Por Jânio de Freitas, no Poder360

O ataque de Donald Trump, e mesmo o próprio Trump, podem trazer benefícios importantes ao Brasil, a depender de como o governo procure reequilibrar o jogo. A melhor receita é ainda a velha combinação de calma e criatividade. Disso o Brasil não tem prática, mas a recepção dada à carta agressiva de Trump permite esperanças.

Objetiva e sem bravata, a resposta do presidente Lula recusou-se ao bate-boca sempre buscado por Trump para realçar seu autoritarismo intimidatório. Por certo não foi a resposta brasileira esperada em Washington. Na verdade, também não aqui, já ouvidas várias críticas de Lula a Trump – com fundamento factual, ressalve-se.

Para servir às premissas de calma e criatividade, os 3 assessores presidenciais mais convocados ao caso parecem feitos sob medida. A engenhosidade e a experiência de Celso Amorim, a alta habilitação diplomática de Mauro Vieira e a inteligência brilhante de Fernando Haddad equiparam-se na mesma calma reflexiva (assim, quase à toa, de repente se relembra que o Brasil tem quadros valiosos, sim).

Armas de Trump na guerra econômica que desfechou contra o mundo, as tarifas, no ataque ao Brasil, são armas de política. Sem mudarem o motivo de seu uso: sempre os interesses econômicos dos Estados Unidos e a dominação que requerem. O percurso possível para isso, no Brasil atual, é derrubar as forças locais –políticas e econômicas– que agem pelos seus e pelos interesses nacionais sem distinções geopolíticas. O mundo é um só, e sua desgraça vem da negação dessa verdade primeira.

O Brasil tem muitos recursos para enfrentar o ataque de Trump sem adotar o temerário elas por elas nas tarifas. Os Estados Unidos são muito sensíveis à negação de patentes farmacêuticas, de peças e outros produtos industriais, direitos de filmes e vídeos, de agrotóxicos. Mais: na revisão da liberalidade na remessa de lucros, no sistema de cartões de crédito, no padrão dólar. Na exportação de aços especiais e de certos minérios, nos quais são próximos da dependência. A lista vai longe.

As variadas maneiras de compensar os danos trazidos por agressão com tarifas podem até favorecer parte da indústria, com patentes, e a substituição de matrizes e plataformas de serviços norte-americanas por brasileiras. Há campo para muita ação diversificada do governo. Em tudo isso, empregos.

As contingências sugerem observar o segmento empresarial que alimenta dificuldades para o governo Lula; que já atua para o bolsonarista-trumpista Tarcísio de Freitas em 2026; e alimenta na surdina as trapaças e traições de congressistas para destruir iniciativas de Fernando Haddad. Atingidos no seu coração financeiro pela ação declaradamente pró-Bolsonaro de Trump, é do sempre inaceitável Lula que o empresariado precisa agora. E a quem devem associar-se, tendo contra si os seus representativos políticos. Ironia ou castigo, tanto faz.

O ataque de Trump proporciona a oportunidade, embora de provável ineficácia, para muitos enfim compreenderem a diferença entre interesses privados e causas nacionais. Também o que é governo para as camadas bem fornidas e governo tanto para os que não têm, como para os que mantêm um país de muitos para poucos.

Deixe uma resposta

Recent posts

Quote of the week

"People ask me what I do in the winter when there's no baseball. I'll tell you what I do. I stare out the window and wait for spring."

~ Rogers Hornsby