Rock na madrugada – The Beatles, “Sargent Pepper’s Lonely Hearts Club Band”

POR GERSON NOGUEIRA

O disco mais revolucionário da história do rock foi todo pensado e produzido por um compositor que tinha somente 27 anos naquela época: Paul McCartney. Foi dele a inspiração para fazer “Sgt. Pepper’s”. A concepção era tão inovadora que deixou todos impressionados. Os engenheiros de gravação não acreditavam nos princípios básicos defendidos por Macca para o álbum conceitual, ideias que ele vinha amadurecendo há tempos desde que os Beatles estouraram nas paradas.

Regras sagradas foram derrubadas naqueles dias de gravação nos estúdios Apple. O disco virou tudo pelo avesso: arte da capa, encarte com letras impressas, arranjos nunca vistos. Lançado em 1 de junho de 1967, Sgt Peppers trazia 13 faixas, com um refinamento técnico e criativo jamais experimentado. A capa foi criada pelo artista plástico e pintor Peter Blake, com uma montagem de imagens de personalidades do século XX. 

Era uma ruptura radical com tudo o que havia sido feito até então, em pleno alvorecer do Verão do Amor. Os orgasmos orquestrais incrustados na música final do lado B (sim, o vinil tinha essa divisão clássica) são como detonadores da consciência crítica e cultural da época.

E há alguns pontos fundamentais a mencionar: quem ouve o LP no fone de ouvido da vitrola percebe a sutil transposição de som, principalmente a parte vocal, como a viajar da esquerda para a direita, ajudando a fincar o som nos corações e mentes.

Ouvi “Sgt. Pepper’s” em Baião, em julho de 1970, três anos depois de seu lançamento oficial, utilizando minha velha e simpática eletrola portátil Phillips, alaranjada, fácil de manejar e carregar de um lado a outro.

Ela custou uns 200 cruzados, verba que consegui juntar aos poucos com as comissões que avó Alice me dava pela venda de doces nas ruas da cidade. Tempos bons, principalmente para quem amava música. Soube do disco pelo rádio (PRC-5, claro) e não sosseguei enquanto não mandei comprar na capital. Valeu cada centavo.

Lembro até hoje do cheiro único do álbum sendo aberto, libertado do plástico, com aquele encarte em papel especial e fotos, muitas fotos. Um espetáculo visual feito sob medida para um moleque de 12 anos se extasiar. Minha irmã Sônia me contou, há meses, que o disco e todos os encartes seguem bem guardados num velho baú de lembranças, como aliás toda relíquia deve ser tratada.

Sobre a canção-título, guitarras flamejantes tecem a parede sonora inicial, com Paul pilotando a guitarra solo e o baixo de sempre. John cuidou da guitarra base, George sequenciou a linha de guitarra de Paul. Ringo fez estragos na bateria, um monstro. Curioso é que apenas alguns dias após o lançamento, outro gênio, Jimi Hendrix, executou a música em Londres diante de um Macca boquiaberto.

Era a história do rock sendo escrita em letras gigantes.

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