mim é a “Britannica”. Nos anos 70, amei várias formações alvinegras que não ganharam título. Wendell era meu ídolo. Marinho Chagas, um semideus. Ouvi no radinho o João Saldanha soltar seus esgares ébrios quando Tuca e Puruca formaram o ataque. Faço parte de um povo que sabe o que é a privação. A vida é assim. E as glórias que são do Glorioso ninguém tira, bastantes, muitas, poucas, uma, ali no firmamento.

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