O encontro entre Che Guevara, Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, em Havana, em 1960, foi mais do que uma visita de intelectuais a um país recém-revolucionado. Foi um choque de tempos históricos, um diálogo raro entre pensamento e ação, entre a filosofia europeia e uma revolução viva, ainda quente, recém-saída das montanhas.

Sartre e Simone chegaram a Cuba movidos por curiosidade profunda. Queriam ver com os próprios olhos aquilo que os jornais tentavam reduzir a slogans: uma revolução popular que ousara desafiar o império mais poderoso do mundo. Foram recebidos por Che não como autoridades distantes, mas como interlocutores.

O diálogo aconteceu em francês, língua que Che dominava com naturalidade, e isso já causou impacto imediato. Não era apenas um comandante guerrilheiro diante deles, mas um homem culto, leitor atento, capaz de discutir literatura, filosofia, economia e ética com clareza e paixão.

Conversaram longamente sobre o sentido da liberdade. Sartre falava da liberdade individual, do homem condenado a ser livre; Che respondia com a liberdade concreta, material, aquela que só existe quando o povo tem pão, educação, saúde e dignidade. Falaram do colonialismo, do papel da juventude, da necessidade de romper com o egoísmo produzido pelo capitalismo. Che expôs sua ideia do “homem novo”, formado não apenas por leis, mas por valores solidários, por consciência e responsabilidade coletiva.

Simone observava com atenção. Em seus relatos posteriores, destacou o impressionante equilíbrio de Che: firme sem ser dogmático, radical sem ser sectário, humano sem perder a disciplina revolucionária. Ela percebeu que ali não havia encenação política, mas convicção profunda. Che falava como quem vivia aquilo que dizia.

Sartre saiu profundamente marcado. Mais tarde escreveria que Che lhe pareceu “o ser humano mais completo de nosso tempo”, porque reunia o que a modernidade havia separado: pensamento e ação. Não era um intelectual de gabinete, nem um homem de armas vazio de reflexão. Era ambos, e isso o tornava raro.

A famosa imagem em que Che oferece fogo para Sartre acender o charuto sintetiza tudo: um gesto simples, quase íntimo, carregado de simbolismo. A revolução cubana, naquele momento, dialogava com o mundo não por imposição, mas por ideias.

Esse encontro não transformou apenas a visão que Sartre e Simone tinham de Cuba. Transformou a forma como muitos intelectuais passaram a olhar as revoluções do Sul global: não como cópias imperfeitas da Europa, mas como experiências originais, profundamente humanas, nascidas da necessidade e da coragem de um povo.

(Texto extraído do Facebook / autor desconhecido)

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