Por força dos argumentos de bastidores e dos muitos conchavos em torno da proposta oficializada pela construtora Agra (representada pela Leal Moreira), conselheiros e beneméritos do Remo praticamente aprovaram a autorização para que a diretoria se desfaça do tradicional estádio Evandro Almeida, palco de históricas jornadas da fase áurea do futebol paraense.
Com surpreendente adesão de última hora até de notórios opositores do projeto de desmanche do patrimônio do clube, a proposta foi referendada por 75 votos a 2 (até sexta-feira à noite), resultado acachapante para um cenário que se prenunciava equilibrado até o começo da assembleia.
Basta, para a aprovação definitiva do processo de venda, que 23 votantes compareçam à assembléia-geral aberta até a próxima segunda-feira – tempo mais do que suficiente para o convencimento dos recalcitrantes a aparecer na sede do clube.
Contra o fato cristalino de que a comunidade azulina aderiu aos apelos do presidente Amaro Klautau, não há o que objetar. O dirigente trabalhou em cima de um ultimato: ou a venda do Baenão ou um leilão já prenunciado pela Justiça do Trabalho, em apenas mais uma coincidência favorável ao fechamento do negócio.
A obsessão pela venda do patrimônio permitiu que até dados técnicos de extrema relevância sobre o projeto da futura arena (localização, preço do metro quadrado construído etc.) fossem omitidos na apresentação inicial feita aos sócios, ainda em 2009.
Pior: ao contrário do que foi anunciado anteriormente, a construtora que se apresenta como compradora poderá usufruir do terreno do Evandro Almeida assim que tiver aprontado metade da nova arena. Significa que, em dois anos, o Remo pode acabar com um estádio meio-boca, encravado no longínquo Tapanã (ou até Alça Viária), enquanto os compradores exploram a área do Baenão, situada ao longo da principal via da cidade.
Mais grave ainda é o completo menosprezo pela importância histórica do Evandro Almeida como peça de identificação do torcedor com o clube. A partir de agora, além da sede náutica em frangalhos na Cidade Velha e da sede social distanciada da massa, em Nazaré, os azulinos não terão um símbolo que o identifique dentro da capital paraense.
O ousado passo que o Remo está prestes a oficializar, sob o pretexto (discutível) de impedir um leilão judicial, mais ou menos como ocorreu há dois anos com a sede campestre, impõe aos felizes defensores da idéia uma imensa responsabilidade perante os destinos do clube, indiscutivelmente enfraquecido e inferiorizado em relação ao tradicional rival.
As duas comissões (engenharia e questões jurídicas) são os últimos bastiões de fiscalização do negócio. Gente ligada a grupos de oposição no clube insiste que a transação ofereça mais contrapartidas e segurança ao Remo. Indexação financeira dos parcelamentos e exigência de carta de fiança bancária são dois itens considerados obrigatórios. A conferir.
(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO deste domingo, 21)
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