Escrevi há quatro dias sobre a necessidade de ser dada uma chance, um voto de confiança, aos treinadores nativos. Por uma feliz coincidência, a dupla Re-Pa está sob o comando de dois técnicos caseiros, Sinomar Naves e Charles Guerreiro. Ambos são profundos conhecedores da realidade local, conhecem Remo e Paissandu a fundo, sabem quais os caminhos que levam à sobrevivência dentro das duas casas e certamente não ignoram a eterna ameaça que paira sobre suas cabeças.
Ao primeiro deslize, como se nenhum time no mundo pudesse tropeçar, estarão com as malas arrumadas e prontas para serem despachadas. Sinomar já está no Remo desde o ano passado e parece em situação mais estável. Charles assumiu o Paissandu há uma semana, depois que Luiz Carlos Barbieri entregou o cargo.
Revelado nas divisões de base da Curuzu, Charles construiu um currículo respeitável, que inclui a vivência como jogador de porte nacional e passagens vitoriosas (como técnico) pelo Remo, Ananindeua e o próprio Paissandu. Nada disso, porém, o livra da intolerância que ronda os profissionais domésticos. Fazia grande campanha pelo Remo, há dois anos, quando foi sumariamente substituído por um técnico importado.
No Paissandu atual, assolado por contratações ilimitadas e palpiteiros de todo tipo, Charles precisará apelar a todos os recursos de seu kit-sobrevivência para se segurar no cargo.
O Re-Pa de domingo é um tremendo teste, depois da auspiciosa estréia contra o Independente, em Tucuruí. Com mais tempo para treinar e montar a equipe, Charles deve extrair uma atuação ainda mais convincente de seus comandados. Como não tem compromissos com jogadores importados, vai dar oportunidade a quem estiver melhor. E o Paissandu lucra com isso.
Por outro lado, o clássico-rei é também conhecido por desempregar treinadores, até quando se trata de simples amistoso. O bom senso diz que, independentemente do resultado das finais, tanto Sinomar quanto Charles devem ser mantidos. O problema é que bom senso é artigo raríssimo entre a cartolagem paraense.
Bruno Senna, o sobrinho de Ayrton, ainda nem estreou na Fórmula 1 e a Globo já prepara sua entronização como legítimo sucessor do tio, com toda pompa e circunstância. Como nunca fui fã de Senna e não pretendo ser de Bruno, torno-me desde já candidato natural a vítima da torturante musiquinha encomendada ao mesmo maestro (Eduardo Souto) que cometeu o infame “Tema da Vitória”, que depois da morte do ídolo tornou-se marcha fúnebre.
Rogo que os deuses das pistas se compadeçam e reduzam ao máximo a quantidade de vezes em que a tal composição será executada nas manhãs de domingo. Já basta a babação de ovo e verborragia de pé quebrado que o notório Galvão planeja produzir neste mundial de F-1.
(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta sexta-feira, 12)
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