Carta a um jovem escriba

Por André Forastieri

Se você trabalha com comunicação, precisa saber escrever. Mas muita gente sofre para escrever. Eu escrevo profissionalmente desde 1988. Tenho uns truques para compartilhar com você. Em 2008, eu me rendi e comecei um blog para palpitar todo dia sobre cultura, tecnologia e comunicação. Também o fiz para expor as glórias e vergonhas destas duas décadas. Me rendi ao blog porque quase só leio online.

Observei que muitos blogs brasileiros são prolixos e ensimesmados. Muita opinião e pouca posição. Jornalistas profissionais têm outros problemas. O pior é cozinhar o press release. Tudo isso tem remédio. A primeira vez que escrevi sobre escrever foi em 1995, numa coluna do Folhateen. Uma resposta a mil consultas sobre como virar crítico musical. Está no meu blog. De lá para cá, escrevi várias vezes sobre o assunto. Quase sempre para consumo interno. Eu envelheço, mas meus colegas sempre têm uns 25 anos. Eles batizaram de “Escolinha do Professor Forasta”. O foco é jornalismo, mas serve para outras coisas. Reescrevi minha aulinha há um mês. Este é o primeiro remix.

COMO ESCREVER BEM

Escrever bem é defender uma posição original, com argumentos irrefutáveis, de maneira sedutora e clara. Vamos chamá-la de “tese”. Isso pode ser feito em uma frase ou mil. Em uma é melhor. Se o texto não tem posição, não defende uma tese. E se não tem algum componente de provocação, não defende uma tese original. Aí pode ser o que você quiser – poesia, prosa, “conteúdo” -, mas não é jornalismo. Adaptando a Wikipédia, a tese é uma tomada de posição por parte do autor. Ele apresenta sua posição e, em seguida, argumentos que provem que ela está correta. A tese deve ter tema único e bem delimitado, rigor de argumentação e apresentação de provas, profundidade de ideias, avanço da compreensão da área abordada e originalidade.

A ESTRUTURA

O texto jornalístico ideal tem 1500 caracteres. Ele deve defender uma única tese. O texto longo é, na verdade, uma grande tese, construída por miniteses de 1500 caracteres. É muito difícil de fazer e pouca gente tem paciência para ler. Pense dez vezes antes de fazer. Se você realmente precisar fazer algo maior que 1500 caracteres, transforme tudo o que passar disso em listas, subretrancas, bullets, boxes, infográficos etc. O título da matéria deve ser um resumo da tese, expressada da maneira que mais atrairá leitores. O primeiro parágrafo do texto (também conhecido como “lead”) explicita a ideia central do texto e, portanto, é um resumo do texto completo. O efeito final no leitor deve ser o de que ele escorregou pelo texto – foi paquerado pelo título, seduzido pelo lead e, quando viu, já estava no clímax. Uma estrutura muito eficiente: tese no lead, seguida de quatro parágrafos apresentando provas da tese em ordem crescente de força da prova. O último repete a tese e apresenta a prova definitiva de que ela é correta.

O TEXTO

As frases devem ser curtas e diretas. Não use vírgulas. Não use jargões e termos técnicos. Escreva em português que sua mãe possa entender. Não use metáforas, bordões, clichês. Se usar siglas, na primeira vez que mencioná-las, explique o que ela significa e o que ela é em texto entre parênteses. Abra um parágrafo a cada 400 caracteres. Use muitos subtítulos. Quando você achar que o texto está bom, conte o número de caracteres. Corte 30%. Depois disso, volte para a primeira linha e desça cortando todas as vírgulas que conseguir. Uma por parágrafo é o máximo desejável.

O ESTILO

Não procure ter um estilo. Estilo é uma mistura de todo mundo que você admira com o que você não consegue deixar de ser. Vai sedimentando com a idade. Preocupe-se em defender sua tese com clareza e eficiência. Escreva rápido até o final. Revise depois. Desligue o corretor automático, mas verifique as grafias. Você pode usar palavras que não usaria normalmente numa conversa com sua mãe – uma vez por texto. Aprenda inglês. Leia Gore Vidal pelos ensaios, The Economist pela clareza, e Seth Godin se sua praia é marketing. Mas estude os jornalistas brasileiros que sabem escrever em português. Não interessa o que ele está falando, interessa como. Paulo Francis é imbatível. Na minha geração, Álvaro Pereira Júnior. A formuleta acima funciona. Use e pare de sofrer. Você também pode ignorá-la e escrever bem. Só precisa ser muito inteligente e experiente e talentoso.

Finalmente: se você não se diverte quando escreve, o leitor percebe. Vá trabalhar com alguma coisa que te dê prazer!

4 comentários em “Carta a um jovem escriba

  1. SOU HISTORIADDOR, NÃO JORNALISTA. AS EPÍGRAFES ACIMA SÃO IMPORTANTES EM QUALQUER ÁREA, PORÉM MAIS FUNDAMENTAL AINDA É QUE CADA UM DOS MILHARES DE PRODUTORES TEXTUAIS NAO ESQUEÇAM DA SUA INDIVIDUALIDADE. TODO TEXTO TEM QUE TER A CARA DE QUEM ESCREVE. A PREOCUPÃÇÃO EM “IMITAR’ OU RETIRAR DE OUTROS ATORES EXEMPLOS DE COMO ESCREVER, DEVE ESTAR EM SEGUNDO OU TERCEIRO PLANO.

  2. Gostei da aula, mas eu pouco me preocupo com isso, pois sei que o mais importante é a comunicação, dito pelos próprios linguistas. É claro que quando um trabalho é longo essas dicas são interessantissimas. Eu escrevo e não sei revisar. É o meu pecado, por isso estou longe de ser jornalista. Apenas blogueiro. E mais um defeito: tenho horror por inglês, como Eça de Queiroz que diz: “Honro-me nem saber a língua dos outros”…. e por isso fui muito prejudicado na escola. rsrsrs

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