Sobre espíritos, confortos e gibis

Qual a graça de viver infinitas vidas? Mistério

Por André Forastieri

Ele veio ao mundo no dia primeiro de outubro de 1804 com nome de gente importante: Hipollite León Denizard Rivail. Mesmo assim decidiu trocar de nome. Deixou o mundo conhecido como Allan Kardec em 1869. Para alguns ainda está na área. Só desencarnou. E reencarnou?

Jamais entenderei a atração desse conceito, viver muitas vidas. Ainda mais reencarnar sem consciência do que viveste anteriormente. Qual a graça?

Mistério. Mas 900 milhões de seguidores do hinduísmo, quase 400 milhões de budistas e 13 milhões de espíritas vivem com a convicção de que viveram antes e viverão novamente.

Quem tem religião normalmente acha todas as religiões exóticas e impossíveis, menos a própria. Ateu militante, penso assim sobre todas.

São histórias que a humanidade criou para explicar o cotidiano e o inexplicável; para dar sentido a nossas breves, desafiadoras passagens pela existência. Porque nos agarramos a mitologias de milênios atrás? Porque pouca gente encontrou coisa mais poderosa para substitui-las.

Entre todas essas fábulas que tanto sucesso e às vezes estrago fazem, o que me parece particularmente estrambótico no espiritismo são as explicações pseudocientíficas. Às vezes até de ficção científica. Faz sentido: espiritismo e ficção científica são quase contemporâneos. O marco fundador da FC, “Frankenstein”, foi publicado em 1818.

Um grande amigo que é espírita (ou mais ou menos, a mãe é hardcore) costumava me emprestar um livros espíritas sci-fi. Continham explicações sobre almas de outros planetas. Descrições detalhadas de civilizações alienígenas. Desvendavam viagens interdimensionais. Quarteto Fantástico perde.

Pseudociência é divertidíssimo em filmes da Marvel. Na vida real o que funciona decentemente é o método científico, a maior invenção da humanidade. Mas liberdade é tudo. Que cada um creia no que bem entender (e respeite a liberdade do outro crer no que quiser ou em nada).

Naturalmente é sedutora e reconfortante a ideia de poder se comunicar com os mortos, queridos ou célebres. Adoraria bater um papo hoje com meu pai ou Oscar Wilde. Talvez seja esse o grande apelo do espiritismo, que tem mais de 15 milhões de seguidores no mundo.

O Brasil é o país com o maior número de espíritas, entre três e quatro milhões. Alguns são espíritas e cristãos, outros espíritas e umbandistas e tal. O espiritismo tem essa qualidade: não arruma treta com outras religiões.

Esse sucesso todo por aqui é principalmente responsabilidade de Chico Xavier, o popstar do espiritismo. Foram mais de vinte milhões de cópias vendidas de 412 livros psicografados por Xavier, toda a grana ou quase doada para a caridade. Não é pouca coisa. Nos anos 70, Chico estava toda semana na revista Manchete e nas manchetes. Multidões faziam romaria para visitar o médium em Uberaba. Não deixou herdeiros, mas tem até hoje seguidores fidelíssimos.

O Doutor Jorge Armbrust Figueiredo, professor de Neurologia da USP em Ribeirão Preto, defendeu nos anos 50 tese de cátedra relacionando a epilepsia do lobo temporal com o fenômeno mediúnico.

O eletroencefalograma de Chico Xavier acusava lesão de têmpora esquerda. Eu vi. Meu pai era psiquiatra e estudou em Ribeirão Preto exatamente nesta época. Ganhou cópia do exame e guardou. O estudo não é exceção. Há vários internacionais com resultados similares.

Há evidências que tribos africanas tentavam desenvolver percepção extra-sensorial escarificando a têmpora de crianças com lascas de pedra. Com isso pretendiam criar xamãs, profetas, pajés. Gente capaz de, durante as crises epilépticas, fazer previsões de interesse tribal.

Quer uma lista de criadores que – dizem – tinha epilepsia do lobo temporal? Lewis Carroll, autor de Alice no País das Maravilhas. Edgar Allan Poe. Philip K. Dick, o mais influente escritor de ficção científica da contracultura. A poeta Sylvia Plath. Imaginações poderosíssimas. Agora você decide: as mensagens dos mortos, os livros psicografados, são só alucinações causadas pelo tumor? Ou as mensagens são verdadeiras, mas somente quem tem o tumor consegue captá-las?

Uma amiga espírita talvez dissesse: isso não é o mais importante. O importante é o sentido das mensagens. Hmm, sei não. Sou da turma que acha que o meio é a mensagem.

Mas lembro de uma conversa que tive uma vez com meu pai.

Jovem, questionei: como é que ele, médico, tendo em casa os exames do Chico Xavier, sabendo o que sabia sobre psicose, esquizofrenia e epilepsia, podia ter como cliente no consultório um sujeito que era o maior líder espírita da cidade?

João Carlos respondeu: “Ele faz uma coisa muito importante, meu filho: conforta as pessoas.”

P.S.: LEIA GIBI

Recomendo muito Kardec, uma estilosa e emocionante HQ dos brasileiros Carlos Ferreira e Rodrigo Rosa, concentrada na transição de Hipollite para líder espiritual. Você pode ser um ateu cascudo como eu e curtir mesmo assim. Hei, publicamos na Conrad o Buda de Osamu Tezuka, treze volumes. Quando se trata de HQ bacana, sou agnóstico.

Rodrigo é criador da Editora Figura, que publica alguns dos maiores gênios dos quadrinhos: Toppi, Bernet, Breccia, McKay. Também álbuns nacionais brilhantes como O Contestado, de André Caliman e As Aventuras do Anjo, de Flávio Colin.

Esse catálogo impecável ganhou recentemente uma biografia caprichadíssima de dos um grandes, o insuficientemente conhecido João Baptista Mottini, de brilhante carreira no Brasil e ainda mais na Argentina. Rosa foi amigo de Mottini e o afeto está nas páginas, repletas de sketches, ilustrações, gibi. Para conhecer e comprar, clique na capa abaixo.

Cada um encontra conforto onde consegue. Eu nas páginas de livros e gibis; e nos papos preciosos do passado e presente. Infinitas vidas que me acompanham onde vou – espíritos protetores.

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