POR GERSON NOGUEIRA
Sem a menor pretensão de ficar repetindo aqueles bordões ufanistas, próprios de certa mídia apelativa, pode-se afirmar que no sábado à tarde o Fluminense era o Brasil em campo contra o Boca Juniors, legítimo representante da Argentina campeã mundial. A decisão da Conmebol Libertadores foi, aliás, o primeiro confronto entre brasileiros e argentinos depois da conquista dos hermanos na Copa 2022 – e vencemos.
Esperava um jogo mais bonito tecnicamente, mas prevaleceu a batalha da transpiração no meio-de-campo e nos confrontos de grande área. O Fluminense foi sempre o time mais ágil e bem distribuído em campo, praticando o estilo vistoso de sempre.
Apesar da marcação de trincar os dentes, o Boca não parecia preparado para as triangulações rápidas pelos lados do campo. Competência e sincronização nos passes sempre foram virtudes dos times de Fernando Diniz e explodiram de vez neste Fluminense de poucos talentos, mas de muitos obreiros inspirados.
Marcelo, enquanto teve fôlego, foi fundamental na faixa direita. Paulo Henrique Ganso percorreu o espaço entre as intermediárias com o espírito guerreiro que muitos duvidavam que tivesse, ajudando André no combate encarniçado que se travou na meia-cancha. Chegou até a encarar um duelo de cabeçadas com o truculento Valentini.
Árias e suas arrancadas, sempre consequentes e objetivas, bagunçaram o setor defensivo argentino. Keno, pela esquerda, não teve um bom início, mas quando se aventurou pela direita, foi fundamental.
Em troca de passes com Samuel Xavier, avançou até a linha de fundo e dali descolou um passe perfeito para o artilheiro Cano, que não desperdiçou. Pegou de primeira, rasteiro, no canto direito de Romero.
O gol deixou o Flu mais confiante, embora sem manter a presença ofensiva. Do outro lado, o ataque não funcionava, principalmente porque Cavani estava apático. Não fez uma finalização perigosa. Merentiel, bem menos badalado que ele, foi mais participativo.
A vantagem do 1º tempo não se sustentou na etapa final. Cansado, o Flu precisou abrir mão de Marcelo e Felipe Melo. Foi justamente nesse período de transição que o Boca ressurgiu, inflamado como sempre. Aos 27 minutos, Advíncula deu um corte para o meio e acertou um chute cruzado, que o fervoroso Fábio aceitou.
Veio a prorrogação e as emoções se intensificaram. Ninguém desconhece a fama e a valentia do Boca, um time que adora momentos decisivos. O Flu, porém, estava predestinado.
John Kennedy saiu do banco para, aos 8 minutos, estufar as redes de Sergio Romero. Um golaço. Foi outra assistência preciosa de Keno, um dos grandes heróis da decisão.
O velho Nelson disse, há 70 anos, que o Fluminense nasceu com a vocação da eternidade. Quem agora há de discordar dele?
Tricolor crava melhor sequência brasileira no torneio
Como tantos brasileiros, cresci acompanhando a batalha dos títulos continentais, invejando a liderança (que parecia intransponível) da Argentina na conquista da Libertadores da América – nome belíssimo que a Conmebol resolveu podar. E não é que aquela ampla vantagem dos vizinhos virou fumaça nos últimos anos?
O Brasil detém hoje a maior hegemonia na conquista do torneio, ostentando uma marca que nenhum outro país conseguiu até hoje. Vencedor consecutivo desde a temporada 2019, o futebol brasileiro tem a maior sequência de vencedores da história da Libertadores.
Foram cinco títulos seguidos: dois do Flamengo (2019 e 2022), dois do Palmeiras (2020 e 2021) e um do Fluminense neste ano. A Argentina teve sua melhor sequência de 1967 a 1970 (com os três campeonatos do Estudiantes de La Plata e um do Independiente).
A disputa que se impõe é a do acúmulo de títulos. A Argentina tem 25 conquistas contra 23 do Brasil, sendo que a tendência atual indica que a ultrapassagem pode ocorrer ainda nesta década.
Os argentinos acumularam todos esses troféus no período da Libertadores raiz, com estádios de campo varzeano, vitórias arrancadas na marra e decisões que pareciam mais disputa de boxe do que de futebol.
Independiente (7), Boca (6), Estudiantes e River Plate (4), Racing, Argentinos Juniors, San Lorenzo e Vélez Sarsfield (1) são os campeões do lado de lá. Da banda de cá, aparecem cinco tricampeões (Flamengo, Grêmio, Santos, Palmeiras e S. Paulo), dois bicampeões (Cruzeiro e Inter) e Atlético-MG, Corinthians, Vasco e Fluminense, que têm um título cada.
Canaã dos Carajás levanta a taça da Segundinha
Canaã dos Carajás é o campeão da Segundinha (Série B1) do Campeonato Paraense. Derrotou o Santa Rosa jogando em casa, ontem, por 1 a 0, no estádio Benezão. O título inédito veio após uma partida equilibrada, de forte marcação, e que foi decidida num lance meio atrapalhado.
Aos 41 minutos, após cobrança de falta na área do Santa Rosa, a bola desviou no jogador Adauto e foi morrer no fundo das redes. O time da capital saiu em busca do empate, mas não conseguiu marcar.
O Canaã quase ampliou no 2º tempo, através de Wallace e Zé Paulo, mas o veterano goleiro Felipe fez boas defesas e evitou que os donos da casa chegassem ao segundo gol.
Depois da partida, jogadores, comissão técnica e torcedores festejaram a conquista do campeonato e o acesso à primeira divisão. O Santa Rosa, mesmo derrotado na final, sai do torneio com o acesso assegurado.
As duas equipes foram formadas a partir de projetos empresariais, com investimentos que resultaram em boas contratações e na obtenção dos objetivos buscados. Para disputar o Parazão, especula-se que os dois times irão em busca de mais reforços.
Uma curiosidade: como a região sudeste do Pará é muito associada ao bolsonarismo, o time do Canaã entra sempre em campo com a bandeira de Israel, comumente utilizada pelos adeptos do ex-presidente.
(Coluna publicada na edição do Bola desta segunda-feira, 06)