Conexão África (20)

À imagem e semelhança do comandante

Todo mundo vai repetir a ladainha de que todos os adversários merecem respeito, mas enfrentar o Chile nas oitavas de final é a coisa mais conveniente à Seleção Brasileira neste momento. Mesmo mostrando bom futebol e grande evolução técnica na primeira fase, a seleção de Marcelo Bielsa não tem currículo, nem confiança para encarar de igual para igual um dos grandes favoritos ao título. Mais que isso; tem um histórico de freguesia para o Brasil em Copas (a mais recente derrota foi em 1998, na França) e costuma se apequenar em confrontos decisivos. Claro que isto é futebol e sempre há a possibilidade de uma zebra, mas é improvável que ela surja na frente de Dunga nesta segunda-feira.
O cruzamento com o Chile dá, ainda, mais tempo para ajeitar o time para embates mais difíceis nas etapas seguintes. Logo nas quartas de final poderá se entestar com a Holanda, o que repetiria parte da trajetória brasileira no Mundial francês. O empate decepcionante contra Portugal, mesmo com três titulares ausentes, não esteve à altura de uma equipe que veio à África para ser campeã pela sexta vez.
Por mais que se critique o trabalho e os métodos de Dunga, todo mundo sabe de sua obsessão por essa conquista e o quanto ele tem dedicado tempo e atenção a isso, mesmo sem o brilho desejado. Alguns caminhos que surgem para seleções em Copas do Mundo indicam até que ponto elas podem chegar. O que se delineia para o Brasil tem grau de dificuldade considerável, mas sem barreiras intransponíveis. Pelo nível técnico da competição, não se vê até aqui nenhum timaço em ação.
Existem bons times, alternando bons e maus momentos (estes em quantidade bem maior). Nesse aspecto, cresce a hipótese de uma final histórica e sem precedentes, contra os vizinhos e argentinos. Seria a mãe suprema de todas as batalhas, esperada há tempos por gerações de craques de ambos os lados. O tira-teima de uma rivalidade secular, que só foi testada em embates regionais. Desconfio, pelo andar da carruagem, que o ainda titubeante esquadrão brasileiro vá pegar no breu a partir das oitavas, repetindo sua melhor roupa de competição e passando a encarar os oponentes com mais
desassombro. Por ora, isto é apenas um palpite, levando em conta o comportamento do time de Dunga em torneios recentes, como Copa América
e Copa das Confederações. Depois de começos frustrantes, sem identidade, a equipe foi adquirindo confiança e estofo até chegar a um nível de extrema competitividade na reta final das disputas, quando o que importa realmente é a capacidade de decidir.
Apesar dessa crença na evolução da Seleção, não parece que, com a atual formação (e as poucas alternativas de que dispõe no banco), o Brasil vá encantar o mundo nesta Copa. Como sempre avaliei, permanecem boas as chances de levantar o caneco do hexa, mas longe dos sonhos daqueles que cultuam o chamado futebol-arte. Se triunfar, será rigorosamente dentro dos limites impostos pela filosofia pragmática do comandante, que tem o respeitável mérito de jamais ter fugido aos seus princípios.
Portanto, quando a Seleção pisar o gramado do Ellis Park (em Johanesburgo) amanhã para desafiar o Chile, que ninguém alimente ilusões maiores. Será o mesmo time regulado e previsível de sempre, com as jogadas laterais de costume, que servem para passar o tempo e reter a bola, embora tenham o efeito paralelo de desagradar a todos que gostam do futebol brasileiro tradicional. A esses, um conselho: esqueçam a tradição e contentem-se com a realidade possível. A partir dessa consciência, sofre-se um pouco menos.

Outro campeão vai sair de cena

Portugal e Espanha. Alemanha e Inglaterra. Dois grandes duelos europeus que devem conferir à Copa emoções fortes, depois de uma primeira fase pouco empolgante. Pelo ponto de vista das conquistas, os confrontos trazem a certeza de que pelo menos mais um campeão mundial estará fora de combate nesta semana, depois da eliminação de italianos e franceses. Poderão permanecer vivas na disputa somente quatro seleções que já experimentaram o sabor de conquistar o título máximo, pois uruguaios, argentinos e brasileiros também participam desta fase do torneio.

Moses Mabhida, bonito e funcional

De todos os modernos estádios construídos para a Copa da África do Sul, o Moses Mabhida não é o maior, mas seguramente desponta como o mais funcional. Em minutos, o público tem acesso a suas dependências confortáveis, fato que permite também rápida evacuação (tempo máximo estimado em 20 minutos). Mas o ponto que mais chama atenção é a generosa visão do campo de jogo, que no Soccer City e no Ellis Park fica prejudicada pela altura das arquibancadas. Cabe mais gente nos dois estádios de Johanesburgo, mas os que dão o azar de ficar no último lance de cadeiras ficam a quase 40 metros de distância do gramado, o que nem sempre permite identificar jogadores e lances mais confusos. O problema afeta, particularmente, a imprensa que cobre as partidas. Cabines situadas junto ao teto desses estádios obrigam narradores e comentaristas a recorrerem diretamente aos monitores de TV para acompanhar o desenvolvimento do jogo lá embaixo. No estádio de Durban, essa limitação não existe.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO deste domingo, 27)

3 comentários em “Conexão África (20)

  1. A Argenina hoje dirá se realmente é o que todos pensam, pois o México está com o Chile está para o Brasil. Não creio que jogará tão ofensiva como vem se apresentando, caso isso ocorra, o risco de ficar por aqui é grande.

  2. Gerson, quem está no”tubo” não tem problema. As imagens são precisas e os recursos tiram qualquer dúvida. Mas, quem está “vivo” corre perigo da imprecisão.

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