É fato que o mundo do esporte passa por uma séria crise de credibilidade. Cismas de toda espécie rondam as competições mais importantes, inquietando patrocinadores e deixando o torcedor cada vez mais com o pé atrás. Até hoje circulam histórias sobre a Copa do Mundo de 1998, aquela das convulsões de Ronaldo Fenômeno, insinuando um grande arranjo para que a França conquistasse seu primeiro título mundial.
Antes, havia a desconfiança generalizada sobre o mundial de 1978, quando a Argentina comandada por César Luis Menotti e pelos militares precisava levantar a taça – e, efetivamente, levantou. Para isso, precisou golear o Peru num jogo cuja seriedade até hoje não resiste a uma simples olhadela.
Nos últimos anos, a Fórmula 1 tem sido sacudida por incidentes vergonhosos, como a célebre marmelada da Renault em Cingapura, com a participação de Nelsinho Piquet e do chefão da escuderia, o italiano Flavio Briattore. O acidente provocado por Nelsinho permitiu que Fernando Alonso se aproveitasse da bandeira amarela para assumir a liderança da prova.
A confirmação do esquema jogou mais lenha na fogueira sobre os acertos de bastidores da modalidade, cujo regulamento permite uma perigosa brecha chamada “jogo de equipe”, segundo a qual um piloto pode tirar o pé para deixar que o companheiro de escuderia possa ir em frente.
A Ferrari já obrigou Rubens Barrichello a cumprir essa lei interna em benefício de Michael Schumacher e voltou a agir assim nesta temporada, mandando Felipe Massa abrir passagem para o espanhol Fernando Alonso. Aparentemente, fatos dessa natureza caem no esquecimento e se perdem no turbilhão de notícias diárias, mas é inegável que a seriedade do esporte sofre abalos irreparáveis sempre que alguém burla as regras do jogo ou afronta princípios éticos elementares.
Diante desse cenário farsesco, como explicar, por exemplo, o cínico desinteresse de brasileiros e búlgaros no jogo válido pelo Mundial de Vôlei na Itália? Diante da chance de vir a pegar uma chave menos complicada na fase seguinte, tanto Brasil quanto Bulgária jogaram para perder. A batalha pela derrota resultou numa partida patética, vaiada pelos torcedores e questionada por grandes nomes do vôlei mundial.
O Brasil, que demonstrou mais talento para fazer corpo mole, acabou derrotado e conseguindo o que queria: o tal caminho teoricamente mais fácil rumo ao título. Ocorre que a estratégia rendeu ao time de Bernardinho uma mancha que talvez nunca se apague.
Júlio Velasco, treinador dos mais conceituados, deplorou o acontecimento, alertando para a imagem negativa deixada pelo Brasil. O ex-jogador Andrea Vorizi foi mais preciso: observou que a seleção campeã mundial e vice-campeã olímpica não podia ter se submetido a um papel tão triste pelo simples fato de que é um modelo a seguir. Concordo inteiramente.
(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta terça-feira, 5)
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