A bola procura os craques, ouço dizer desde que era moleque em Baião. Nos últimos tempos, Muricy Ramalho andou falando que a bola pune. Entre generosidade e castigo fico sempre com a primeira opção. E é justamente o que entendo estar ocorrendo com o súbito renascimento do craque Ronaldinho Gaúcho, tão execrado nos últimos quatro anos.
O apagão foi surpreendente e misterioso. Parecia até que o ex-ídolo do Barcelona havia sido abduzido e substituído na Terra por um clone robótico. Como racionalizar o ocaso precoce do astro aplaudido de pé no estádio do rival Real Madri, ao reger uma goleada histórica, com direito a golaços e dribles infernais?
Na cobertura da Copa da Alemanha era visível o alheamento de alguns jogadores, aparentemente entediados com tantos paparicos e eventos de marketing. Bola parecia ser a última das preocupações daquela Seleção. Mesmo nos exercícios táticos, quando o gramado era dividido em dois para permitir a rápida troca de passes, a maioria levava tudo na brincadeira.
O clima de doce folia contagiou a todos e vitimou principalmente Ronaldinho, que tinha tudo para se consagrar naquele mundial. Estava no auge da forma, vinha credenciado por excelentes atuações no Barcelona e era bicampeão (2004/2005) indiscutível do troféu de melhor do mundo da Fifa. Enfim, tinha o planeta a seus pés.
Lembro que os jornais alemães reverenciavam o Brasil em páginas destacadas, com ênfase no “quadrado mágico” – Ronaldos, Kaká e Adriano. Era um torneio que parecia destinado a cumprir mero ritual, o de entregar a taça aos brasileiros ao final dos jogos.
A derrocada do escrete golpeou todos os astros da companhia, mas foi particularmente danoso a Ronaldinho Gaúcho, que acusou o golpe e nunca mais foi o mesmo jogador alegre e desassombrado de antes. Caiu em desgraça no Barça e, como símbolo daquele fiasco, foi publicamente humilhado por Dunga no célebre amistoso londrino contra a Argentina.
Ao lado de Kaká, amargou o banco de reservas, como prenda. Kaká se recuperou naquela mesma tarde, conduzindo o Brasil a uma bela vitória, mas Gaúcho afundou de vez. Engordou, caiu de produção, foi vaiado no Camp Nou e acabou negociado com o Milan. Sem glória.
Eis que, de repente, quando quase ninguém acreditava mais, acontece o milagre. Pelas mãos de Leonardo, Ronaldinho foi aos poucos se aprumando no Milan até achar seu espaço. Confiança recuperada, a alegria voltou. Com ela, os dribles e os gols inspirados.
Dunga, se for esperto, convoca logo e se antecipa ao clamor das ruas, que começa a crescer. Ainda mais agora que Kaká, o grande maestro da Seleção, convive com lesão crônica no púbis, com a preocupante possibilidade de cirurgia. Na ausência de Kaká quem poderia assumir o papel de condutor do time? Robinho, Júlio Batista, Luiz Fabiano, Adriano, Elano? Custo a crer. Gaúcho, que foi ao inferno e voltou, é a bola da vez.
(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta quinta-feira, 21)
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