A decisão do primeiro turno (e suas conseqüências imediatas) ocupou todo o espaço do noticiário durante o final de semana, terminando por impedir que se avaliasse melhor – pelo menos aqui na coluna – a apresentação portentosa de um jovem craque paraense diante de sua platéia. Mesmo ao lado do espetacular Neymar, seu futebol não ficou obscurecido.
Refiro-me a Paulo Henrique Ganso, um centro-médio como não se via há tempos, digno aspirante a membro de uma seleta confraria que reúne Zizinho, Jair da Rosa Pinto, Didi, Ademir da Guia, Rivelino, Dirceu Lopes, Gerson, Zico, Rivaldo e Giovanni (o nosso).
A função, por ausência de ocupantes habilitados, foi caindo em desuso com o passar dos anos, a ponto de ninguém mais usar a palavra centro-médio, que no passado era termômetro da envergadura técnica de um time. Era regente, maestro, cérebro. O cara a quem a bola era passada sempre que os demais operários não sabiam o que fazer com ela.
Hoje, o camisa 10 é um ser solitário na meia-cancha, sob a rubrica quase deselegante de meia-armador. A partir das Copas de 86 e 90, o futebol ficou mais previsível e pobre, entregue aos esquemas que fecham o meio-campo a cadeado. A bola obrigatória trocou de destinatário: passou a ser carimbada sempre pelo volante, também conhecido pela alcunha de cabeça-de-área, por razões óbvias. Muitas das desditas do velho esporte bretão podem ser atribuídas a essa trágica mudança de rumos.
Lembro que naquele time do pentacampeonato, em 94, todas as jogadas tinham que passar por Dunga, muitas vezes apenas para um toque de lado, inteiramente dispensável. Uma usurpação, um gesto quase boçal. Pagamos até hoje o preço dessa opção pelo futebol mais rude, sem espaço para o passe diferenciado, o lançamento milimétrico, a condução inteligente.
Ganso, menino ainda, pode fazer ressurgir esse papel. É missão tão árdua quanto gloriosa, pois terá que dissipar a sombra da desconfiança que paira sobre esse tipo de jogador – em parte pela sonolência de Alex (ex-Palmeiras). Ronaldinho Gaúcho era o médio clássico, pronto para a consagração absoluta, mas viveu seu auge em clubes, não chegando a render bem na Seleção. Kaká se aproxima desse perfil, mas, no futebol apressado de hoje, que tanto preza a juventude, já é quase um veterano.
As portas, portanto, estão escancaradas para um novo especialista. Ganso, formado nas divisões de base da velha Tuna, é a bola da vez. Sob a influência do padrinho Giovanni, evoluiu muito – até na parte atlética – desde que chegou ao Santos. Joga de cabeça erguida, com elegância. É mais rápido do que aparenta, anda por todo o campo e lança com extrema precisão.
Ganso não tem competidores no Brasil, poucos se equiparam a ele lá fora (talvez Cambiasso, Gerrard ou Iniesta). Lamentável apenas que as normas cartesianas do capitão-do-mato não permitam que seja aproveitado na Seleção em seu melhor momento. Teremos que esperar até 2014. E quatro anos constituem uma eternidade nesses tempos ligeiros.
(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta quarta-feira, 24)
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