Com informações de BBC Brasil, Revista Fórum e CNN Brasil

A Polícia Federal (PF) indiciou Jair Bolsonaro (PL) e outras 36 pessoas por suspeita de uma tentativa de golpe de Estado para manter o ex-presidente no poder após as eleições de 2022, vencidas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Entre os indiciados também estão o general Walter Braga Netto, que foi candidato a vice-presidente na chapa derrotada com Bolsonaro em 2022, e o general Augusto Heleno, que chefiou o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) durante o governo de Bolsonaro.
O relatório final com a conclusão da investigação foi encaminhado ao Supremo Tribunal Federal (STF) e acusa os indiciados pelos crimes de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado e organização criminosa. Agora, caberá à Procuradoria-Geral da República (PGR), comandada por Paulo Gonet, avaliar as provas apresentadas e decidir se formaliza uma denúncia contra os acusados.
A PF diz ter obtido provas que comprovam tais crimes ao longo da investigação que já dura quase dois anos, por meio da quebra de sigilos telemático, telefônico, bancário, fiscal, colaboração premiada, buscas e apreensões, entre outras medidas devidamente autorizadas pelo poder Judiciário.
As investigações apontaram que os investigados se estruturaram por meio de divisão de tarefas, o que permitiu a individualização das condutas e a constatação da existência dos seguintes grupos:
a) Núcleo de Desinformação e Ataques ao Sistema Eleitoral;
b) Núcleo Responsável por Incitar Militares à Aderirem ao Golpe de Estado;
c) Núcleo Jurídico;
d) Núcleo Operacional de Apoio às Ações Golpistas;
e) Núcleo de Inteligência Paralela;
f) Núcleo Operacional para Cumprimento de Medidas Coercitivas
Com a entrega do relatório, a PF encerrou as investigações do caso.
Todos os indiciados
A PF confirmou indiciamento de 37 pessoas, todas pelos crimes de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado e organização criminosa:
- Ailton Gonçalves Moraes Barros
- Alexandre Castilho Bittecourt da Silva
- Alexandre Rodrigues Ramagem
- Almir Garnier Santos
- Amauri Feres Saad
- Anderson Gustavo Torres
- Anderson Lima de Moura
- Angelo Martins Denico
- Augusto Heleno Ribeiro Pereira
- Bernardo Romão Correa Netto
- Carlos Cesar Moretzsohn Rocha
- Carlos Giovani Delevati Pasini
- Cleverson Ney Magalhães
- Estevam Cals Theophilo Gaspar de Oliveira
- Fabrício Moreira de Bastos
- Filipe Garcia Martins
- Fernando Cerimedo
- Giancarlo Gomes Rodrigues
- Guilherme Marques de Almeida
- Hélio Ferreira de Lima
- Jair Messias Bolsonaro
- José Eduardo de Oliveira e Silva
- Laercio Vergilio
- Marcelo Bormevet
- Marcelo Costa Câmara
- Mario Fernandes
- Mauro Cesar Barbosa Cid
- Nilton Diniz Rodrigues
- Paulo Renato de Oliveira Figueiredo Filho
- Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira
- Rafael Martins de Oliveira
- Ronald Ferreira de Araujo Junior
- Sergio Ricardo Cavaliere de Medeiros
- Tércio Arnaud Tomaz
- Valdemar Costa Neto
- Walter Souza Braga Netto
- Wladimir Matos Soares
O indiciamento é quando a polícia formaliza, em um inquérito, que há indícios suficientes de que alguém foi autor de um crime para que a pessoa se torne réu em um processo penal.
TRAMA PREVIA GOLPE E EXECUÇÕES
Investigações da Polícia Federal revelam a gravidade da tentativa de golpe de Estado planejada em dezembro de 2022, que tinha como um de seus pilares a execução do ministro Alexandre de Moraes no dia 15 de dezembro. A operação clandestina, chamada “Copa 2022”, envolveu militares de elite e seria sucedida pela instalação de um “gabinete de crise” no dia seguinte, com o objetivo de centralizar o poder e implementar um regime autoritário.
Conforme os registros, a operação “Copa 2022” foi planejada com rigor militar e contava com a participação de ao menos seis militares especializados, utilizando codinomes como “Alemanha”, “Brasil” e “Japão” para ocultar suas identidades. O grupo utilizou técnicas avançadas de anonimização, como celulares descartáveis e linhas telefônicas registradas em nomes de terceiros, para evitar rastreamento.
O plano previa a prisão ou execução do ministro Alexandre de Moraes em Brasília, com base no monitoramento detalhado de seus deslocamentos. Mensagens trocadas no aplicativo Signal revelam que o grupo estava posicionado nas proximidades da residência funcional do ministro, localizada no final da Asa Sul, em Brasília. As comunicações indicam que o grupo aguardava ordens definitivas para realizar a ação.
Entre os recursos destacados para a operação estavam armamento pesado, como metralhadoras e explosivos, além de técnicas de camuflagem e exfiltração, usadas para garantir a retirada dos envolvidos do local sem deixar rastros. O relatório menciona ainda que havia um “ponto de resgate” pré-estabelecido para abrigar os participantes após a execução do plano.
Apesar do planejamento meticuloso, o líder da operação, identificado pelo codinome “Alemanha”, ordenou o cancelamento da ação na noite de 15 de dezembro. Mensagens no grupo indicam que a decisão foi tomada devido a complicações logísticas e à incerteza sobre o sucesso da operação.
INSTALAÇÃO DO “GABINETE DO GOLPE”
No dia 16 de dezembro, o golpe avançaria para uma nova etapa: a instalação de um “gabinete de crise”, cuja minuta foi redigida e modificada no mesmo dia do plano de execução. O gabinete seria liderado pelo general Augusto Heleno, com coordenação do general Braga Netto e apoio estratégico de outros militares de alta patente, como o general Mario Fernandes.
A estrutura do gabinete tinha como objetivo “restaurar a legalidade e estabilidade institucional”, segundo os documentos, mas seu propósito real era consolidar o controle militar sobre o país. Entre suas atribuições estava a coordenação de um novo pleito eleitoral, sob supervisão das Forças Armadas. Além disso, o Superior Tribunal Militar (STM) seria acionado para criar um “arcabouço jurídico robusto” que justificasse as ações.
Os registros indicam que o golpe também previa intervenções diretas contra outras autoridades e líderes políticos, incluindo o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva e o vice-presidente Geraldo Alckmin. A operação chamada “Punhal Verde e Amarelo” tinha elementos em comum com a “Copa 2022”, como a participação de forças militares de elite.