Promiscuidade embala a relação entre jornalismo econômico e os arautos do “deus mercado”

Informação foi divulgada por Luís Costa Pinto, que desnuda o conluio da mídia neoliberal. “BTG, Empiricus, XP, C6 Bank, Ágora etc, têm sites, blogs e outros veículos por meio dos quais impactam diretamente o mercado”

Demitida da Record por especular com o dólar distorcendo trechos da entrevista que fez com Lula, a jornalista Renata Varandas tem como analista em sua empresa, a Capital Advice – uma consultoria que presta serviços a investidores -, a também jornalista Mariana Londres, que atua como analista de “economia/energia/legislação” no portal Uol, do grupo Folha.

A informação foi revelada na rede X pelo jornalista Luis Costa Pinto e confirmada pela Fórum por meio das redes sociais. Na plataforma profissional LinkedIn, Mariana se descreve como “analista político sênior, mapeando riscos e oportunidades para investidores e gestores de ativos no Brasil”.

No portal, a jornalista direciona suas análises em consonância com o “mercado”, como no caso das contas pública com um artigo de 20 de junho que diz que “Lula vai ter que escolher onde dói menos cortar”. A analista ainda aposta na defesa de Roberto Campos Neto e na “autonomia” do Banco Central no embate contra Lula. 

“A Comissão de Valores Mobiliários não teria de regular e vigiar as ações, as colunas e a vida financeira dos sócios dessas consultorias e dos jornalistas que escrevem sobre temas sensíveis ao mercado? Nos EUA a SEC fica responsável pelas aplicações de colunistas como elas”, diz Costa Pinto. Em sua publicação na rede X, Costa Pinto revela ainda o conluio da mídia liberal com consultorias, bancos e atores do sistema financeiro.

“Aqui, BTG, Empiricus, XP, C6 Bank, Ágora etc, têm sites, revistas eletrônicas, blogs e outros veículos por meio dos quais impactam diretamente o mercado. Usados por esses “advisors”, pagos ou não por eles, sócios ou não deles, jornalistas ajudam a manipular o mercado. Escândalo”, emenda.

Sócia da Capital Advice, Renata Varandas foi demitida nesta quinta-feira (18) pela direção da TV Record por antecipar ao mercado trechos descontextualizados da entrevista com Lula, que foi ao ar no Jornal da Record, na noite de terça-feira (16).

A Fórum apurou que o caso provocou irritação extrema na direção da emissora porque encobriu o que seria a principal pauta jornalística da emissora na semana.

ESPECULAÇÃO

No final da manhã, a informação de que Lula havia afirmado na entrevista que “ainda precisava ser convencido sobre a necessidade de cortes de gastos” já circulava entre especuladores do mercado financeiro, sendo que a Record TV só começou a divulgar trechos da entrevista no início da tarde e a íntegra foi veiculada na parte da noite. 

A especulação gerou forte alta no dólar e fez com que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, se pronunciasse, revelando a forma descontextualizada como foi feita a divulgação da fala de Lula. Em documento, a Capital Advice, que tem Renata como sócia e fornece “informação e análise política para investidores” antecipou um trecho da entrevista.

“Em entrevista à Record TV, que será veiculada hoje ao longo dia, o presidente Lula disse que é preciso convencê-lo de que será mesmo preciso cortar entre R$ 15 bi e [R$] 20 bi no relatório de 22 de julho. Disse ainda que se precisar modificar a meta, ele não se opõe”, diz o relatório, gerando a especulação.

Haddad, então, afirmou que a frase foi descontextualizada e que Lula referia-se à margem de tolerância estabelecida pelo arcabouço fiscal para a meta de resultado primário, com 0,25 ponto percentual do Produto Interno Bruto (PIB, soma das riquezas produzidas no país), para cima ou para baixo.

“Ele falou que pode ser -0,1% do PIB, que pode ser 0%, que pode ser 0,1%, entendeu? Isso está inclusive dentro da banda do arcabouço fiscal”, pontuou o ministro. Além disso, o Ministério da Fazenda, logo na sequência, divulgou um trecho da fala de Lula à Record TV em que o presidente se compromete com o cumprimento do arcabouço fiscal 

“Vamos fazer o que for necessário para cumprir o arcabouço fiscal. Eu dizia na campanha que íamos criar um país com estabilidade política, jurídica, fiscal, econômica e social. Essa responsabilidade, esse compromisso – posso dizer para você como se tivesse dizendo para um filho meu, para a minha mulher – responsabilidade fiscal eu não aprendi na faculdade, eu trago do berço”, disse o presidente. 

Em nota, a Record informou que não sabia da ligação de sua repórter com o mercado financeiro e que vai “apurar os fatos” para tomar “medidas cabíveis”. 

“A Record esclarece que soube da ligação da repórter Renata Varandas com a Capital Advice somente após a divulgação do release pela agência. A emissora deixa claro que condena qualquer vazamento de informações, principalmente com recorte parcial do que é apurado em entrevistas feitas por nossas equipes. Medidas cabíveis serão tomadas com a apuração dos fatos”, diz o comunicado da emissora.  

(Com informações da Revista Fórum)

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