1931-2026
Por Pablo Villaça
Sua primeira aparição na tela grande foi silenciosa e inesperada: encarado com temor pelas crianças da vizinhança por jamais ser visto em público, Arthur “Boo” Radley permanece um mistério até subitamente ser encontrado escondido atrás de uma porta depois de salvar Scout e Jem Finch nos momentos finais de O Sol É para Todos. Sem dizer uma palavra, seu olhar inicialmente amedrontado revela inocência e gentileza diante do reconhecimento da menina, subvertendo em poucos segundos todas as impressões construídas até então pelas crianças e pelo espectador ao seu respeito.
Foi assim que Robert Duvall chegou ao Cinema em 1962, aos 31 anos de idade – o primeiro de seu grupo de amigos da escola de teatro Neighborhood Playhouse a ganhar um papel de destaque. Os demais amigos? Gene Hackman, James Caan e Dustin Hoffman.
A partir daí, sua presença se tornaria frequente enquanto alternava trabalhos em filmes e série de TV – e quatro anos depois ele teria a oportunidade de contracenar pela primeira vez com aquele que se estabeleceu como ídolo de sua geração de atores, Marlon Brando, em Caçada Humana. Considerando como a esta altura Duvall havia inclusive encarnado Stanley Kowalski em uma montagem de Uma Rua Chamada Pecado/Um Bonde Chamado Desejo, não é difícil imaginar o que este encontro representou em sua trajetória (em 32:13 do vídeo abaixo).
E como a esta altura Mario Puzo sequer havia publicado O Poderoso Chefão, ele nem poderia sonhar que em mais seis anos interpretaria o consiglieri Tom Hagen, braço direito do Vito Corleone de Brando no maior filme de todos os tempos.
Diversos outros papeis menores vieram a seguir, incluindo em clássicos como Bullitt e na primeira versão de Bravura Indômita, no qual, encarnando Ned Pepper, enfrentou ninguém menos do que John Wayne.
A partir daí, ele basicamente abandonaria a televisão para se concentrar em sua carreira nas telonas, beneficiando-se da riqueza artística representada pela Nova Hollywood para se estabelecer como um dos atores mais importantes do período. Foram anos que o viram colaborar com Robert Altman em M*A*S*H*, confrontar Burt Lancaster em Mato em Nome da Lei e protagonizar o primeiro filme dirigido por George Lucas: THX 1138.
Não preciso dizer o que viria a seguir, certo? Como Tom Hagen, Duvall contou com a confiança de Don Vito, tentou em vão trazer racionalidade para a gestão de Santino Corleone (seu velho amigo James Caan) e, depois de um breve período mantido às cegas por questões estratégias, se tornou importante confidente e conselheiro do irmão adotivo Michael, continuando a desempenhar esta função na Parte II (sua ausência da parte final se deveu a uma falta de acordo com relação ao cachê).
Foi também por O Poderoso Chefão que recebeu a primeira de suas sete indicações ao Oscar, concorrendo diretamente com seus colegas de elenco Caan e Al Pacino na categoria de Coadjuvante (a divisão de votos provavelmente ajudou Joel Grey, vencedor por Cabaret).
Também em 1972 ele colaboraria com Philip Kaufman em Sem Lei e Sem Esperança ao interpretar Jesse James – e a amizade estabelecida com o cineasta resultaria inclusive em uma ponta no início de Os Invasores de Corpos, melhor das adaptações do livro de Jack Finney (ele também faria uma pequena participação em A Conversação, de Coppola, no mesmo ano de O Poderoso Chefão Parte II). Consolidando 72 como um dos anos mais produtivos de sua carreira, Duvall contracenaria também com Clint Eastwood em Joe Kidd.
Já em 1976, além de viver Watson no divertido Visões de Sherlock Holmes, de Herbert Ross (e que trazia Alan Arkin como Freud e ninguém menos do que Laurence Olivier como Moriarty), ele se tornaria símbolo da corrupção do jornalismo pela busca por lucros em Rede de Intrigas, de Lumet, no qual interpretou o executivo Frank Hackett e onde resumiu uma filosofia que infelizmente se tornaria cada vez mais presente ao se desesperar diante da possibilidade de se tornar “um homem sem corporação”.
Voltando a colaborar com Coppola em Apocalypse Now, no qual sua curta participação resultaria em um dos momentos mais inesquecíveis da história do Cinema, Duvall encarnou o tenente Kilgore como a representação perfeita da arrogância e da natureza insana do espírito militarista dos Estados Unidos, recebendo sua segunda indicação ao Oscar pelo papel.
No ano seguinte, por sinal, viria sua primeira indicação como Ator graças a O Grande Santini, ao passo que sua primeira (e única) vitória aconteceria dois anos depois por A Força do Carinho, de Bruce Beresford, e no qual interpretou um cantor country alcoólatra em decadência.
Infelizmente, como às vezes costuma acontecer, a “maldição do Oscar” levou o restante da década de 80 a se tornar um dos períodos mais instáveis da carreira de Duvall (se não em quantidade de projetos, certamente em qualidade): cada Um Homem Fora de Série (no qual contracenou com Redford) e Colors – As Cores da Violência vinham contrabalançados por um Hotel Colonial ou por um Resgate Infernal – este último sendo, inclusive, rejeitado pelo próprio realizador, resultando no pavoroso crédito de Alan Smithee¹ como diretor.
Em 1993, ele esteve no excelente Um Dia de Fúria e, no ano seguinte, no subestimado O Jornal (que inclusive discuti no CineClube Cinema em Cena do mês passado, que também contou com Rede de Intrigas). Já em 1997, ele atuou como o pai de Billy Bob Thornton em Na Corda Bamba, que marcou a estreia na direção deste último – e o favor foi retribuído um ano depois, quando Thornton atuou em O Apóstolo, terceiro longa comandado por Duvall (e que resultou, inclusive, em mais uma indicação a este como Melhor Ator). Ele ainda comandaria O Tango e o Assassino (2002) e Cavalos Selvagens (em 2015, quando já tinha 84 anos), mas sem alcançar grande repercussão.
As duas décadas finais de sua longa carreira trouxeram mais duas indicações como melhor ator coadjuvante por filmes que de forma alguma eram dignos de seu talento: A Qualquer Preço (1998) e O Juiz (2015). Por outro lado, ele participou – mesmo que muitas vezes em em papéis pequenos – de obras como Pacto de Justiça (2003), A Estrada (2009), Coração Louco (2010; não acho um grande filme, mas…), Jack Reacher – O Último Tiro (2013) e As Viúvas (2018).
Seus dois últimos trabalhos, realizados já depois dos 90 anos de idade (!), foram Arremessando Alto e no bom O Pálido Olho Azul, ambos lançados em 2022.
Com a morte de Robert Duvall anunciada hoje por sua esposa, a argentina Luciana Pedraza, seu filme de estreia, O Sol É para Todos, perde o último integrante de seu elenco adulto, ao passo que da família Corleone do original restam apenas Al Pacino e Talia Shire (lembrem-se que Tom Hagen era filho adotivo de Don Vito).
Duvall tinha 95 anos de idade e deixa um legado maravilhoso.
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