POR GERSON NOGUEIRA
A interpretação marcante de Grant Hart e o solo desdobrado de Bob Mould na guitarra são os pontos altos de Pink Turns to Blue, rockão que abrilhanta o LP Zen Arcade, do Hüsker Dü. É claro que muita gente da novíssima geração nem se deu conta da importância desse grupo pós-punk e célebre pelas apresentações vibrantes, cultuado ali na encruzilhada das décadas de 70 e 80.
Bandas respeitáveis vieram na esteira da explosão de Sex Pistols, Ramones e The Clash, expoentes do movimento punk. Surgiram New Order, The Cure, Gang of Four, PIL, Joy Division, Echo and the Bunnymen e Killing Joke (na Inglaterra); Fugazi, R.E.M., Sonic Youth, Mission of Burma, Melvins, Violent Femmes, Replacements e Dinosaur Jr., nos EUA, entre tantos outros.
Em meio a isso, nasceu o Hüsker Dü, de St. Paul (Minneapolis, EUA), em 1979. No começo, o som era puro hardcore, com canções curtas, sem solos de guitarra e muita gritaria. Bob Mould (vocal, guitarra), Grant Hart (bateria, vocal) e Greg Norton (baixo) eram os fundadores, todos garotos oriundos da classe média baixa.
Hüsker Dü era diferente das demais bandas nascidas na era Reagan. As letras contornavam insatisfações políticas ou de natureza classista. Centravam fogo em problemas pessoais e existenciais. A banda tinha um nome esquisito, que não significava nada (“Husker Du” era um jogo de tabuleiro e a tradução literal do nome é: “Você lembra?” em norueguês).
Depois que tiveram o primeiro LP recusado por várias gravadoras, eles decidiram criar a própria gravadora (Reflex) e lançaram “Everything Falls Apart” (12 canções em 19 minutos). Para divulgar o trabalho, montavam shows na região e criaram coragem para excursionar pelo país.
Deu certo. Intensos e velozes, bem ao estilo Ramones, eles encantavam plateias com um jeito diferente. Emendavam uma música no rabo da outra, sem anunciar. O público gostou e o Hüsker Dü logo passou a ser cortejado por selos independentes. Assinou com o SST e a música deles começou a se transformar, deixando o hardcore para trás.
Zen Arcade (1984), duplo e temático, foi o primeiro destaque comercial do Hüsker Dü, despertando atenção de grandes gravadoras. O disco é um dos pilares do conceito “emotional hardcore”, um estilo de punk rock menos agressivo e melodioso. Esse subgênero inspirou outras bandas – Green Day e Seaweed – e depois deu origem ao que hoje chamamos de “emo”.
Para espanto geral, o Hüsker Dü de repente resolveu aceitar a oferta de uma grande marca, a Warner. A verdade é que Mould, Hart e Grant estavam cansados da dureza da cena alternativa (chegaram a recusar pagamentos de royalties para ajudar o selo SST, numa fase de vacas magras).
O problema é que o nível de paciência entre os membros da banda estava no limite. Mould e Hart não se davam bem e, já na Warner, Hart recebeu o diagnóstico positivo para o vírus HIV. Deprimido, viciou-se em heroína e o clima foi ficando ainda mais difícil.
Em 1987, depois de outra treta feia com Mould, o baterista e cantor deixou deixou o Hüsker, que findou ali sua curta trajetória. Seis meses depois, Hart descobriu que o diagnóstico estava errado: ele não era soropositivo. Morreu de outras causas, em 2017.