O medo e a solidão do goleiro

Há quem discorde, e é natural que seja assim, afinal estamos falando de futebol, onde todos praticamente têm opinião formada sobre qualquer tema. Refiro-me ao assunto obrigatório das últimas horas: “São” Marcos e sua indiscutível vocação para defender penalidades máximas.

Há até um filme do diretor alemão Wim Wenders que versa justamente sobre o medo do goleiro diante do pênalti. Certos goleiros parecem imunes a esse medo. Mais que isso: demonstram adorar aquele momento fatal, de maior dramaticidade no futebol.

Mais que o medo, há a solidão. Nada mais solitário do que um goleiro na missão de evitar o desastre. O futebol, essencialmente coletivo, nessas horas se transforma no jogo de um homem só.

Depois da sensacional performance contra o Sport, o goleiro palmeirense, campeão mundial de 2002, confirmou ser o melhor do Brasil em pênaltis. Alguns amigos e colegas advogam a tese de que todo grande arqueiro é, por natureza, um bom pegador de pênaltis. Não é bem verdade.

Os realmente diferenciados nesse departamento destacam-se pela destreza e frieza nas cobranças. E pela incrível capacidade de se antecipar, em fração de segundos, à decisão do cobrador. Além de muito treinamento específico, são atletas longilíneos, com reflexos especialmente apurados para os chamados tiros curtos, quase à queima-roupa.

O curioso é que alguns astros da posição fracassam nesse quesito. Rogério Ceni, inegavelmente um goleiro acima da média, pelo menos de clube, nunca foi brilhante em penais. Júlio César, um dos melhores do mundo atualmente, também não.

No outro extremo, despontam arqueiros que são feras no fundamento, que nasceram talhados para isso. De cara, além de Marcos, vêm logo à memória os nomes de Taffarel, Dida e do argentino Goicochea. E hoje, no Brasil, há o rubro-negro Bruno, quase perfeito quando a questão é pênalti.

O Pará também teve dois exímios defensores de pênaltis nos últimos anos. Ronaldo (ex-Paissandu), que praticamente ganhou sozinho dois títulos estaduais para o Paissandu, em cobrança de penalidades. O outro é Adriano, que andou salvando o Remo em várias ocasiões.

 

 

Persiste, porém, uma velha maldição a perseguir os especialistas em penais. Por um estranho mecanismo de compensação, quase todos erram muito em lances normais de jogo. Ronaldo, por exemplo, era questionado na Curuzu pela quantidade de gols sofridos em cobranças de falta. O próprio Marcos, mesmo no jogo da consagração contra o Sport, hesitou no lance do gol pernambucano, falhando no cruzamento que veio em sua direção.

O folclórico Goicochea era considerado frangueiro pela imprensa portenha. Bruno, do Flamengo, também é espalhafatoso em lances normais e costuma tomar frangos com preocupante frequência. 

E aí ficamos com velha máxima de Juan Alvarez, uruguaio que treinou o Paissandu durante a década de 60: talvez mais importante do que defender as bolas difíceis é não deixar que as fáceis entrem.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta quinta-feira, 14/05)

3 comentários em “O medo e a solidão do goleiro

  1. Muito oportuna sua analise, contudo precisamos destacar os grandes cobradores e os péssimos cobradores de Pênalti um ótimo cobrador, por exemplo, no Pará tivemos Robgol aquela andadinha para o lado esquerdo antes de bater o penal era infalível e um péssimo cobrador o jogador Rossini que desperdiçou .

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  2. O Adriano não entra na lista dos exímios pegadores de pênaltis, até porque ele sempre se adianta um metro e assim fica mais fácil. Foi assim que ele fez contra o Rossini. Também nunca o vimos dando título e nem vaga para seu time por meio de cobranças de pânaltis, então, ele não conta.

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    1. Mas Diogo, convenhamos que poucos goleiros respeitam isso. O Rogério Ceni só falta estourar a bola com o cobrador, o Bruno também se adianta muito. No fundo, depende muito da interpretação dos árbitros. E hoje, com a volta da paradinha, nem sei se o goleiro não teria direito a se adiantar mesmo.

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