A tentativa de colocar Flávio Bolsonaro e Lula no mesmo plano, se revela não apenas equivocada, mas profundamente desorientadora.

Por Maria Luiza Falcão Silva (*)

Vivemos em um mundo atravessado por guerras, tensões geopolíticas e disputas abertas por poder. Conflitos no Oriente Médio envolvendo os Estados Unidos e Israel com o Irã, a intensificação de confrontos indiretos entre grandes potências e a crescente instabilidade internacional indicam que a economia global já não pode ser compreendida fora da lógica do conflito. Energia, cadeias produtivas, fluxos comerciais e sistemas financeiros passam a ser condicionados por decisões cuja natureza é, antes de tudo, política e estratégica.

Nesse ambiente, governar um país como o Brasil exige uma capacidade que vai muito além da retórica doméstica ou da disputa ideológica interna. Exige leitura do sistema internacional, experiência institucional acumulada e, sobretudo, consciência da responsabilidade histórica que o momento impõe.

É nesse ponto que a tentativa de colocar Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva no mesmo plano, na corrida pela presidência em 2026, se revela não apenas equivocada, mas profundamente desorientadora.

Não se trata de preferência política. Trata-se de escala.

Lula opera em um nível de complexidade que envolve negociação internacional, gestão de crises econômicas, articulação institucional e capacidade de preservar margens de autonomia em um sistema global cada vez mais tensionado. Sua trajetória — com acertos e erros — foi construída nesse terreno. Trata-se de uma liderança que transita entre chefes de Estado, que participa de rearranjos multilaterais e que compreende o peso geopolítico de decisões econômicas em um mundo em fragmentação.

Flávio Bolsonaro emerge de um universo político inteiramente distinto.

Sua trajetória pública não está associada à formulação de políticas complexas, à mediação de conflitos institucionais ou à condução de agendas nacionais de alta densidade. Ao contrário, sua projeção foi marcada por episódios que revelam uma compreensão estreita — quando não distorcida — da função pública. O caso conhecido como “rachadinha” não é um detalhe periférico. Ele expõe uma lógica de atuação que banaliza o poder e reduz o espaço público à extensão de interesses privados.

Não se trata apenas de um problema ético. Trata-se de um limite político.

Recentemente, sua tentativa de inserção internacional se resumiu a uma aproximação simbólica com um cenário político em crise, representado por Donald Trump, no exato momento em que milhões de pessoas ocupavam as ruas nos Estados Unidos sob o lema “No Kings”. A imagem é reveladora: enquanto parcelas significativas da sociedade americana contestam a erosão institucional, o autoritarismo do governante, há quem busque legitimidade justamente nesse ambiente de desgaste democrático.

A questão, portanto, não é comparar estilos. É compreender capacidades.

Mas há um ponto ainda mais profundo — e frequentemente negligenciado — nessa comparação: ela oculta que o que está em disputa não são apenas trajetórias individuais, mas projetos distintos de país.

De um lado, um projeto que, ao longo dos governos do Partido dos Trabalhadores, buscou combinar crescimento econômico com inclusão social, fortalecimento do mercado interno e ampliação do papel do Estado como indutor do desenvolvimento. Trata-se de uma visão que reconhece o Brasil como uma economia estruturalmente desigual e inserida de forma assimétrica no sistema internacional — e que, por isso mesmo, exige políticas ativas de reindustrialização, investimento público e coordenação estratégica.

Essa concepção se expressa também na política externa, orientada pela diversificação de parcerias, pela busca de autonomia relativa e pela inserção ativa em arranjos multilaterais. Em um mundo fragmentado, essa não é uma escolha ideológica, mas uma estratégia necessária de ampliação de margem de manobra.

De outro lado, encontra-se o projeto liberal de direita, que privilegia a redução do papel do Estado, a centralidade do ajuste fiscal como eixo organizador da política econômica e a crença de que a integração aos mercados globais, por si só, seria capaz de induzir crescimento e eficiência.

Na prática, essa orientação tem produzido, em diferentes momentos da história recente, maior vulnerabilidade externa, perda de densidade industrial e aprofundamento das desigualdades. Ao reduzir a capacidade do Estado de coordenar investimentos e proteger setores estratégicos, o país se torna mais exposto às oscilações internacionais — justamente em um momento em que as grandes potências reforçam políticas industriais e mecanismos de proteção.

Há, portanto, uma diferença fundamental na forma de compreender o próprio Estado. Para um campo, ele é instrumento de construção nacional. Para o outro, tende a ser visto como obstáculo a ser contido.

Essa divergência ganha contornos ainda mais decisivos no contexto atual. Em um ambiente internacional marcado por guerras, disputas tecnológicas e reorganização das cadeias produtivas, a ausência de estratégia não é neutralidade — é abdicação.

Porque governar o Brasil hoje não é tarefa rotineira. É tarefa de alta complexidade. O país enfrenta pressões inflacionárias, custo de vida elevado, desigualdade persistente e, simultaneamente, está inserido em um cenário internacional no qual decisões externas impactam diretamente sua economia — seja pelo preço da energia, pela reorganização das cadeias produtivas ou pela instabilidade financeira global.

A política externa norte-americana, cada vez mais orientada pela confrontação, por sanções e por rearranjos estratégicos agressivos, contribui para um ambiente global volátil, no qual a economia se torna crescentemente subordinada à geopolítica.

Esse é o mundo real.

E é nele que o Brasil precisa se posicionar.

Internamente, o quadro tampouco é simples. O país permanece atravessado por forte polarização, convive com episódios que tensionam instituições e enfrenta a atuação de uma direita radicalizada que frequentemente opera na lógica da deslegitimação e do confronto permanente.

Nesse contexto, a condução do Estado exige mais do que oposição ruidosa ou alinhamento ideológico automático. Exige responsabilidade política, capacidade de mediação e compreensão da escala dos desafios.

É justamente essa dimensão que desaparece quando o debate é reduzido a comparações simplistas.

Não se trata de idade, carisma ou estilo. Trata-se de preparo, trajetória e capacidade efetiva de governar em um ambiente de crise sistêmica.

O Brasil não é um espaço para improvisação política.

Não é um país que possa ser conduzido como extensão de práticas que banalizam o interesse público. E não pode, sobretudo em um momento como o atual, ser entregue a lideranças que não demonstraram, ao longo de sua trajetória, capacidade de compreender a complexidade do mundo em que estamos inseridos.

Comparar, nesse caso, não esclarece. Desinforma.

Apaga aquilo que deveria ser central: a diferença entre ocupar o poder e estar preparado para exercê-lo.

Em tempos de guerra, essa diferença deixa de ser detalhe. Ela se torna decisiva.

(*) Maria Luiza Falcão Silva – MSc em Economia (University of Wisconsin–Madison), PhD (Heriot-Watt University), Professora aposentada da Universidade de Brasília (UnB), membro da ABED e do Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC/NEASIA).

One response to “Não há equivalência possível”

  1. Avatar de Juca
    Juca

    GERSON, FICA A DICA DA ENTREVISTA MARAVILHOSA DO GRANDE JORNALISTA JOÃO CANALHA NO CANAL DO YOUTUBE, FUTEBOTECO, FALANDO DE TUDO E DE TODOS, JA ERA FÃ DA ÉPOCA DA ESPN BRASIL COM SEU PROGRAMA DAS 18h, FIQUEI MAIS FÃ AINDA, DA UMA OLHADA LÁ.

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