O que (não) é ser católico

A religião-bandejão é uma conquista. Defendê-la exige atacar

Por André Forastieri

Viajantes e exploradores em todas as épocas da História sempre se depararam com uma coincidência incomum. Na terra distante aportassem, da ilha mais isolada ao império mais imponente, encontraram as mesmas duas coisas: deuses e drogas.

Não falha. O ser humano bota fé no sobrenatural e em alguma substância pra ficar doidão. Uma erva alucinógena, uma birita fermentada, champanhe, os cogumelos que estão tão na moda.

São profundas e se misturam, nossas necessidades por ruptura e viagem, milagres e fuga. Você não tem nosso DNA? Talvez até dos nossos primos mais velhos.

Esses dias pesquisadores registraram pela primeira vez uma bebedeira na selva. O título da matéria é irresistível: “Chimpanzés selvagens participam de festas regadas a álcool”. Quanto à religião, não sabemos o que se passa no planeta dos macacos, por enquanto.

Demorou, mas recentemente nós humanos conquistamos alguma liberdade de credo. Foi tomada com esforço, é limitada e ainda tateante em muitos cantos do planeta. Nestes dias de conclave, vale escarafunchar seus novos limites.

A Igreja Católica continua a maior do mundo em autoproclamados fiéis. Mas o poder de uma igreja não se mede apenas pela vastidão de seus rebanhos, mas também pela obediência aos seus pastores.

À luz do Evangelho, seria mais justo chamar bela fatia dos católicos de agnósticos. O fiel à Roma hoje pode se permitir desrespeitar uma bela parte das leis para ingressar no Reino dos Céus. O católico hoje pode rezar o padre-nosso e cantar seus mantras. Não podemos crer na infalibilidade do papa, na virgindade de Maria ou no inferno, e mesmo assim ser católicos.

Pode usar camisola, divorciar-se, ter relações com o mesmo sexo e comungar sem amolações no domingo seguinte. Até defender o direito ao aborto, imagine só. Mesmo que tudo isso ainda seja problemático para a Cúria.

O que significa, então, ser católico? Menos que antigamente. É o que garante a sua ainda imensa popularidade, inclusive a de Francisco I. Essa nova flexibilidade é razão para comemoração. Religião bandejão: cada um monta seu prato como quer no bufê da fé.

É o jeitinho bem contemporâneo de cada um curtir o seu sagrado. Como um café do Starbucks que é tirado ao seu gosto; como a mocinha que seleciona os aplicativos para personalizar seu smartphone.

Melhor é que viver sob a inquisição medieval. Muito melhor, aliás, como provar a excelente qualidade de vida em países com maiores percentagens de ateus e agnósticos.

A possibilidade de personalização da sua vida espiritual chama mais atenção no mundo ocidental, de maioria cristã. Até porque a Igreja Católica é a mais antiga, a maior, e uma das mais amarradas por tradições empoeiradas.

O que o papa Francisco entendeu melhor que seus antecessores é essa nova realidade. Em que um líder religioso não pode contar com a submissão automática de suicídios.

Precisa conquistá-los dia após dia. Vencer pela sedução e relevante infidelidades e heterodoxias. Tem que ser menos imperador e mais influenciador. Menos persecutório e mais popstar.

O brasileiro, tão dado às superstições, não é dos povos mais fanáticos. Temos paixão pelas coisas do espírito e horror por cruzadas, com as tristezas e questões discutidas. Nisso somos bem diferentes dos nossos vizinhos latino-americanos, catequizados a ferro e fogo pela Espanha fundamentalista.

Mas em círculos progressistas discutem-se faz tempo e com preocupação a crescente influência no Brasil do neopentecostalismo. É um cristianismo conservador e milagroso, preponderante entre os evangélicos e potente em grandes círculos católicos.

É fato que fatia cada vez maior dos brasileiros está nessa turma. Pessoas inseguras ou ignorantes buscam soluções simples para problemas complexos, inclusive muitos com diplomas e doutorados.

Estamos mal acompanhados. Em muitos outros países cresce uma parcela da população com tendência ao fanatismo religioso. Israel é um deles, o que explica parcialmente o que se passa por lá; terá maioria fundamentalista em poucas décadas.

O Brasil terá maioria de neopentecostais no futuro próximo, dizem as projeções demográficas. E aí?

Cresci no maior país católico do mundo. Qualquer outra religião era vista com desconfiança e reprovação. Hoje nossas crianças crescem em um país em que o cidadão pode ser o que quiser sem maiores amolações. Cristão, budista, espírita, judeu, umbandista, xintoísta, qualquer mistura que você quiser inventar. Ou até agora.

Sem tapar o sol com a peneira: com todos os retrocessos que assistimos, é um Brasil melhor que o da minha infância. Mais tolerante, mais generoso, mais diverso que o dos anos 70.

Avançamos, mas falta um bocado. Sobrevivemos muito preconceito e perseguição em nome de deus, inclusive nas nossas leis e sua aplicação. Consulte para uma mulher que deseja terminar uma gravidez indesejada.

A humanidade é mais sábia hoje que cinquenta ou cem anos atrás; quem sabe será ainda mais no futuro. Quem souber em alguns séculos a Terra será uma sociedade global regida por leis laicas. Um bom projeto: livrar totalmente a humanidade das opressões divinas. Mesmo nesse cenário de sonho, desconfio que fé e fuga, deuses e drogas continuam populares entre nossos tataranetos.

Por enquanto já vale a pena celebrar nossa crescente liberdade de acreditar nas fés que escolhemos, misturadas à nossa preferência. Ou em fé não.

E vale muito proteger e ampliar esta conquista tão frágil. Não será celebrando abjetamente os rituais cinematográficos da Igreja Católica, como se essa pompa expiasse seus muitos crimes. Nem santificando seu papa que partiu – ou o que virá.

É preciso mais que defender o convívio entre diferentes fés. É preciso atacar os intolerantes, que pretendem ditar até aos infiéis como viver, como morrer – e até pra onde vamos depois.

Deixe uma resposta