Coluna: Os desafios da vitória

A verdade é que ninguém levava muita fé na candidatura do Rio, talvez pelas bolas na trave em outras duas ocasiões ou, ainda, pelo velho complexo de vira-lata de que Nelson Rodrigues tanto falava. E, no entanto, a vitória veio, por goleada (66 votos a 32) sobre Madri, que era uma das favoritas. Muito além das previsões emocionadas de Lula, de que o Brasil vai surpreender a todos que duvidaram de sua capacidade e que a Olimpíada 2016 será a mais extraordinária de todas, é preciso compreender a exata dimensão da histórica e inédita conquista.

Quando o presidente diz que o Brasil quebrou o último preconceito internacional, expressa o fato incontestável de que só grandes potências (excetuando a Grécia) sediaram a Olimpíada na era moderna.

As arengas internas no Comitê Olímpico Internacional podem ser definidas como briga de cachorro grande. Mais do que nunca, a porfia foi dura. Enxerindo-se entre Espanha, EUA e Japão, todos do primeiro time da economia mundial, o emergente Brasil finalmente chegou lá. E, além do apelo irresistível da topografia carioca, cabe reconhecer o peso decisivo de um eleitor predestinado.

Lula foi à luta com as credenciais de principal líder sul-americano e o apetite do boleiro que briga pela bola como quem ataca um prato de comida. No discurso matador de sexta-feira, a fome de bola transformou-se em candente clamor de justiça por uma região tradicionalmente menosprezada pelo COI.

Motivo de orgulho nacional, gerando festejos entusiasmados em todo o país, a vitória também traz preocupações. Os altos custos da empreitada (R$ 26 bilhões) geram o temor do descontrole e da farra com as verbas públicas. Aí, não há remédio: resta, nesse caso, apostar nos instrumentos legais de fiscalização.

Apesar disso, os ganhos serão infinitamente superiores a qualquer desembolso. O Rio vai ganhar uma fabulosa infra-estrutura e o país todo se beneficiará em turismo e negócios. E o Brasil, num espaço de apenas dois anos, entre 2014 e 2016, será a sede esportiva do planeta, alvo da atenção geral. Como diz aquele anúncio, isso não tem preço. 

 

Na praia esportiva, o Brasil terá seis anos para estabelecer metas e massificar os esportes olímpicos. E o exemplo a ser seguido vem do Oriente. Superada pelos EUA nos Jogos de Atenas-2004, a China dominou o quadro de medalhas nas Olimpíadas de Pequim quatro anos depois a partir de um rigoroso programa de formação de campeões.

Em 2004, os EUA ganharam 103 medalhas (35 de ouro, 40 de prata e 28 de bronze). A China ficou com 63 medalhas (32 de ouro, 17 de prata e 14 de bronze). Em 2008, os chineses deram o troco: faturaram 100 medalhas (51 de ouro); os norte-americanos terminaram com 110 (36 de ouro). Copiar o modelo chinês representa um tremendo desafio, mas é bom não duvidar do Brasil de Lula.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO deste domingo, 04)

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