No filme de Kleber, Marcelo, interpretado por Wagner Moura, um cientista, funcionário público da universidade, incomoda um figurão civil do regime militar e, a mando deste, é perseguido e tem sua vida ameaçada. Em torno desse núcleo mínimo, dança a cidade. O tempo, como a cidade, é cenário e personagem.

Por Toinho Castro – no blog Kuruma’tá
O FALSO PROBLEMA — Lembro quando cheguei no Rio pela primeira vez, em 1993, e parecia que eu tinha lido um manual sobre a cidade. Parecia que que desde sempre havia percorrido aquelas ruas, observado aquelas montanhas e rochas diante do mar. Eu tinha, de longe, vivido o Rio de Janeiro.
Quantos filmes precisarão ser rodados no Recife, ou em Maceió ou Caicó, para que um brasileiro se sinta à vontade nessas ruas, vidas e histórias?
Eu entendi O Agente Secreto! Mas sei que já vão me acusar de ter crescido no Recife. Alguns hão de me acusar, inclusive, de ser amigo do diretor, Kleber Mendonça Filho, e deter, por isso, informações altamente privilegiadas, que me permitem compreender essa complexa trama, dita regionalista. Pois que o resto do Brasil, quando não Rio de Janeiro ou São Paulo, é regional; incompreensível a quem flana em Ipanema ou nos Jardins. Pois é, eu entendi O Agente Secreto e não vou revelar a vocês o grande mistério do filme. Vocês, que entenderam Bergman e Antonioni, talvez por conta dos ancestrais europeus, embora não tenham crescido nas ruas de Upsalla ou Ferrara.
No filme de Kleber, Marcelo, interpretado por Wagner Moura, um cientista, funcionário público da universidade, incomoda um figurão civil do regime militar e, a mando deste, é perseguido e tem sua vida ameaçada. Em torno desse núcleo mínimo, dança a cidade. O tempo, como a cidade, é cenário e personagem. Passado, presente e futuro dialogam, trocam informações, mensagens. É o tempo quem nos dirá, que responderá as perguntas que se acumulam ao longo do filme.
Passado em 1977, no Recife, como todos já sabem, o filme expõe e a relação perniciosa da sociedade civil com os militares. Muito falamos de soldados, tanques e torturas, e falemos mais e mais, mas o filme enfia, preciso, o dedo na ferida do empresariado apoiador dos soldados, dos tanques e torturas, para disso se beneficiar, tirar vantagem, ganhar dinheiro e perseguir desafetos. E se há os que perseguem. Há os que acolhem. E, em tempos difíceis, esses vivem na margem, na surdina. Nas ruas em que se trama a morte, trama-se também a vida. E a vida de Marcelo, pendurada pelo fio da urgência, oscila entre a fuga e o afeto, o medo e a determinação. A afirmação da justiça e o desalento da solidão. Assistindo ao filme, lembrei dos versos finais do poema Primeiros encontros, de Arseni Tarkovski, poeta e pai do cineasta russo Andrei Tarkovski.
Enquanto isso o destino seguia nossos passos
como um louco de navalha na mão.
Enquanto o destino não o alcança, Marcelo encontra Dona Sebastiana, vivida pela maravilhosa Tânia Maria, e sua luminosidade, em meio a uma cidade de ruas escuras onde a bandidagem trama encontrá-lo; as ruas por onde corpos circulam, torturados e clandestinos, nos porta-malas da ditadura, para nunca mais serem encontrados. Marcelo encontra Dona Sebastiana e seu protetorado, numa Recife que agora é de frutas e árvores e terreiro.
Pernambuco, tão masculino,
que agrediu tudo, de menino,
é capaz das frutas mais fêmeas
e da femeeza mais sedenta.
(As frutas pernambucanas, de João Cabral de Melo Neto)
Dona Sebastiana é um marco, é vida. Humor, deboche e amor. Em Dona Sebastiana tem sonho e realidade. Não separados, como água e óleo, não como opositores, mas entrelaçados. Pois um depende do outro. Um constrói e sustenta o outro. A casa de Dona Sebastiana é um centro de acolhimento e dispersão, de proteção, encontros e despedidas. Um ponto convergente de gente que nunca mais vai se ver.
Quero falar do filme sem contar o filme. Quero tangenciar as narrativas, muitas, que se perseguem no Agente Secreto. Você, que não assistiu ao filme, quero que você fique curioso. Quero que você saiba que não precisa ter nascido no Recife e crescido nas suas ruas então escuras, para compreender a injustiça, o amor, a solidariedade de um povo e sua luta em tempos de escuridão. Tem de tudo no filme. Tem beijo e tem bala, tem sangue como nos bons faroestes, tem o desenredo da burocracia publica, aa informação e a desinformação, tem paixão e susto, tem a Perna Cabeluda assombrando e divertindo os incautos, tem homens perdidos e mulheres rainhas de seus destinos, tem bandido e anjo da guarda. Tem o Brasil inteiro, seus conflitos históricos, sua violência e redenção, dentro de uma única cidade. Recife. São muitas camadas, numa espécie de arqueologia, revelando peças que vão se juntando na nossa cabeça, na nossa memória, dando formar a algo impronunciável: o terror do estado contra o cidadão. Ontem, como hoje.
E se você se dispuser a ser brasileiro no século 21, a ter coração e indignação, vai entender facilmente O Agente Secreto. Vai se acostumar rapidamente com as ruas que não são do Rio de Janeiro e com o sotaque, que é mais um sotaque nesse país de tantos sotaques, tantas falas e gírias que se encontram e se misturam e se comunicam. Não é turismo. É encontro.
Então assista ao Agente Secreto e encontre comigo. Com meu pai, que, segundo minha irmã, com seu trabalho em transportes rodoviários, ajudava jovens a escaparem do regime. Com meu tio que foi preso, com gente que sumiu, com famílias despedaçadas pelo sequestro e pela tortura; com Dona Sebastiana e a gente das ruas, como você. Assista e descubra quem é o Agente Secreto, a grande pergunta que não quer calar. Eu tenho uma teoria… o agente secreto é o próprio filme! Espionando as entranhas dos anos 1970, infiltrado na resistência ao regime, codificando e carregando mensagens para futuro, para contar uma história que precisa ser contada, entendida e passada adiante. Para que NUNCA MAIS aconteça de novo.
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