Bolsonaro tenta negar o golpe, chama seguidores de “malucos” e se complica ao justificar ataques à urna eletrônica

Jair Bolsonaro (PL) foi ouvido nesta terça-feira (10) no Supremo Tribunal Federal (STF), a fim de esclarecer a suposta participação na tentativa de golpe de Estado após a derrota nas eleições de 2022. Porém, em vez de investir na própria defesa, o ex-chefe de Estado quis promover os próprios feitos ao longo dos quatro anos de mandato (2019-2022), além de procurar rechaçar a possibilidade de que estaria envolvido em qualquer golpe, pois um golpe seria abominável. Foi evasivo, mas tentou o tempo todo mostrar uma face mais simpática e cordial com os ministros da Suprema Corte.

Questionado pelo ministro relator Alexandre de Moraes, Bolsonaro afirmou que a acusação da Procuradoria-Geral da República (PGR) não procede e que não teria um motivo particular atribuído à denúncia, apesar de todas as evidências nesse sentido. Sobre a reunião de 5 de julho de 2022, que contou com a presença de ministros, Moraes afirmou que a PGR imputou que houve manifestações para deslegitimar a Justiça Eleitoral, as eleições e as urnas eletrônicas.

Em seguida, o ministro questionou qual era o fundamento que Bolsonaro teria para afirmar que havia fraude nas urnas eletrônicas. 

O réu, então, respondeu que a desconfiança em relação à confiabilidade das urnas eletrônicas não era exclusiva dele e que até o ministro do STF Flávio Dino, após derrota em campanha pelo governo do Maranhão em 2012, teria tecido críticas ao sistema eleitoral. 

Foi então que começou a tática de usar a audiência como palanque, no estilo tosco do bolsonarismo. O ex-presidente disse que a campanha pelo voto impresso foi abraçada por ele ainda em 2013, que não esperava ser eleito presidente da República sem o apoio de grandes partidos e que formou um “ministério excepcional” (de acordo com a percepção popular, segundo a crença dele), provocando risos entre os presentes. 

Entre os “grandes feitos” de seu governo estariam a liberdade econômica, o pix, o abastecimento de água para o nordeste, o aumento do valor do Bolsa Família e o armamento, que teria reduzido a violência em 30%, segundo as teses disseminadas pelos bolsonaristas, sem qualquer estudo sério a comprovar. Citou ainda a privatização do Porto de Santos e de Itaipu como grandes realizações. 

“Quando a gente começa a tapar o ralo da corrupção, aparece uma enormidade de pessoas que vão contra a gente”, argumentou, sem um pingo de constrangimento. Voltou também a utilizar a tática de se dizer perseguido também pela imprensa e, para justificar a desconfiança em relação às urnas eletrônicas, usou um relatório da Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais, em que os profissionais apontam vagamente que “todo sistema eletrônico/ computacional possui vulnerabilidades”.

Bolsonaro afirmou ainda que as reuniões com ministros vazadas para a imprensa foram gravadas de má fé, que não tinha indícios de que os ministros do STF levariam entre R$ 30 milhões e R$ 50 milhões com as fraudes eleitorais. 

“Foi um convite, porque eles têm a mesma formação minha, fizemos a mesma academia, a mesma escola de aperfeiçoamento. Os militares, nas horas boas e ruins, estão contigo. Eu não tinha clima para convidar ninguém, para discutir qualquer assunto. Sobrou para eles, até como um desabafo não entre nós, mas eu para com eles.” 

Segundo ele, o bizarro encontro com os militares tinha como objetivo discutir informalmente alternativas aos impedimentos “desproporcionais” que sofria ao longo da campanha eleitoral, por não poder usar imagens como a do funeral da Rainha Elisabete ou de baixar o preço da gasolina. “O outro lado podia tudo, até me acusar de genocida”, reclamou. 

Bolsonaro também negou ter conhecimento sobre as ordens recebidas pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) para impedir eleitores de votarem no nordeste. “Só tem uma coisa a afirmar para vossa excelência: da minha parte, por parte de comandantes militares, nunca se falou em golpe. Seria uma coisa abominável. Não foi sequer cogitada essa hipótese de golpe no meu governo”, disse, sem aparentar qualquer remorso em relação à verdade dos fatos. 

Tentou brincar bisonhamente com Alexandre de Moraes, pedindo permissão para convidá-lo a ser “vice” em sua chapa às eleições de 2026 – Bolsonaro está inelegível. Antes de Moraes declinar o convite, o ex-capitão pediu desculpas. O fato mais surpreendente do longo depoimento foi a definição que Bolsonaro deu aos manifestantes que se reuniam em frente aos quarteis após a eleição presidencial de 2022. “Malucos”, segundo ele.

“Agora, tem sempre os malucos ali que ficam com aquela ideia de AI-5 e intervenção militar. As Forças Armadas, os chefes militares, jamais iriam embarcar nessa porque não cabia isso aí”, preocupado em tentar livrar a própria pele.

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