Coluna: A lei das compensações

A cena, apesar de bem conhecida de todos, quebrou o clima de informalidade no treino da Seleção Brasileira, ontem à tarde. Em tom solene, foi anunciado um pronunciamento do todo-poderoso presidente da CBF. Como o homem fala pouco, parecia algo realmente importante. Quem via a transmissão ao vivo deve ter ficado com a pulga atrás da orelha.
Em silêncio, Ricardo Teixeira aproximou-se da mesa de entrevistas e, naquele tom gutural que costuma adotar nesses momentos, soltou a notícia bombástica: Campo Grande será a sede da última partida da Seleção Brasileira pelas eliminatórias sul-americanas à Copa de 2010. Não esperou perguntas e ninguém da tropa amestrada de repórteres se arriscou a interpelá-lo.
Em seguida, entrou em cena o senador Delcídio Amaral (PT-MS), para fazer os rapapés a Teixeira pela escolha, discursar para seu eleitorado e ainda se dirigir a Dunga, desejando sucesso contra a Argentina.
O acontecimento, inusitado para um treino do escrete e revelador da promiscuidade em torno do futebol, só encontra amparo na pressa que Teixeira tinha de anunciar a “compensação” a Campo Grande, que perdeu a disputa para sediar jogos da Copa do Mundo de 2014. Foi preterida na competição particular com Cuiabá, do influente governador sojeiro Blairo Maggi, pela honra de representar a região do Pantanal.
Mais ou menos como ocorreu com Belém na porfia com Manaus pela sede amazônica. Com a diferença de que, com relação à Cidade das Mangueiras, Teixeira não se sentiu minimamente obrigado a buscar um prêmio de consolação, até porque já considera ter quitado a “dívida” escalando o coronel Antonio Carlos Nunes (FPF) para chefiar a delegação brasileira na recente Copa das Confederações.
Preocupante é saber que o episódio constitui apenas um pequeno ensaio da quermesse futebolística que seremos obrigados a assistir durante os cinco anos que nos separam do Mundial no Brasil.
 
 
Dunga, que pareceu desconfortável com o clima de convescote, tinha muito mais a dizer. Desmentiu que tivesse procurado o Corinthians para se informar sobre Ronaldo, respondendo à indagação de um coleguinha ávido pela convocação do Fenômeno. Achei sincero. Sinceridade que não há na aposta em três atacantes (Adriano, Luís Fabiano e Robinho) para o jogo, treinada ontem. Obviamente, não faz parte dos planos de Dunga se expor demais contra uma Argentina que buscará a vitória a ferro e fogo.
 
 
Antes de ser abatida por opositores dos dois lados, a idéia de um Re-Pa na véspera do Círio precisa ser avaliada com frieza e distanciamento. A histórica rivalidade supera até a ausência de times representativos e pode, sim, garantir bom retorno financeiro aos velhos rivais.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta quinta-feira, 03)

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