Faz algum tempo que defendo uma tese que a alguns pode parecer utópica, irrealizável. Por entender que o torcedor comum é quem carrega o futebol nas costas, em todos os níveis, sempre considerei tremendamente injusto que seja impedido de escolher o presidente de seu clube. Atualmente só ganha o direito de participar do processo se comprar um título de sócio.
É, sob todos os pontos de vista, uma restrição anacrônica e antidemocrática. Por tudo que faz para alimentar (e sustentar) sua paixão, o torcedor merece mais. Merece, por exemplo, sair da condição passiva de testemunha ocular dos fatos para agente efetivo de mudanças.
Deve participar verdadeiramente da vida do clube, não apenas comprando ingressos nos estádios, esgoelando-se no incentivo ao time e adquirindo produtos relacionados ao seu time de coração. Verdade que grande parte da massa torcedora não tem (nem poderia) discernimento para fazer as melhores escolhas, mas, enfim, assim é a vida – e a democracia.
Mas, instintivamente esperto e apaixonado pelo seu clube, logo o torcedor saberá avaliar corretamente quem é melhor para exercer o poder de escolher diretores, contratar técnicos e jogadores ou, vá lá, negociar a venda de estádios. É uma questão evolutiva, que a prática de votar vai aperfeiçoando com o passar dos anos.
Antes, porém, será preciso nascer uma geração de dirigentes politicamente evoluídos, a ponto de lutar pela instituição desse tipo de escolha nos clubes. Ou será que, pelo resto da vida, os clubes serão dominados por um processo de escolha indireta numa eleição que, sob certo ponto de vista, é tão relevante quanto a do presidente da República?
Diante do acalorado debate em torno da proposta de venda do Evandro Almeida, fica ainda mais evidente a necessidade de maior representatividade das instâncias executivas dos clubes. Pipocam insatisfações dos dois lados (defensores e opositores da negociação) em relação ao conselho que detém o poder de bater o martelo.
Não que os conselheiros careçam de legitimidade. A questão é que assunto tão importante mereceria avaliação mais ampla e irrestrita. Daí a necessidade de um quórum maior, que conceda ao torcedor o direito de influir concretamente nos destinos do clube.
Aos que questionam a maneira de aferir o voto dos torcedores, uma opção natural seria o cadastramento puro e simples, mediante contribuição simbólica. De início, o peso da torcida poderia ser relativo (elegendo representantes no Condel), para depois avançar gradativamente até se instituir a plena consulta, sem intermediários.
O triunfo palmeirense sobre o Cruzeiro, ontem, é daqueles resultados típicos de times dirigidos por Muricy Ramalho. Conquista de três pontos em terreno inimigo, em momento decisivo da competição. Pode ter sido o jogo do título.
(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta quinta-feira, 24)
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