A cruel arte da autossabotagem

POR GERSON NOGUEIRA

Um dos piores exercícios de crueldade a que um time pode submeter o seu torcedor é o que o Botafogo faz presentemente no Campeonato Brasileiro. Depois da campanha empolgante no turno, o time caiu verticalmente de rendimento, após sucessivas trocas de comando. A torcida, que não festeja o título nacional desde 1995, foi levada a acreditar que seria desta vez. A caminhada errática no returno indica que não.

Jogo após jogo, tudo fazia crer que ninguém impediria a chegada do Botafogo. Como ninguém impediu, o próprio Botafogo decidiu se autossabotar, caprichando na arte de se atrapalhar em jogos fáceis.

O mais recente capítulo dessa ópera se desenrolou ontem à tarde. Depois de sustentar um placar de 1 a 0 sobre o Santos, perdendo várias chances de gols e com o jogo controlado, o Botafogo recaiu no mesmo erro de outras partidas recentes. Descuidou e terminou entregando o ouro nos minutos finais.

É claro que a questão emocional é determinante para a debacle. Nenhum time desidrata tão rapidamente como ocorreu com o Botafogo. Da mesma forma, nenhum jogador desaprende de uma hora para outra, mas é fato que atletas que encantavam anteriormente – Tiquinho, Adryelson, Cuesta, Eduardo – ficaram irreconhecíveis.

As mudanças de direção tampouco ajudaram. Saiu Luís Castro, o construtor do time, e entrou Bruno Lage, com direito a um curto e vitorioso período com Cláudio Caçapa. Lage caiu após resultados ruins e o elenco apoiou a efetivação de Lúcio Flávio. Não deu certo. Veio Tiago Nunes, e continua a não dar certo.

Fica óbvio que o problema não está exatamente no comando, mas no processo de execução do planejamento de campo. A competência com que o Botafogo envolvia seus adversários, com velocidade e compactação do meio para frente, deixou de existir.

Cabe observar que um time que dispara na liderança passa a ser mais observado, mapeado nos mínimos detalhes. Não deve ter passado despercebido aos outros técnicos que a jogada mortal do Botafogo nascia de lançamentos longos de Eduardo para Tiquinho. De um momento para outro, o meia não encontrou mais brechas para lançar e seu futebol minguou.

O ataque se movimentava com velocidade pelas pontas, através de Victor Sá e Junior Santos. Ambos passaram a receber marcação dobrada e deixaram de ter espaço para explorar pelos lados.

Inconscientemente, o Botafogo passou a entrar em campo com a confiança abalada e duvidando de suas forças. O oposto do que ocorria antes, quando as seguidas vitórias funcionavam como fator de reforço emocional.

Para se reencontrar e evitar apagões como ocorreu diante de Palmeiras e Grêmio, o Botafogo terá que cuidar da cabeça. O problema, mais do que nunca, está na própria capacidade de se achar capaz de voltar a vencer.

Palmeiras lidera, mas a disputa segue embolada

A três rodadas do fim da competição, ninguém arrisca a cravar com segurança quem será o campeão brasileiro. A imprevisibilidade é a marca desta Série A. Palmeiras e Flamengo têm 63 pontos, sendo que a equipe paulista lidera por ter maior quantidade de gols marcados, uma vantagem que ainda pode ser superada.

Em terceiro lugar, o Botafogo soma 62 pontos e ainda sonha com a taça, apesar do longo jejum de vitórias. O Atlético-MG é o quarto, com 60 pontos, seguido pelo Grêmio, quinto colocado com 59, e pelo Bragantino, o sexto, também com 59.

São maiores as probabilidades de título para os quatro primeiros, embora Grêmio e Bragantino não possam ser descartados. Vai depender muito da próxima rodada, que tem o Palmeiras enfrentando o rebaixado América-MG, o Flamengo contra o Atlético no Maracanã e o Botafogo encarando o também rebaixado Coritiba.

A sequência palmeirense é claramente a mais favorável. Terá nas últimas rodadas o Fluminense e o Cruzeiro como adversários. O Flu vai poupar os titulares, em função da preparação para o Mundial de Clubes. Fecha a campanha diante do Cruzeiro, que pode chegar ao jogo já rebaixado.

Além do Galo, o Flamengo joga com o Cuiabá (em casa) e com o São Paulo (fora). Dois adversários que já não correm nenhum risco e não aspiram mais nada na competição. Os dois últimos compromissos do Botafogo são contra o Cruzeiro (casa), lutando contra o rebaixamento, e Internacional (fora).

A rota do Atlético-MG não é das mais difíceis. Recebe o São Paulo e encerra participação contra o Goiás, praticamente rebaixado.

Com tantas oscilações registradas ao longo da disputa, é pouco provável que não ocorram novas surpresas até a 38ª rodada. Por ora, nenhum dos seis primeiros pode jogar a toalha.

Série B: rodada final gera emoção e alguma estranheza

A Chapecoense conseguiu se livrar no confronto final, derrotando o campeão Vitória. Já o Sampaio Corrêa não teve a mesma sorte, caindo na derrota para o Sport, que também saiu frustrado por não alcançar o acesso. Festa mesmo quem fez foi o Atlético-GO, com o acesso obtido em vitória categórica sobre o Guarani.  

Já o Vila Nova foi a nova vítima do turbinado ABC, que de uma hora para outra começou a ganhar jogos improváveis. Cheiro forte de mala no ar. Da mesma forma que pareceu estranho o ocorrido em Fortaleza, onde o Juventude subiu ao derrotar o Ceará de virada.

Um jogo dos mais esquisitos. No primeiro gol dos gaúchos, o goleiro do Ceará soltou a bola nos pés do atacante. Quando a partida estava empatada, foi desmarcado o penal legítimo em favor do Ceará. Os instantes finais mostraram uma acomodação exagerada dos donos da casa. Detalhe: o Juventude teve um jogador expulso no 1º tempo. 

(Coluna publicada na edição do Bola desta segunda-feira, 27)

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