Pensata: Senna, 50

Por Flavio Gomes

Ayrton Senna faria 50 anos amanhã. Vai ser aquilo de sempre. Imagens de gente depositando flores em seu túmulo, pessoas chorando, camisetas Marlboro, bonés do Nacional. E Tema da Vitória bombando em suas várias versões, inclusive a fúnebre. Saudades eternas, nosso herói, aquelas inesquecíveis manhãs de domingo — que nem sempre eram manhãs, diga-se; 14 de suas 41 vitórias foram conquistadas de tarde ou de madrugada, pelo sagrado horário oficial de Brasília.

Se Ayrton pudesse protocolar um protesto no Departamento de Reclamações do Além contra essas presepadas, creio que o faria. O negócio dele era correr de carro, acelerar qualquer coisa que tivesse quatro rodas, ganhar dos rivais, e as pessoas aqui só querem saber de lembrar “daquelas manhãs de domingo”. Não do que ele fazia na pista, dos duelos, das ultrapassagens, das vitórias e das derrotas. Mas daquilo que elas, as pessoas, sentiam se apropriando da capacidade alheia.

É um sentimento egoísta, esse do torcedor brasileiro. Na TV, a gente tem um bordão que se chama “o povo fala”. É quando se sai às ruas para entrevistar transeuntes sobre qualquer assunto. Um “povo fala” sobre Senna dá nisso: “Eu me sentia um vencedor”, “ele lavava nossa alma”, “ele nos enchia de orgulho”.

Ele corria para vencer. Por ele, por uma equipe inglesa, por uma marca japonesa ou francesa de motores e outra americana de pneus. Em que pese o teatrinho nacionalista que gostava de fazer, com bandeiras e citações ao pobre e sofrido povo brasileiro, Senna fazia o que todo piloto faz: queria derrotar os outros.

Por isso, que se lembre dele por aquilo que fazia dentro de um carro. Todo o resto, seu endeusamento, sua transformação em mártir, em ídolo infalível, quase um santo que só não foi canonizado porque o papa ainda não sacou nada, não passa de babaquice.

7 comentários em “Pensata: Senna, 50

  1. De pleno acordo!
    Aliás, no Brasil, o processo de “fabricação de heróis” é altamente arbitrário e prejudicial ao bom senso, à memória e à consciência nacionais.
    “Ídolos” e “heróis” muitas vezes inescrupulosos (não considerando aqui aspectos da vida particular de personalidades, longe disso), verdadeiras “estátuas de bronze e pés de barro”, foram forjadas no seio da conveniência de grupos políticos, de classes sociais privilegiadas ou de certos formadores de opnião (como o nosso célebre galhofeiro e pacheco “Gavião Bueno”); para isso basta verificarmos os nomes de alguns logradouros de cidades como Belém para atestarmos como a história é muitas vezes inglória para poucos e benevolente com muitos.
    Senna, como se sabe, é incensado pela imprensa (notadamente a imprensa esportiva) como o arauto do bom mocismo nos autódromos. Eu, particularmente, não me interesso por sua vida particular e pelo possível exemplo que ela supostamente representa (outra presepada que os pachecos da imprensa esportiva tenta nos empurrar goela abaixo). Mas a partir do momento em que, como bem diz o Flávio Gomes, acredita-se e se reproduz a falácia de que “nos sentíamos vencedores nas manhãs, e em algumas tardes de domingo”, algo preocupante e sombrio acomete a memória nacional e tenta manipular os corações e mentes desta terra brasilis.

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  2. Nesse aspecto, eu discordo. Piquet foi o maior piloto brasileiro, pois nao tinha apoio de ninguem e era inimigo de todos e ainda assim foi tri. Schumacher foi o maior de todos os tempos nao pelas conquistas: era bom de treino, de corrida, sabia arrumar o carro, sabia contratar os tecnicos certos, tinha sorte, era bom em pista travada e veloz, fazia melhores tempos em trechos mistos, longos e curtos, sabia pressionar psicologicamente, dificilmente errava, quase nao quebrava, porque sabia poupar o equipamento, era lento nos primeiros treinos para arrebentar nos seguintes (nao era o rei das sextas, mas dos sabados), foi campeao em equipes diferentes, com tecnicos e chefes de equipe dirigentes etc. Lembro da primeira corrida dele e um dia depois foi contratado pela Benetton. Na minha modesta opiniao, tinha uma deficiencia: nao era tao veloz na chuva, como Senna era.

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    1. Minha preferência por Piquet como o maior piloto entre todos é que, além das inimizades e má vontade da mídia brasileira, também não era popular entre os jornalistas estrangeiros – ganhou até aquele Prêmio Limão, por razões óbvias. Era um indomável, eternamente a nadar contra a corrente. E, em relação a Schumacher, foi o melhor num período em que a F-1 ainda dependia do braço, do talento natural do piloto. Enfrentou, ainda, adversários bem mais qualificados ainda no auge – Lauda, Prost, Keke Rosberg, Mansell, Reuteman, Schekter, Villeneuve, Senna… Um lance de corrida é emblemático dessa disparidade de talento em relação aos demais: aquela ultrapassagem sobre Senna no GP da Hungria, com carros que se equiparavam, considerada até hoje a mais espetacular de todos os tempos.

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