A vida, morte e outra vida da SPIN

Por André Forastieri

A SPIN voltará a ser impressa. Edições trimestrais. A pauta da primeira é pra coroa, como era de se esperar: Jane´s Addiction, Rakim, Guided By Voices. As novidades são de dez anos atrás pra mais, Dwarves, Suki Waterhouse. Capa country genérico, porque diabos, Lainey Wilson.

A revista é a sombra da sombra que foi, trocou de donos várias vezes, o site é gelado etc. Mas o novo editor é o fundador da revista, Bob Guccione Jr., que nesta edição entrevista Bill Maher. E isso me deu vontade de ler.

Tem muito leitor pra revista, eu, por exemplo. O que não tem é publicidade pra revista, tirando segmentada ou de luxo, quando o anunciante precisa de algo mais que um clique para vender seu peixe.

No Brasil, a implosão da Abril, que dominava uns 80% das vendas e publicidade e 100% da distribuição, levou quase todo o mercado junto. Naturalmente, mesmo em países onde ainda existe um mercado saudável de revistas, elas não têm o papel fundamental que já tiveram.

Boa oportunidade para eu republicar este texto abaixo, homenageando o estrago que a Spin fez na minha vida, e que incluí no meu livro “O Dia Em Que o Rock Morreu”.

Celebro o passado e aceito que a Spin não esteja “de volta”. O tempo não volta. Nem mesmo os bons tempos. Mas vivemos em melhores.

SPIN: QUANDO AS REVISTAS ERAM TUDO

O Google digitalizou todas as edições da Spin, a segunda revista mais importante da minha vida. Ela apareceu e tornou a Rolling Stone obsoleta instantaneamente. Era mais punk, mais black, mais moleca, menos baba-ovo dos dinossauros do rock. Uma herdeira digna da revista mais importante da minha vida, a Heavy Metal.

A Spin está lá digitalizada, do início – julho de 1985 a outubro de 2009. Acompanhei de perto vários anos. Hoje compro anualmente. Por acaso, comprei a mais recente, com Courtney Love na capa, e “onde estão eles” – não resisto a essas pautas.

A primeira que comprei foi a de maio de 1986, Charlie Sexton na capa, bonito para caramba.

Você não pode ter noção do que era, com 20 anos de idade, pegar uma revista que tinha quadrinhos (Frank Miller), comediantes radicais (Sam Kinison), stand-ups politizados (Eric Bogosian), Glenn O’Brien explicando os Stones, uma folk singer surfista e lésbica (Phranc), as piores letras de canções punk de todos os tempos, o diretor Julian Temple falando de “Absolute Beginners”, Zarkons, Elvis Costello, Prince, Big Black, Diamanda Galas, uma baita reportagem sobre violência urbana… e uma entrevista com o Dr. Hunter S. Thompson.

Ler esta edição da Spin foi uma daquelas experiências que mudam a sua vida. Li muitas depois. Aprendi muito. Carreguei algo, muito da Spin para meus primeiros empregos – na Folha, na Bizz – e para a General, revista de que fui um dos fundadores e, vá lá, pivô inicial.

Eu podia ficar escrevendo aqui um ano sobre a Spin e caras que descobri lá e caras que escreviam lá. Ou sobre Bob Guccione Jr., fundador da Spin, filho do fundador da Penthouse.

Brigavam como, hmm, pai e filho. Ele começou a Spin com um empréstimo do pai. Perdia rios de dinheiro. Bob pai foi lá e fechou a revista. Bob filho arrumou uma grana e reabriu no mês seguinte.

Bob era o cara, e a Spin teve sua cara – e suas idiossincrasias – até 1997, quando vendeu o título. Depois lançou a Gear, comprou a Discover, perdeu, e sei lá o que faz hoje.

Bob era um personagem – como Jann Wenner na Rolling Stone, Hugh Hefner na Playboy. Arrumava brigas a torto e a direito. Axl Rose o chamou para a briga em “Get In The Ring”. Tinha fama de gay e de pegar a mulherada. Duas namoradas famosas: a hiperdireitista Ann Coulter e Candace “Sex & The City” Bushnell, a Carrie original.

Nestes dias de internet – que são muito melhores que os daquela época, acredite – toda informação do mundo está ao nosso alcance. Um resultado: bombas mentais de efeito concentrado deram lugar a traques.

A audição repetida, valorizada, focada de um álbum que custou caro e que você levou meses para conseguir comprar é uma experiência completamente diferente de ver um videozinho no YouTube ou baixar mil canções em cinco minutos.

Vale para revistas. Ninguém no século 21 atribuirá a importância que a gente atribuía a uma mísera edição de uma revista, a um livro que você releu cinco vezes, a um gibi amarelado. Perdemos muito. Ganhamos mais. A vida é assim.

Hunter naquela Spin: “a garotada olha para mim como se eu fosse de outro planeta.”

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