Na final da Copa de 2006, na Alemanha, entre França e Itália, o célebre episódio da agressão de Zidane ao zagueiro Materazzi demorou uma eternidade para ser punido pelo árbitro Horacio Elizondo. Quem estava no estádio ficou com a sensação de que o francês nem seria advertido, tal o tempo que decorreu entre o ato e a expulsão.
No estádio, todos viram o lance nos telões, inclusive os auxiliares de Elizondo. E foi justamente o quarto árbitro, o espanhol Luís Medina Cantalejo, que bancou o alcagüete e alertou o mediador para a gravidade da coisa. Na ocasião, mesmo diante do injustificável, o técnico francês Raymond Domenech criticou a forma como Elizondo decidiu.
Para ele, Cantalejo recorreu a um vídeo para se certificar da agressão – como se o estádio inteiro não tivesse acompanhado pelos telões. A reclamação de Domenech, mesmo absurda, tinha um fundo de razão: pelas leis da Fifa, o árbitro não pode utilizar imagens de TV para esclarecer dúvidas em campo. Portanto, como Cantalejo se baseou nas filmagens, a expulsão de Zidane teria sido irregular.
É claro que a decisão do árbitro foi acertada, até pela força das imagens, mas ficou no ar a dúvida quanto ao procedimento a ser adotado pelos árbitros diante de episódios dessa natureza. Mais ainda: ficou em xeque o papel do quarto árbitro, cuja função é justamente auxiliar o árbitro central quanto a assuntos extra-campo. Se ele não pode dedurar uma agressão ou irregularidade, de que adianta ter um observador ao lado do gramado?
O tema volta à baila diante do polêmico pênalti marcado no jogo Brasil x Egito pela Copa das Confederações. Pressionada pelos egípcios, que se consideraram prejudicados pela marcação do árbitro britânico Howard Webb. No lance, Lúcio bateu para o gol e o defensor Ahmed Al Muhamadi desviou a bola com o braço. Webb marcou escanteio. Diante da chiadeira geral dos brasileiros, resolveu consultar seus auxiliares e refez sua decisão. Deu o pênalti e expulsou Muhamadi.
Os egípcios questionam o tempo entre a primeira marcação e a segunda, argumentando que Webb foi alertado sobre a infração, via rádio, pelo quarto árbitro, o australiano Matthew Breeze. Este, por seu turno, teria visto o replay do lance num monitor de TV à beira do campo. Ontem, para driblar o embaraço, a Fifa anunciou oficialmente que o árbitro foi alertado pelo bandeirinha número um, Mike Mullarkey.
Para esclarecer lances confusos, o milionário basquete americano usa as imagens de TV há vários anos. Sempre deu certo, ninguém nunca reclamou. Pelo contrário, jogadores e torcedores sentem-se aliviados. O problema é que a Fifa, conservadora como sempre, jamais admitiu o uso do videoteipe como recurso de apoio para os árbitros.
João Havelange defendia a dúvida como instrumento de discussão pós-jogo. Joseph Blatter mantém essa posição canhestra de veto absoluto às imagens, mas hoje, até através de monitores de mão e outros recursos eletrônicos, os auxiliares podem rever as imagens e avisar o árbitro central.
Donde se conclui que manter a proibição não é apenas traço de conservadorismo, é burrice pura e simples, porque as decisões na prática já seguem os métodos mais modernos. Nem a proverbial teimosia da Fifa será capaz de conter os avanços da tecnologia.
(Coluna publicada no Bola/DIÁRIO desta quarta-feira, 17)
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